WPO, a organização que quer mais mulheres a liderar empresas em Portugal

Ocupam lugares de chefia em empresas privadas. São responsáveis pela gestão diária das organizações de diferentes setores, em fazer crescer a empresa, criar emprego e fomentar a economia. Partilham experiências e mostram como é possível liderar no feminino. O que têm em comum? Fazem parte da WPO – Women Presidents’ Organization, uma organização sem fins lucrativos dirigida a mulheres presidentes, CEO e diretoras-gerais que possuem empresas que geram negócios de mais de um milhão e meio de euros em Portugal.

A propósito do Dia Internacional da Mulher, estivemos à conversa com Helena Rodrigues, CEO do grupo ALLBY e chapter chair da WPO Portugal desde 2016.

Em que contexto surgiu a Women Presidents’ Organization e que objetivos pretendia atingir?

Helena Rodrigues (HR): Em 1997, a norte-americana Marsha Firestone decidiu fundar a Women Presidents’ Organization (WPO), uma organização que não só acelerasse o crescimento dos negócios liderados por mulheres como aumentasse a sua competitividade, competência e promovesse a segurança destas enquanto líderes. Numa sociedade tão conservadora como a dos Estados Unidos, há cerca de 20 anos, Marsha Firestone sentiu a necessidade de partilhar e aprender com pares temas que faziam parte do seu dia-a-dia e esse foi o objetivo: criar um local seguro, confidencial onde mulheres líderes se apoiem, capacitem mutuamente e sedimentem a base que está por detrás dos processos de tomada de decisão de negócios que valem mais de um milhão.
Por isso, a missão da WPO era então – e continua a ser hoje – proporcionar às mulheres empreendedoras um espaço de colaboração, confidencialidade, compromisso e conexões, para expandir os seus negócios. Na WPO apostamos no grupo de aprendizagem entre pares como modelo educacional e que nos traga soluções para o nosso negócio.

O que mudou nas lideranças globais desde a fundação da WPO, em 1997?

HR: Creio que estamos num ponto de viragem, provavelmente esta é a melhor altura para as mulheres. Porque as mulheres estão a ter cada vez mais oportunidades e consequente reconhecimento no que concerne a gerar receita e empregar pessoas. Na WPO, capacitamos para a tomada de decisão nos negócios e apoiamos o crescimento destas mulheres líderes de negócios de grande responsabilidade.
Os tempos acompanham uma natural evolução da sociedade e por conseguinte existem muito mais oportunidades para as mulheres. As mulheres estão mais capacitadas académica e profissionalmente, têm mais liberdade, sentem-se mais seguras, arriscam mais e socialmente tudo isso é muito melhor aceite.
Hoje, 22 anos depois da fundação, a WPO conta com mais de 1900 membros em todo o mundo. Já está presente em Portugal, mas quer reforçar o número de membros em território nacional. Queremos ajudar na construção de uma sociedade portuguesa mais igualitária, com mais mulheres a chegar ao patamar dos milhões.

Que desafios ainda enfrentam, atualmente, as mulheres líderes e como se combate o preconceito de género?

HR: A nossa experiência na WPO é um pouco diferente do mundo corporate, porque somos um grupo em que a maioria das mulheres são donas do próprio negócio ou fazem parte de empresas familiares, nas quais têm quota. Ainda assim, acredito que as mulheres continuam a precisar de trabalhar mais do que os homens para serem reconhecidas. O preconceito de género deve ser combatido internamente nas empresas, com o suporte de iniciativas públicas, para que todos tenham acesso às mesmas oportunidades.

O termo “feminismo” ainda causa muita confusão na sociedade. Porque será que existe tanta desinformação a este respeito?

HR: Penso que seja por algumas pessoas ainda associarem uma imagem radical ao feminismo. O feminismo radical não é sobre igualdade de género. O feminismo não promove que as mulheres devam ser iguais ou superiores aos homens, apenas que tenham acesso às mesmas oportunidades e reconhecimentos. Pessoalmente e de acordo com os valores da WPO, o nosso foco é no desenvolvimento económico das nossas organizações, das regiões onde elas estão inseridas, na internacionalização das nossas empresas e na consequente criação de emprego.

A evolução da liderança no feminino passa, também, por um maior apoio entre as mulheres, algo que os homens fazem muito bem e há muito tempo?

HR: Sim, sem dúvida. Socialmente e por tradição, os homens têm a prática de se juntar e apoiar no desenvolvimento dos seus negócios e no seu crescimento pessoal, algo que até há muito pouco tempo não era usual nas mulheres, pelo menos para os mesmos fins. Mas penso que essa realidade está a mudar. Em 2018, tivemos a oportunidade de realizar uma cimeira da WPO em Lisboa, onde recebemos mais de cem mulheres de 16 países diferentes para partilharem experiências sobre o papel da mulher nas PME. Ser líder, por vezes, é uma posição solitária e é preciso aprender a adaptarmo-nos a isto. Nós realizamos uma prática mensal com duração de quatro horas, que funciona quase como um advisory board, e que é um espaço seguro para apoio e conversa, em que todos assinamos um termo de confidencialidade. As nossas pesquisas mostram que 60% dos membros da WPO reportaram crescimento nas suas empresas depois de entrarem na organização, o que comprova a importância destas redes de suporte e aprendizagem através da partilha de experiências.

Atualmente, Portugal é considerado o 6.º país do mundo com melhores oportunidades e condições de apoio para as mulheres empreenderem, segundo o Mastercard Index para o Empreendedorismo Feminino. Apesar de ser um bom indicador, o que ainda falta fazer para atingirmos uma sociedade igualitária?

HR: Precisamos de dar visibilidade às mulheres da indústria portuguesa e criar modelos inspiradores para outras profissionais. Desta forma, ajudamos a promover as economias locais, o desenvolvimento económico e a internacionalização dos negócios. Na WPO, procuramos ter membros de vários setores para tornar o nosso grupo ainda mais diversificado. Também estamos a planear ações conjuntas com a Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade neste sentido. Eu acredito na meritocracia, mas considero que as ferramentas para igualar as diversidades ainda são essenciais para conseguirmos diminuir estas diferenças.

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