Um canto pouco conhecido da liderança: a auto-liderança

O tema da auto-liderança parece concitar um interesse inversamente proporcional ao da liderança. Pelo menos até há um par de décadas. Com efeito, se, por um lado, a liderança é alvo de atenção pelo menos desde Homero (talvez século VIII a.C.), com a descrição das qualidades do líder na Ilíada e na Odisseia, a auto-liderança parece ter sido primeiramente definida por Manz, como um processo de auto-influência através do qual uma pessoa é capaz de se auto-dirigir e auto-motivar, no sentido de concretizar as suas tarefas e o seu trabalho (Manz, 1986). Trata-se, pois, de um processo que ocorre no plano individual, em que a pessoa é capaz de se influenciar a si própria, a fim de controlar as suas ações e pensamentos.

Em boa verdade, a auto-liderança não é um tópico recente; para nos mantermos entre os gregos, Platão afirmou, uns quatro séculos depois de Homero, que a maior e mais importante vitória é conquistar-se a si próprio. A atratividade da liderança deriva de ser um processo em que um ou uma mão cheia, influencia um grupo ou uma multidão, o que a torna um tópico ideal para compreender o poder, a mudança, e o desempenho de pessoas, organizações e sociedades.

E, todavia, não parece poder existir liderança sem antes existir auto-liderança. Kazan (2012) acrescenta que a auto-liderança é desenvolver um sentido de quem é, do que pode fazer e para onde se vai, juntamente com a capacidade de influenciar a sua própria comunicação, emoções e comportamentos necessários para lá chegar.

Respondido o quesito do que é a auto-liderança, emerge agora a questão de como se pode desenvolver ou aprender. Manz e outros evocam três estratégias que podem ser usadas para fortalecer a auto-liderança. A primeira inclui estratégias focalizadas nos comportamentos, as quais ajudam a incrementar o conhecimento que se tem de si próprio. A segunda engloba estratégias focadas em recompensas naturais, cujo objetivo é criar situações em que a pessoa consegue manipular a sua própria motivação. E a terceira compreende estratégias de padrões cognitivos, que auxiliam o incumbente a lidar de modo mais eficaz com o desafio entre mãos.

Para exemplificar as estratégias anteriores considerem-se os exemplos seguintes. O estabelecimento de objetivos individuais diários, que sejam desafiadores e relacionados com comportamentos que se deseja melhorar, garante a criação de uma disciplina orientada para o atingimento de resultados, ao mesmo tempo que traz benefícios intrínsecos relacionados com os objetivos estabelecidos. Quem faz desporto de forma regular sabe bem como aplicar esta técnica, a qual constitui um exemplo do primeiro tipo de estratégias.

Todas as tarefas encerram em si aspetos de que se gosta e outros de que não se gosta. O segundo tipo de estratégias atua a ambos os níveis. Por exemplo, alguém pode prometer a si próprio um pequeno conjunto de recompensas físicas ou de outro tipo, por conseguir realizar as tarefas programadas, mas para as quais é maior o desprazer do que o prazer. Este bloco de estratégias conduz ao desenvolvimento de sentimentos de competência e auto-determinação, que são dois dos mecanismos primários da motivação intrínseca.

Por fim, como exemplo do terceiro tipo de estratégias, refira-se a projeção de sucesso e de imagens positivas, previamente à concretização da tarefa propriamente dita. Trata-se de uma técnica utilizada por todos os motivational speakers, que devem enfrentar audiências e convencer grupos da utilidade das suas ideias e mensagens.

Em suma, ser líder de si próprio, desenvolvendo e aplicando técnicas de influência do seu próprio comportamento e pensamento, que permitam enfrentar as tarefas e desafios da vida e do trabalho, parece ser algo fundamental para o progresso individual, seja no plano profissional, seja no plano pessoal.

Por: Jorge F. S. Gomes, professor no ISEG, Universidade de Lisboa

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