Uma liderança feminina?

Num espaço de tempo em que tanto se falou de feminismo, de igualdade de género, de oportunidades para as mulheres, é interessante saber se há, ou não, uma substancial diferença entre as lideranças femininas e masculinas.

Porém, antes disso, permita-se-me que distinga a ideologia de género (que repudio), da necessidade de igualdade independentemente do sexo ou opções sexuais (que obviamente defendo). A ideologia de género sustenta, no limite, que todos nascemos sem género definido e que é o nosso sexo biológico que acaba por condicioná-lo, sobretudo através da repressão do meio em que vivemos. Os pais, a família, a escola, contribuem para isso, dando bonecas às meninas e bolas e carros aos meninos. A eles vestem de azul e a elas de cor-de-rosa. Este conjunto de representações leva-os a optar por um papel que poderia não ser o preferido, acaso fossem deixados em liberdade. Por isso, há países que já não inscrevem o sexo à nascença e há pais que escolhem nomes que tanto se utilizam no feminino como no masculino, ou que vestem meninos como meninas e vice-versa.

Como, muito recentemente, a filósofa francesa Sylviane Agacinski dizia nas páginas do jornal Le Figaro, “a indiferenciação dos sexos é uma rotura com o feminismo”. Isto significa que a teoria da “tabula rasa” proposta pelos defensores (e defensoras, como tanto gostam de explicitar) da Igualdade de Género, teoria segundo a qual todos nascemos sem um género definido, apenas com um sexo biológico que acaba por reprimir e impor esse mesmo género aos seres humanos, e que no fundo se materializa pela indiferenciação dos sexos, rompe justamente com a ideia de que o sexo feminino tem particularidades específicas. Gosto de pensar que género é uma palavra que se aplica à gramática e não às pessoas. As pessoas são homens ou mulheres, independentemente das preferências sexuais e dos modos serem mais masculinizados ou efeminados.

Voltando à ideia de liderança feminina – entendida neste contexto segundo o qual os sexos se diferenciam por inúmeras razões: históricas, culturais, fisiológicas, comportamentais –, é curioso verificar como duas das maiores empresas portuguesas passaram para mãos executivas de mulheres (Sonae, com Cláudia Azevedo, e Amorim, com Paula Amorim), sem que alguma feminista militante exultasse. Na verdade, as empresas em causa, podendo ter alterado alguma coisa, seguiram, como era de esperar, o rumo sem qualquer rotura.

Na Europa, dois dos países mais importantes – o Reino Unido e a Alemanha – são dirigidos por mulheres – Theresa May e Angela Merkel –, que aliás tem como sucessora outra mulher, Annegret Kramp-Karrenbauer (por facilidade conhecida por AKK). Muitos outros países tiveram e têm mulheres no topo da política sem que tal correspondesse a uma forma substancialmente diferente de liderar (recordem-se os diferentes exemplos de Indira Ghandi, na Índia, Benazir Bhutto, no Paquistão, Corazon Aquino, nas Filipinas, Margaret Thatcher, no Reino Unido, Eva Perón e Cristina Kirchner, na Argentina, ou Park Geun-hye, na Coreia do Sul, que foi recentemente condenada por corrupção). Na verdade, a sua ação tem mais a ver com as suas opções políticas do que com o facto de serem mulheres.

Também, curiosamente, as mulheres que chegaram ao poder têm sido mais de direita do que de esquerda, o que pode levar a que as feministas mais radicais não proclamem a sua admiração e aplauso.

E, no entanto, eu insistiria que há uma forma mais feminina e um modo mais masculino de liderar. A primeira é mais inteligente. Baseia-se mais no exemplo, do que na imposição; tem mais compreensão por problemas pessoais dos seus trabalhadores ou colaboradores do que indiferença. Tem um lado tão afetuoso como racional. Esta ideia gera outro paradoxo: é que há homens que também são assim – lembrar-nos-emos de Marcelo Rebelo de Sousa; e há mulheres que o não são de todo. Veja-se Marine Le Pen.

Não quero com isto estragar a ideia de paridade. Como disse alguém, a verdadeira igualdade só existirá quando uma mulher CEO for manifestamente incompetente, como acontece com muitos homens. Mas quero chamar a atenção para o facto de que o estilo de liderança, bem como os assuntos e temas escolhidos para projetar publicamente uma ideia, uma marca, uma ação, não pode – como em quase nada na vida – ser facilmente etiquetado, como pretendem algumas feministas radicais. As mulheres, tal como os homens, são diferentes entre si. Cada qual é como cada um(a). Embora os muitos milhares de anos de divisão de tarefas entre homens e mulheres (eles caçam, elas cuidam do lar, do fogo, das crianças) tenha muita importância na projeção do que hoje somos.

Não é errado dizer que os estilos de liderança podem ser diferentes. Errado é pensar que eles são imediatamente diferentes quando é uma mulher a liderar. Errado é pensar que o mundo começou ontem e que basta a vontade de uns tantos (ou de umas tantas) para repentinamente alterar totalmente atavismos de dezenas de milhares de anos.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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