Uma teoria das virtudes para o nosso tempo, para inspirar as nossas lideranças

Há duas obras do filósofo Alasdair Macintyre que são para mim uma referência quando procuro pensar sobre liderança numa perspetiva ética e moral. Depois da Virtude é uma delas e onde conseguimos entender de forma já bastante clara o que pensa Macintyre sobre o estado que se vivia, no que à ética e moral diz respeito, no início dos anos oitenta. Mas só mais tarde com o seu livro Animais Racionais Dependentes é que nos apresenta a sua proposta para revisão das virtudes aristotélicas. É nesta obra que Macintyre reconhece de Aristóteles a sua biologia metafísica, que tinha negado antes e a própria unificação das virtudes.

É com esta obra que Macintyre consegue demostrar porque precisamos nós das virtudes, encontrando essa justificação no facto de sermos animais dependentes e racionais.

A nossa vulnerabilidade determina que não podemos enfrentar os perigos e riscos que a vida nos reserva de forma isolada, precisamos dos outros, e, nessa medida, somos muito semelhantes aos restantes animais inteligentes: a maneira como enfrentamos os perigos, numa primeira abordagem, é, tal como os restantes animais, corpórea.

A nossa relação com os outros é determinante para estabelecermos um mapa de virtudes, eles estão implicados na nossa vida de forma inelutável, esta é a nossa dimensão de contingência e historicidade que Francisco Sasseti da Mota (na sua tese de doutoramento sobre o tema) muito bem frisa, por contraposição às abordagens iluministas de universalidade e impessoalidade.

Esta afirmação, que coloca o Homem numa realidade de cooperação com contornos históricos, permite também que se afirme que o conhecimento não é todo alcançado por inferência (ao estilo cartesiano), mas também através da prática, experiência, das histórias que ouvimos e das tradições que seguimos.

O Homem é um animal vulnerável, pois a sua maneira de pensar, de agir está relacionada com um conjunto de contingências que o ultrapassam, o deixam vulnerável, dependente, do pai, do patrão, do Estado, eu acrescentaria, do líder.

Esta vulnerabilidade é mais do que suficiente para justificar a necessidade de encontrar uma ética que assente numa ideia de bem, que seja compreendida por todos e conduza à realização de objetivo (filosoficamente falando, de um telos). A bondade pode ser encarada como o que é bom para o Homem enquanto ser humano (comida), e o que é bom como sendo propriedade das coisas que contribuem para uma função específica (curar/remédios); nessa medida, poderia dizer-se que o bem é o que traz vantagem ao ser humano como tal e enquanto entidade que existe em sociedade. Ou seja, é bom o que se beneficia a si próprio, aos outros e à sociedade.

Mas agora será preciso encontrar um modelo de racionalidade que oriente a prática na busca desse bem bidimensional. Macintyre diz-nos que será através de uma razão prática independente que conseguiremos discernir o que será o bem para o ser humano.

As virtudes da dependência reconhecida são a companhia da razão prática independente na construção de uma ética das virtudes, capaz de fazer face ao caos provocado pelo emotivismo responsável por um liberalismo feito de autonomia ilimitada.

A razão prática independente de Macintyre ensina-se e desenvolve-se ao longo da vida, com uma importância determinante da educação parental e da figura do professor, o que logo à partida nos deixa clara a nossa condição de animais dependentes, pois nada nos garante que recebamos a educação certa ou que tenhamos os professores certos.

As fragilidades da sociedade, que tem sempre elementos que escapam à dita normalidade; os rejeitados, os doentes e os incapazes ficam de fora desta possibilidade de usar de forma adequada uma razão prática independente. Macintyre aduz a justiça para colmatar as falhas do destino, da sorte e do azar.

Sendo nós assumidamente animais dependentes, estamos sempre numa relação com os outros, numa relação de dar e receber, não de forma aritmética, mas com equilíbrios que se fazem através da confiança numa sociedade que tem a virtude da generosidade justa como seu pilar basilar, a primeira virtude da dependência reconhecida; ninguém ficará isolado, perdido, sem ajuda. Há, na verdade, algum romantismo e até ingenuidade nas posições de Macintyre, elas fazem sentido numa perspetiva de sociedade ideal, mas a realidade comporta situações que escapam a este modus operandi.

Esta generosidade justa determina que se busque o bem de todos e não só o bem individual, que se acolham os estrangeiros, que se faça misericórdia.

Macintyre acrescenta que a sociedade precisaria de se organizar para ter instituições que seguissem estes parâmetros de pensamento, com Estados, famílias e comunidades locais que ponham em prática o modelo das virtudes preconizado, que se socorre de instrumentos como a prática, a narrativa e a tradição, para através de uma razão prática independente e do reconhecimento da generosidade justa (virtude de dependência reconhecida) poderem prosseguir o bem, aquele que se apresenta como o que é bom para mim e que é também bom para os outros.

Na verdade, lendo as obras de Macintyre e também a abordagem feita por Sassetti da Mota, não é difícil aderir ao pensamento do filósofo, ele comporta ideias que nos remetem para um mundo ideal, que, no entanto, pode correr o risco de ser meramente idealista. Embora se invoque uma razão prática independente, essa razão debater-se-á, sempre e necessariamente, com a multiplicidade, com a pluralidade de tradições, de narrativas plenas de histórias de sucesso e de fracasso, de dor e de prazer, de vontade de poder e de submissão. No fundo, estão repletas de paradoxos.

A assunção da nossa condição de animais dependentes num gesto de humildade a que somos convocados, serve, por um lado, para ajudar os outros e, por outro, para permitirmos ser ajudados, sem fazermos disso uma contabilidade exaustiva, acreditando que se dermos, mais tarde ou mais cedo vamos receber, sem precisar sequer de ser da pessoa que ficou devedora para connosco. Há muita doutrina cristã no pensamento de Macintyre e, curiosamente, só se consegue perceber que tenha sido adepto do pensamento de Nietzsche por este ter sido um crítico feroz da moral iluminista, nada mais. A vontade de poder enquanto verdade primeira e única é absolutamente contrária a esta dependência assumida pela razão.

Este trabalho serve de inspiração para as lideranças poderem alicerçar a sua prática numa ética das virtudes; Macintyre desperta a atenção para a necessidade de existir uma ética da liderança, pois tão importante como um pai ou um professor, um líder é uma figura que se mostra ao mundo para ser seguido, para influenciar, e, nessa medida, as suas práticas, as suas narrativas e a tradição que representa, são contributos determinantes na formação e desenvolvimento do Homem que se quer em movimento para o bem.

Enfrentam também eles a incomensurabilidade dos argumentos morais, a intraduzibilidade da linguagem. Nalguns líderes encontramos, por vezes, Nietzsche e a sua vontade de poder, noutros São Tomás ou mesmo Macintyre, com a sua generosidade justa. Mas os líderes, enquanto Homens em movimento que são, vão-se fazendo. Importa agora e aqui, deixar claro que se podem fazer melhores se encontrarem, a partir da inspiração trazida por Macintyre, um catálogo de virtudes éticas que respeitem a necessidade de todo e qualquer ser humano se realizar no seu telos, na sua vontade de ser maior do que a comunidade de que faz parte, da empresa onde trabalha, do Estado e da família a que pertence.

Liderar começa por se entender isto.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial e aluna de doutoramento em Filosofia Social e Política pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

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