Um líder defensor de causas

António Saraiva saiu cedo de Ervidel, de onde é natural, e começou a sua carreira profissional como operário metalúrgico na Lisnave, a maior empresa portuguesa de construção e reparação naval. Mais tarde, tornou -se empresário metalúrgico e hoje é presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, cargo de liderança que assume desde 2010. Em entrevista à Líder, o “patrão dos patrões” assume -se como líder dinâmico, mas, acima de tudo, como “homem de causas”, para quem a aposta nas pessoas e na inovação é vital para a competitividade das empresas portuguesas.

Por: Ricardo Vieira
Fotos: CIP

Líder (L): Alguns dos seus colaboradores próximos destacam o “enorme dinamismo” e a “grande atenção aos problemas das empresas” como algumas das suas principais características. Consegue identificar em si esses traços de personalidade e acredita terem feito a diferença no seu percurso profissional?

António Saraiva (AS): Considero-me, de facto, um homem dinâmico, mas sou, sobretudo, um homem de causas. Nas empresas em que trabalhei e nas instituições em que me integrei, sempre considerei que o bem comum resultava não da afirmação soberana dos meus interesses individuais, mas da concertação dos interesses de todos em torno de uma causa maior. Por isso, no meu percurso de vida, tenho assumido uma posição de líder, consciente dos problemas que envolvem tanto o mundo empresarial e a vida das empresas, como o universo associativo que nos rodeia.

L: À luz da sua experiência, o que é necessário para se ser um bom líder?

AS: Em primeiro lugar, um bom líder deve ter a capacidade de envolver as pessoas que integram a sua equipa, de lhes incutir confiança, de as responsabilizar (individual e coletivamente) por processos e resultados, de desenvolver o potencial de cada um, e de considerar a sua motivação, tornando consonantes os objetivos individuais e os objetivos coletivos da equipa. Além disso, um líder tem de ter uma visão que lhe permita saber para onde quer ir, tem de ter iniciativa e criatividade para abrir novos caminhos e, finalmente, tem de ter coragem e persistência para os trilhar com determinação.

L: Enquanto parceira institucional da Leadership Summit Lisbon, o que significa para a CIP apoiar um evento deste género no nosso país?

AS: Poder contribuir para afirmar o nosso país como espaço de debate de temas chave para a comunidade empresarial. Além disso, o conceito desta conferência, onde diferentes gerações e diferentes experiências se reúnem para produzir conhecimento sobre liderança, pareceu-nos extremamente interessante e oportuno.

L: Ao ser reeleito para o seu terceiro mandato como presidente, assumiu como missão reforçar a posição da CIP enquanto confederação de empregadores. O que tem sido feito nesse sentido e o que está previsto ser feito até ao final do mandato?

AS: No início deste meu terceiro e último mandato, assumi, com a equipa que me acompanha neste triénio, três compromissos chave:

– O compromisso com o crescimento económico, tendo como principal objetivo a avaliação das políticas públicas e os efeitos positivos ou negativos que tais políticas venham a provocar na competitividade das empresas.

– O compromisso com uma Europa unida em torno da competitividade. A Europa terá de saber vencer, coletivamente, os seus atuais desafios. E a CIP tem a responsabilidade e o dever de assegurar que a voz das empresas portuguesas é tida em consideração nos organismos internacionais e, em particular, nos processos de decisão europeus.

– O compromisso com um movimento associativo sólido e com valor para as empresas. A CIP deve ser um agente de mudança do movimento associativo, promovendo a sua capacitação com vista ao crescimento sustentável das empresas e da economia portuguesa.

L: De que forma é possível promover e assegurar o crescimento sustentável das empresas e da economia portuguesa no quadro da globalização?

AS: De facto, a questão que devemos colocar é se o relançamento do crescimento económico que estamos a viver pode ou não perdurar no tempo, de forma sustentável, no quadro da globalização. Porque somos uma economia de mercado, aberta ao comércio internacional, para que as nossas empresas produzam e vendam mais é também preciso que produzam melhor – ou seja, com maior produtividade. A análise a que procedemos faz ressaltar as fragilidades que persistem na economia e que se refletem, precisamente, numa dinâmica muito fraca (ou mesmo negativa) da produtividade, tendência que persiste na atual fase de recuperação económica, pondo em risco a sua sustentabilidade. Neste contexto, o relançamento do investimento e a aposta no capital humano surgem como fatores indispensáveis ao aumento da produtividade e do potencial de crescimento da economia.
Paralelamente, é necessário acautelar o risco de um aumento dos custos superior ao aumento da produtividade minar a nossa competitividade externa, com impactos negativos nas duas variáveis chave essenciais ao crescimento económico: o investimento e as exportações. São estas as grandes linhas que estão subjacentes às propostas da CIP.

L: O que aconselharia os empresários a fazer na atual conjuntura para tornar a sua empresa mais competitiva?

AS: Cada empresa é uma realidade distinta, mas creio que há duas grandes apostas que devem estar presentes, sempre, seja qual for a sua dimensão ou o seu setor de atividade: a aposta nas pessoas e a aposta na inovação.
Por isso, aconselharia os empresários, em primeiro lugar, a promover a qualificação dos seus colaboradores e a sua permanente adaptação aos desafios da evolução tecnológica e organizacional. Em segundo lugar, aconselhá-los-ia a promover, nas suas empresas e no âmbito do seu relacionamento com clientes e fornecedores, uma cultura de inovação, atentos à evolução tecnológica e às oportunidades por esta proporcionadas.

L: A revolução tecnológica e digital está, efetivamente, na ordem do dia nas empresas e organizações de todo o mundo. Como devemos ver este fenómeno e como preparamos as empresas e as pessoas para o que vem aí?

AS: Em primeiro lugar, as empresas têm de estar informadas e abertas às oportunidades que surgem em resultado destes novos desenvolvimentos. Muitas vezes, a aversão à mudança é grande, mas são os pioneiros os que mais ganham (embora sejam também os que mais riscos enfrentam).
Em segundo lugar, as empresas terão de trabalhar em conjunto com outras entidades que as poderão ajudar no processo de incorporação de todas estas novas tecnologias nos seus processos produtivos. A ligação aos Centros Tecnológicos, por exemplo, deverá ser devidamente valorizada.
Em terceiro lugar, é importante que seja a própria empresa a liderar a mudança no seu seio. Isto significa que, face às soluções que lhe são oferecidas pelo mercado – e não tenho dúvida de que esta oferta existirá –, seja capaz de ter uma visão crítica que assegure uma correta adequação e adaptação de cada solução à sua própria realidade, que só ela domina e compreende.
Não poderia deixar de referir, pela sua importância, uma quarta preocupação: as empresas têm de estar capacitadas para os investimentos que a resposta à revolução tecnológica e digital implica. Capacitadas em termos de qualificações e capacitadas em termos de capital. E, a este nível, ainda resta muito que fazer.

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