Vulnerabilidade, ética e bem

Num livro escrito em 1999 por Alasdair Macintyre, Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues, este filósofo britânico procura demostrar porque precisamos nós das virtudes, no fundo, porque precisamos nós de prosseguir o bem. Encontra essa justificação no facto de sermos animais dependentes e racionais.

A nossa vulnerabilidade determina que não podemos enfrentar os perigos e riscos que a vida nos reserva de forma isolada, precisamos dos outros, e nessa medida, somos muito semelhantes aos restantes animais inteligentes: a maneira como enfrentamos os perigos, numa primeira abordagem é, tal como os restantes animais, corpórea.

A nossa relação com os outros é determinante para estabelecermos um mapa de virtudes, eles estão implicados na nossa vida de forma inelutável. Esta afirmação, que coloca o homem numa realidade de cooperação com contornos históricos, permite também que se afirme que o conhecimento não é todo alcançado por inferência (ao estilo cartesiano), mas também através da prática, experiência, das histórias que ouvimos e das tradições que seguimos.

O homem é um animal vulnerável, a sua maneira de pensar, de agir está relacionada com um conjunto de contingências que o ultrapassam, o deixam vulnerável, dependente do pai, do patrão, do Estado, etc.

Esta vulnerabilidade é mais do que suficiente para justificar a necessidade de encontrar uma ética que assente numa ideia de bem que seja compreendida por todos e conduza à realização do indivíduo. A bondade pode ser encarada como o que é bom para o homem enquanto ser humano (comida), e o que é bom como sendo propriedade das coisas que contribuem para uma função específica (curar/remédios); nessa medida poderia dizer-se que o bem é o que traz vantagem ao ser humano como tal e enquanto entidade que vive em sociedade. Ou seja, é bom o que se beneficia a si próprio, aos outros e à sociedade.

Mas agora será preciso encontrar um modelo de racionalidade que oriente a prática na busca desse bem bidimensional. Macintyre diz-nos que será através de uma razão prática independente que conseguiremos discernir o que será o bem para o ser humano.

A razão prática independente de Macintyre ensina-se e desenvolve-se ao longo da vida, com uma importância determinante da educação parental e da figura do professor, o que logo à partida nos deixa clara a nossa condição de animais dependentes, nada nos garante que recebamos a educação certa ou que tenhamos os professores certos.

As fragilidades da sociedade, que tem sempre elementos que escapam à dita normalidade; os rejeitados, os doentes e os incapazes ficam de fora desta possibilidade de usar de forma adequada uma razão prática independente. Macintyre, aduz a justiça para colmatar as falhas do destino, da sorte e do azar.

Sendo nós assumidamente animais dependentes, estamos sempre numa relação com os outros, numa relação de dar e receber, não de forma aritmética, mas com equilíbrios que se fazem através da confiança na sociedade, na justiça; ninguém ficará isolado, perdido, sem ajuda.

Na verdade, lendo as obras de Macintyre não é difícil aderir ao pensamento do filósofo, ele comporta ideias que nos remetem para um mundo ideal que, no entanto, pode correr o risco de ser meramente idealista. Embora se invoque uma razão prática independente, essa razão debater-se-á, sempre e necessariamente, com a multiplicidade, com a pluralidade de tradições, de narrativas plenas de histórias de sucesso e de fracasso, de dor e de prazer, de vontade de poder e de submissão.

A assunção da nossa condição de animais dependentes num gesto de humildade a que somos convocados, serve, por um lado, para ajudar os outros e, por outro, para permitirmos ser ajudados, também para contribuir para responder à pergunta de saber se vamos juntos.

Vamos juntos porque todos nós queremos o bem, porque somos vulneráveis e porque precisamos de uma ética assente numa ideia de bem bidirecional.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial da revista Líder

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