Voltamos ao poder da palavra

Depois de ver o Supremo Tribunal Britânico declarar ilegal a prorrogação do Parlamento, o primeiro debate na câmara dos Comuns entre Boris Johnson e os deputados britânicos foi marcado por um escalada de violência retórica, numa sessão que a imprensa noticiou como uma das horas mais negras daquela democracia. Várias deputadas, sobretudo mulheres, sobretudo trabalhistas, apelaram ao primeiro-ministro para que moderasse a linguagem para não incitar à violência. Aparentemente, vários deputados, de todos os lados, têm recebido ameaças. Uma das deputadas lembrou, particularmente, o assassinato, em 2016, de Jo Cox, uma deputada trabalhista que fazia campanha para que o Reino Unido permanecesse na UE, por um radical de direita.

Ao apelo de várias deputadas, sobretudo deputadas, sobretudo trabalhistas, ao primeiro-ministro para que moderasse a linguagem, Boris respondeu com acusações de hipocrisia. E terminou dizendo que só quando o Brexit se concretizar é que a violência causada pela ansiedade e pela exaustão cessará. Na verdade, todos os lados têm usado palavras violentas para descrever a conduta do outro e, na verdade, no dia seguinte ao debate referido, um homem invadiu o gabinete de uma deputada no seu círculo, não de sabe com que intenções. Fascistas, sabotadores, inimigos, rendição, traição e por aí fora… têm sido usados. Nas televisões, no aftermath, já se apelou a insurgência e condenou a violência. Há para todos os gostos. As palavras importam. E as palavras de Boris Johnson, pela visibilidade, pela posição, pelo carisma, importam mais. Há quem diga que os líderes mais impactantes são os que pensam em como vão energizar o seu povo. Que sabem transmitir confiança às pessoas que dirigem, bem como sabem o que lhes drena a energia. Em vez de falarem sobre planos ou objetivos táticos, são capazes de colar as circunstâncias contemporâneas a algum tipo de oportunidade ou resultado que as pessoas esperam. O que se passa no Reino Unido não é uma novidade. Tem é uma profunda atualidade e enorme visibilidade. E é por isso que vale a pena estar atento.

Por: Sandra Clemente, jurista

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