Tão inútil e tão importante, humor e liderança!

Esperámos por Ricardo Araújo Pereira para uma conversa sobre humor e liderança, ali ao pé do Tejo, com um denso nevoeiro que nos criava a ilusão de o rio se estar a levantar, alterando os exatos contornos das margens. Era afinal isso também o humor sobre o que iríamos falar, aquela artimanha da razão que ajusta a realidade a seu belo prazer, com um único propósito: fazer rir. Para Ricardo, o humor pode ser tão virtuoso como a amizade ou o amor, inútil e intangível, tão fugaz como o ar que está contido numa gargalhada. Apesar de tudo isso, é importante. É mais substantivo do que adjetivo, não qualifica, não nomeia, só é.

Também ajuda a ser. Também pode, por isso, ajudar a liderar melhor.

Por: Miguel Pina e Cunha e Catarina G. Barosa

Fotos: Tema Central

Líder (L): O que lhe interessa na vida?

Ricardo Araújo Pereira (RAP): Fazer rir é o único interesse que eu tenho e é a única coisa que me interessa. Quando no decorrer de uma conversa passa demasiado tempo desde a última vez que a pessoa se riu, isso começa a inquietar-me, por essas duas razões: esse é o meu principal interesse nas pessoas, é fazê-las rir, segundo, eu receio e tenho quase a certeza de que o único interesse que as pessoas têm em mim é a minha capacidade de as fazer rir. Ninguém se interessa pelas minhas opiniões.

Para terem opiniões as pessoas vão ler Pacheco Pereira.

L: Mas como se define?

RAP: Aquele conselho do Oráculo de Delfos: conhece-te a ti mesmo, é contrário a estes novos gurus da autoajuda, tipo Gustavo Santos, que propõem uma outra coisa, radicalmente diferente, que é ama-te a ti mesmo. Eu tenho dificuldade em seguir ambos. Conhece-te a ti mesmo, não tenho muito interesse, sinceramente, e amar-me a mim próprio, parece-me imoral.

Aliás, são dois conceitos incompatíveis, quanto mais me conheço menos me amo, portanto, eu convivo comigo e aceito que sou uma pessoa bastante defeituosa. Fascinam-me aquelas pessoas que têm uma grande autoestima, eu se consegui alguma coisa foi por causa de uma autoestima bastante baixa. A minha avó deu-me isso de uma forma amorosa. Parece uma coisa cruel, mas é exatamente o contrário, a minha avó deixou-me uma coisa muito clara: os meus sentimentos não são assim tão importantes, primeiro por serem sentimentos (porque têm um desprestígio na nossa sociedade – o que é indevido) e, segundo, por serem meus.

L: Como é que o Ricardo olha para o mundo das empresas?

RAP: O mundo das empresas é-me estranho, primeiro porque nunca tive um emprego a sério na vida, aliás, esse é o meu objetivo, nunca ter um emprego a sério. Eu não participo nos aspetos práticos da vida, não vivo no mundo dos adultos, não pago contas. Tudo no mundo das empresas é, por isso, muito estranho para mim.

L: O empreendedorismo, como o vê?

RAP: Isso é uma coisa nova a que eu costumo chamar Igreja Universal do Reino do Empreendedorismo, em que alguns pregadores que dizem coisas absolutamente vazias de significado muito parecidas com aquela anedota que diz para tirar as pernas à rã e depois pedir-lhe para saltar.

L: A loucura do empreendedorismo tem que ver talvez com uma ideia de emancipação em relação ao Estado?

RAP: Eu sou a favor da iniciativa privada e de que o cidadão se emancipe em relação ao Estado. O que acontece é que o discurso do empreendedorismo é vazio de significado. Eu ainda não percebi, por exemplo, o que faz aquela empresa do senhor de Braga, parece que é um acelerador de aproximações. Aquilo não significa nada.

L: Que tipo de Estado defende?

RAP: Eu sou a favor de um Estado interventivo na Economia, se um Estado não intervém é a lei da selva, e na lei da selva ganha sempre o mais forte. Eu acho que o Estado deve ter um papel forte na Economia, mas repito, não tenho nada contra a iniciativa privada.

L: Não gosta do discurso do empreendedorismo porquê?

RAP: O que me afasta desse discurso é o facto de ele, para além de ser vazio de significado, aparentemente culpar as pessoas por um certo insucesso profissional e financeiro do qual eles não têm culpa porque podem não ter mais meios ao seu alcance.

L: Refere-se ao dinheiro?

RAP: Sim, para começar um negócio é preciso ter capital. Dizer às pessoas que não têm capacidade financeira para que criem o seu próprio negócio é a mesma coisa que gritar a uma rã sem pernas para saltar, acho eu.

L: Só é possível criar dinheiro, a partir de dinheiro?

RAP: É óbvio. É muito raro o negócio que se pode começar sem capital.

L: No seu último livro fala de uma personagem que não podia ser acusada de nada fazer porque na verdade, fez dívidas. Conseguiu criar alguma coisa a partir do nada.

RAP: Sim, trata-se de uma personagem de François Rabelais que se insere numa série de galeria de personagens cómicas que têm uma característica que me agrada que é a de moldarem o mundo à sua maneira, através de uma espécie de batota, de uma vigarice de raciocínio. No caso, ele defende um ponto que é muito contraintuitivo, ou seja, ter dívidas é a melhor coisa que há, defende-o da forma mais racional possível, dizendo que com muitas dívidas, os credores rezam por ele todas as noites, fazem tudo para que a vida lhe corra bem: arranjam-lhe emprego, dizem bem nas suas costas, etc. Essa capacidade de arranjar um ponto de vista absolutamente contrário àquilo que é o senso comum e defendê-lo com a maior racionalidade, interessa-me muito porque faz com que a pessoa que o diz se sinta um pouco mais confortável no mundo através dessa vigarice.

L: Tudo parece válido, mas não verdadeiro.

RAP: É uma espécie de vilão filósofo, como se a capacidade de raciocinar tivesse caído nas mãos erradas, na verdade sabemos que ter dívidas não é excelente. Por exemplo, Falstaff, de Shakespeare, consegue transformar a cobardia numa coisa boa de modo a que o mundo seja menos agressivo para ele. É claro que é mais fácil ser cobarde do que corajoso, e ele está sempre à procura do caminho mais fácil. Aliás, o que toda a gente faz.

L: Mas o Ricardo acha que aquilo que faz é inútil. É mesmo assim?

RAP: Exatamente, o meu objetivo na vida é ser inútil. Por exemplo, uma esfregona é útil, tem uma utilidade, eu não vejo que o humor, que o riso, seja uma coisa do universo de uma esfregona ou de um automóvel, é sim do universo da amizade.

Também podemos argumentar que a amizade é inútil e se formos amigos de alguém por interesse isso não é amizade, a amizade e o amor são coisas inúteis.

L: Mas importantes?

RAP: Há uma série de coisas que são inúteis, mas são muito importantes. Eu acho o humor muito importante, mas inútil. Sobretudo, também é uma forma de reação àquelas pessoas para as quais, e os jornalistas enquadram-se muito nisso, isto do riso só tem importância se tiver uma utilidade: se fizer cair o Trump, se o impedir de chegar à presidência, se mudar socialmente as coisas, se ganhar referendos como o do aborto, etc. Eu acho que isso é uma menorização do riso, paradoxalmente, essa ideia de que o riso só é importante se for útil, menoriza-o. Eu acho o riso muito importante, apesar de inútil.

L: Alguém disse que o interessante na liderança é o facto de os melhores líderes passarem a vida a perseguir coisas que eles sabem que nunca vão alcançar. Nessa medida, a liderança, ela própria, é um bocado inútil. Será?

RAP: Quando o PNR há uns anos colocou um cartaz da sua campanha política no Marquês de Pombal, os “Gato Fedorento” puseram outro ao lado a fazer pouco do deles. Quando amanheceu os jornalistas viram o cartaz, começaram a telefonar-nos para saber o que significava aquilo. E, como sempre, os jornalistas já tinham preparadas algumas hipóteses de resposta: isto é um movimento de cidadãos à margem do partido? É um movimento de independentes? Eu respondi-lhes: aquilo é uma piada. No dia seguinte, o jornal Público rescreve: eles dizem que aquilo é só uma piada. Eu nunca disse a palavra só, uma piada não é só uma piada, para mim dizer que é só uma piada é o mesmo que dizer que aquilo entre 1939 e 1945 foi só uma guerra. É uma piada que, para mim, é das coisas mais importantes do mundo.

L: O riso inútil importa só por si.

RAP: Quando as minhas filhas se riem de uma coisa que eu digo ou se esforçam para me fazer rir, ou para fazer rir uma à outra, eu fico comovido com aquilo, mais comovido do que ficaria com coisas que as pessoas consideram úteis.

L: Sendo inútil e importante, o que é na verdade uma piada?

RAP: Uma gargalhada é ar, é absolutamente frágil e descartável, é uma coisa que já não volta. Imagine a sorte que os músicos têm, por exemplo, o Rui Veloso inventou o Chico Fininho em 1977, ainda hoje ele não pode fazer um concerto sem que lhe peçam para tocar esta música. Salvador Sobral é apupado se não cantar aquela com que ganhou o Festival da Canção; ele se quiser canta a música em várias versões e pode vender aquilo várias vezes. Eu faço uma piada e as pessoas riem-se dela, a seguir pedem outra, ou seja, é uma coisa muito frágil, descartável e efémera.

É por causa dessas características todas que eu digo que é inútil.

L: Será que há um excesso de utilidade naquilo que nós chamamos de liderança? Um excesso de preocupação com aquilo que é útil? Há excesso de Economia na Política?

RAP: Isso às vezes faz-me lembrar aquela perspetiva que alguns senhores ricos têm sobre a arte. Ou seja, perante um quadro cheio de riscos dizem: “o meu filho também fazia isso”, mas se lhes disserem que aquilo vale dois milhões de euros, então, sim, aquilo é arte. Essa perspetiva de que as coisas têm um valor consoante o seu valor económico ou a sua utilidade, às vezes é um pouco saloia. Sem negar que na questão da liderança, os chefes têm de produzir coisas que têm valor.

L: Os líderes também têm de fazer coisas, senão nada funciona, mas há um professor de Stanford que diz que um líder é uma mistura de poeta e canalizador. Não será que temos canalizadores a mais na liderança? Talvez seja também preciso ter o poeta!

RAP: Eu acho que não podemos ter os que são só canalizadores, nem os que são só poetas, porque também há uma tentação de ser só poeta, de dizer: “eu sou um acelerador de qualquer coisa” (eu agora estou fascinado com a palavra acelerador).

L: Considera isso um discurso fácil?

RAP: É fácil cair na tentação do tal discurso vazio. Por um lado, há pessoas que se dizem especialistas em marcas, mas na realidade esse ser especialista é de tal modo intangível que se aproxima muito da banha da cobra. Por outro lado, há aqueles que são só canalizadores, e depois têm um enquadramento mental que chega a assustar porque estão só preocupados com a produção em massa, sem se preocuparem com tudo resto, sem se preocuparem com quem é que sofre para aquilo seja produzido.

L: Mas haverá um ponto de encontro possível?

RAP: O ponto em que nos podemos encontrar talvez seja aquele em que as coisas do mundo do poeta, sendo poéticas, dão jeito ao canalizador, por exemplo, aquilo de na Google terem umas caminhas para fazerem uma sesta. Fazer uma sesta é uma coisa que não associamos ao mundo do canalizador, mas que dá jeito ao canalizador porque a pessoa que faz a sesta sente-se melhor na empresa, trabalha melhor, etc. Talvez seja esse o ponto de encontro. Aquele em que os dois mundos se tocam.

L: O mundo do humor pode ajudar?

RAP: O sentido de humor oferece-me a possibilidade de estar dois passos atrás de mim próprio e ver-me a mim próprio, e isso mantém-me alerta para o meu próprio ridículo.

L: Considera-se ridículo?

RAP: Com certeza. Quem não tiver essa noção; quem acreditar na sua própria pose, pode ficar a perder.

L: Como é que o humor ajuda a resolver isso?

RAP: A partir do momento em que conseguimos olhar para nós como se fossemos outro, passamos a ter sobre nós a mesma distância que temos sobre as outras pessoas. Quando conseguimos detetar a vaidade nos outros, a prosápia nos outros, nós conseguimos fazer exatamente o mesmo connosco.

L: O que é que uma empresa pode fazer para ajudar a que isso seja verdade para os seus líderes?

RAP: Vou citar um filósofo que, no ano passado, disse uma frase que eu prezo. O filósofo chama-se Cristiano Ronaldo e, no fim de um jogo, mesmo antes dos penaltis, disse ao João Moutinho, “anda, anda marcar o penalti, tu marcas bem, se perdermos que se lixe (ele usou outro verbo bastante mais expressivo)”; essa ideia de que se perdermos que se lixe, eu acho que ganhamos mais com ela do que com a atitude: “eu tenho mesmo de ganhar”, se eu não ganhar pode acontecer uma coisa muito grave. Aquela atitude, se perdermos que se lixe, faz com que se ganhe mais do que com a outra. Resta saber se dizer aos trabalhadores de uma empresa que tenham a atitude, se não ganharmos que se lixe, interessa à empresa. É uma coisa paradoxal, mas eu acho que pode ser uma coisa mais interessante para a empresa que eles tenham uma certa leveza em relação ao seu próprio trabalho do que tenham um excesso de preocupação.

L: É aí que o humor pode fazer algum trabalho, transformar uma coisa que é pesada numa coisa leve?

RAP: Mas essa leveza é muitas vezes confundida com irresponsabilidade. Qual é o patrão que quer que os empregados tenham uma perspetiva sobre o seu trabalho mais leve?

L: No Cirque do Solei contrataram um palhaço, chamado Madame Zazou, cujo papel é andar pela sede da empresa a meter-se com os trabalhadores. E eles dizem que o papel mais importante é nas reuniões do Conselho de Administração.

RAP: Quando o balão da ansiedade está muito cheio, o humor o que faz é retirar a pressão. Quando nós temos o peso em cima, os nossos movimentos são tolhidos. Quando o peso sai é mais fácil movimentarmo-nos.

L: No seu livro, que pode ser lido como uma espécie de manual de escrita para líderes, começa por considerações prévias que considera inúteis, depois avança para falar de outras mais proveitosas. Mas então, considera que são inúteis as teorias da superioridade, da incongruência e da válvula de escape?

RAP: As três são inúteis porque as três são muto diferentes e percebemos que as três separadamente, e até juntas, não esgotam a totalidade do fenómeno.

L: Não existindo a teoria que justifique tudo, há pelo menos um conjunto de maneiras para pôr as pessoas a rir. Isto porque mais adiante já considera mais proveitosa a teoria da distância, dizendo que a comédia é igual a tragédia + distância.

RAP: Ou por exemplo, virar uma coisa das pernas para o ar. Uma das coisas que surpreendeu as pessoas que estudam o satanismo foi a de que tendo nós uma ideia de que os rituais satânicos têm uma raíz popular, isso não é assim; eles têm aquilo como uma raíz erudita, isto porque foram os doutores da igreja que criaram o satanismo para demostrar às pessoas, a contrário, que o inverso daquilo que a igreja defende é a abominação completa. Para uma pessoa fazer o inverso de uma coisa, tem de conhecer essa coisa profundamente e foi aí que eles perceberam a razão erudita das coisas. As pessoas que inverteram aquilo conheciam profundamente o original.

L: Imagine na Liderança?!

RAP: Liderar dando o exemplo contrário daquilo que se defende para demostrar que o contrário daquilo que se propõe é absurdo. Para mostrar que o contrário do que nós propomos leva a um caminho mau, ao falhanço.

L: Ver os contrários e o reverso.

RAP: A ideia de opor duas coisas antagónicas proporciona um efeito cómico evidente. Há várias maneiras de fazer esse exercício. No O Bucha e o Estica, a razão porque não são dois buchas é porque isso assim não teria graça. Na SIC Radical queríamos fazer muitas coisas sobre as empresas, porque o universo das empresas tem uma certa solenidade, e é, por isso, ótimo para pousar nele o olhar humorístico. Os diretores dessa estação televisiva, na altura, disseram que não tinham dinheiro para construir cenários, mas talvez se conseguisse construir um cenário estilizado só com uma mesa, um computador esquisito, etc. Nós dissemos que queríamos o cenário real, porque as pessoas a comportarem-se de maneira absurda num cenário absurdo não tem graça. Então, o que fazíamos era, entrar nos escritórios da SIC, gravávamos o sketch em ambiente real, lá, e depois íamos embora. Steve Martin disse, com razão, que o caos no meio do caos não tem graça. Já o caos no meio da ordem tem.
Talvez se um líder de uma empresa semear um pouco de caos no sítio onde as coisas costumam estar ordenadas, talvez isso produza um efeito.

L: É o tal caso da Madame Zazou.

RAP: A origem do Carnaval é mais ou menos isso; durante uma semana por ano, o servo passa a ser o amo, o amo passa a ser o criado, o homem passa a ser a mulher, etc.

L: Na Holanda têm o dia da rainha, em que um dia por ano se brinca com a rainha.

RAP: Até podemos argumentar que isso reforça o poder da rainha, porque aquilo é um dia e não há mais, aquilo faz com que nos outros dias ela seja mais respeitada.

L: Também podemos fazer humor imitando alguma coisa.

RAP: Imagine que na Coca-Cola se propõem, por um dia, a imitar o modelo de funcionamento de uma empresa muito diferente, imagine que imita uma empresa de tecnologia; quem sabe se isso não traz lições que podem migrar de um sítio para o outro. Isso implica uma elasticidade de comportamento que as empresas em geral rejeitam. Por que é que há poucos humoristas? Porque de facto o mundo não funcionaria se todos olhassem para ele dessa maneira, como o olham os humoristas. O mundo precisa de pessoas que olham para as coisas como elas são e as fazem como elas são. Na minha profissão, o que se exige é que eu olhe para as coisas como elas parecem ou como elas poderiam ser.

L: Esse é o desafio das empresas, olharem para as coisas com outra perspetiva. Isso treina-se?

RAP: Quando se fala em humor político, a questão fica dominada por pessoas que estão mais interessadas em política do que em humor. Essas pessoas, estão-se borrifando para a parte do humor, embora seja esquisito porque na expressão humor político o substantivo é humor e o adjetivo é político. Normalmente, essas pessoas dividem-se em dois grupos: ou suspeitam que concordam com a posição do humorista e querem que ele diga aquilo que pensa porque supõem que isso vai ter uma repercussão política (vai eleger as pessoas que eles acham que devem ser eleitas); e o outro grupo suspeita que não concorda com o humorista e impõe-lhe que ele seja imparcial.

L: Onde está o Ricardo?

RAP: Eu estou mais interessado na parte do humor do que na parte da política, eu acho que o humorista tem o direito de não ser imparcial, ele tem de trabalhar com um ponto de vista que é o seu, mas não tem de estar preocupado em derrubar governos, ganhar referendos, etc. Até porque eu creio que ele não tem poder para o conseguir, e ainda bem. Ficaria muito triste se vivesse numa sociedade em que as eleições são ganhas por um tipo que está em casa a escrever piadas.

L: Então e Palhaço Tiririca, no Brasil?

RAP: A questão é que me parece que o Palhaço Tiririca se faz eleger da mesma maneira que um chimpanzé faria se fosse candidato. Ou seja, votar no Tiririca é o voto dado à abominação, é o voto do protesto; é dizer, isto é tudo uma palhaçada tão grande que eu vou eleger um palhaço. Muitas vezes, quando um candidato da área do humor se apresenta (não é o caso do “Al” Franken, que é um humorista americano que é de uma categoria bastante diferente da do Palhaço Tiririca), recolhe o voto da abjeção. Recolhe os votos que o chimpanzé recolheria.

L: O humor e a política não têm uma relação de fácil interpretação?

RAP: A ideia de que o humorista consegue mudar as coisas ficou desmentida com a eleição de Donald Trump. O candidato mais violentamente satirizado da história da sátira política, não só ganhou as primárias republicanas, batendo o recorde de votos de sempre, como depois conseguiu fazer-se eleger presidente dos Estados Unidos da América. Até se pode argumentar que foi vantajoso que a classe humorística, em peso, o satirizasse violentamente todas as noites.

L: Não se percebe o impacto do humor no domínio político?

RAP: Uma vez, numa universidade, uma aluna levantou o braço e perguntou: a vossa intenção ao pôr o cartaz ao lado do cartaz do PNR foi satirizá-lo ou dar-lhe mais visibilidade? Houve um murmúrio que percorreu a sala como quem diz: que pergunta tão estúpida, é óbvia a intenção deles! A nossa intenção era óbvia, mas não é assim tão óbvio o resultado. Eu acho que não se teria falado tanto sobre aquele cartaz se nós não tivéssemos posto o nosso ao lado. Isso é uma coisa que a sátira tem, isto é a sua componente de homenagem. Quanto mais não seja por reconhecer a existência do objeto satirizado. E de facto, podemos argumentar que é contraproducente satirizar um político porque lhe dá mais atenção do que ele teria se não fosse satirizado.

L: Quando faz as piadas não sabe, à partida, se elas vão fazer rir?

RAP: Nunca tenho a certeza absoluta que vão fazer rir. Por exemplo, houve pessoas que disseram que o sketch do Professor Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto contribuiu para a vitória do sim. cComo calcula eu quando estou a treinar não estou a pensar: espera aí que eu já te digo como é que se vai ganhar este referendo! Isso não me passou pela cabeça, a única coisa que me passou, e acho eu é assim que deve ser, foi que aquilo pudesse faze rir as pessoas.

L: Mas há quem não pense assim, e use o humor com esse fim, não é?

RAP: O programa do John Stuart estava a perturbar a FOX com a repercussão que o seu programa tinha e, por isso, aquele canal resolveu inventar um programa igual, mas de tendência conservadora, porque eles consideravam que o do John Stuart tinha uma tendência liberal. Fizeram um programa de que ninguém se lembra porque durou só 17 emissões; o programa chamava-se “The 1/2 Hour News Hour”, e como estavam preocupados em marcar uma posição política não resultou enquanto programa de comédia. O que resulta em comédia é uma coisa que faça rir as pessoas.

L: Voltando às empresas, um dos problemas que temos nos líderes à nossa volta é que talvez não olhem para o humor como uma virtude, como aliás o considerava Aristóteles. Em que medida é que as pessoas que mandam deviam cuidar essa virtude em relação a elas próprias e aos outros?

RAP: Aristóteles dizia isso, aliás o que está por detrás do argumento do Nome da Rosa é o facto de Aristóteles ter dito isso. As pessoas que morrem naquele filme (baseado no livro) é exatamente porque o bibliotecário daquele mosteiro não quer que as pessoas leiam um livro. Apesar de ter respeito pelo livro e pelo autor, Aristóteles não quer que as pessoas o leiam. O facto de um filósofo daquela importância ter elevado à comédia a importância de objeto de estudo, fazia da comédia uma coisa diferente daquela que o bibliotecário achava que devia ser, ou seja, uma coisa reles (o riso aproxima-nos dos animais, não é uma coisa que mereça ser estudada). Uma das razões da má reputação do riso também tem que ver com isso.

L: Mas é porque o riso pode ser perigoso?

RAP: Eu acho que é possível que ele tenha razão, que a capacidade de rir diminua o poder de Deus porque diminui o poder em geral. A capacidade de rir diminui o medo, ainda que fugazmente. O poder normalmente impõe-se pelo medo. Eu para liderar, para impor o meu poder, preciso de criar à minha volta um certo temor reverencial. Tal como uma pessoa que diz que é temente a Deus, em que temer significa: respeitar e recear. Respeito e receio parecem estar ligados. Havendo uma coisa que é o riso que parece destruir os dois, o medo e a reverência, é claro que poder e riso, costumam estar às avessas.

L: Mas não podemos respeitar sem recear?

RAP: Poder pode, mas não é tão fácil. As pessoas costumam ir pelo lado mais fácil, isto é, impôr-se através do medo, da obrigatoriedade de uma reverência, do respeito. Não percebendo que o riso não desrespeita as pessoas, não é desrespeitoso.
Nós podemos detestar uma pessoa, mas se nos rimos com ela passamos a simpatizar com ela. Ronald Reagan tinha uma capacidade admirável por ter sido ator: num debate com um adversário, muito mais novo do que ele, o modelador diz-lhe, a determinada altura, que a idade tem sido uma questão importante. Ele respondeu que não permite que a idade seja uma questão naquela campanha, pois não vai permitir que a juventude e a inexperiência do seu adversário sejam usadas contra ele. De repente, ele desarma todos com esta resposta, cómica, claro.

Uma espécie de definições

Marcelo Rebelo de Sousa

Conheço pessoalmente. Ele é muito vivo, tem aquele tipo de inteligência que às vezes se transforma num insulto, no sentido em que a inteligência pode ser perfídia. Ele dominou muito bem os códigos mediáticos. Esse domínio dos códigos deu-lhe a capacidade de se fazer eleger Presidente da República sem pôr um cartaz na rua. E os abraços são sentidos porque nenhum hipocondríaco, como é o caso dele, daria tantos abraços se não gostasse verdadeiramente.

António Guterres

É meio mole. Percebo a compulsão para dialogar, e valorizo, mas acho que é demasiado mole e fica apenas: pronto estivemos aqui a conversar e agora vamos embora porque não se chegou a conclusão alguma!

António Lobo Antunes

Também conheço pessoalmente. Uma vez fui entrevistá-lo e, quando sai da entrevista, liguei ao Carlos Vaz Marques a dizer-lhe que tinha sido trágico, porque eu fiz-lhe uma entrevista e ele respondeu a outra. Eu acho que em alguns destes últimos livros ele faz uma coisa que eu considero extraordinária: a escrita dele dá-nos a entender tudo o que aconteceu sem referir nunca o que acontece.

Donald Trump

É uma pessoa muito difícil. Ele parece ser imune à sátira política. O que a sátira costuma fazer é virar ao contrário as coisas, e ele já é virado ao contrário. Quando se vira Donald Trump ao contrário não tem graça. Virá-lo ao contrário é dizer coisas de bom senso.
Aquele filósofo esloveno, Slavoj Žižek, diz que o humor e o mal partilham a mesma estrutura e dá um exemplo: ao que parece, nos campos de concentração, diziam ao megafone a todos os prisioneiros que pensavam suicidar-se, que antes de porem a corda à volta do pescoço introduzissem na boca um papelinho com o número de prisioneiro, senão depois não saberiam identificá-los. Isso que é a coisa mais perversa fez-nos rir. A total insensibilidade disso tem um lado cómico, nós olhamos para o Trump e o comportamento dele, já dá vontade de rir.

Dolores Aveiro

Não tenho nada para dizer. Só que ela determinou o destino daquele homem com duas palavras:  Cristiano Ronaldo. Cristiano por causa de Jesus Cristo e Ronaldo por causa de Ronald Reagan. Era óbvio que só podia ser jogador de futebol.

Kim Jong-un

É uma coisa bizarra. Às vezes tenho vontade de ir ver aquilo, porque há ali qualquer coisa que é fora do mundo. Nunca irei, claro, porque é possível ser condenado a 11 dias de trabalhos forçados por arrancar um cartaz da parede. Leio com perplexidade livros de alguns dissidentes; quando às vezes a Coreia do Sul atira folhetos de propaganda que têm a cara do querido líder e são a dizer mal do querido líder, as pessoas ficam no seguinte dilema moral: isto tem a fotografia do querido líder e, por isso, tenho uma compulsão para apanhar isto do chão; e, por outro lado, eu não posso tocar nisto porque é lixo imperialista. Esse dilema moral que os faz queimar por dentro é uma coisa tão absurda! Aquele nível de domínio de controlo é inexplicável.

Jesus da Nazaré

Eu gosto mais de palavras do que de coisas. Eu se quero explicar a uma pessoa que gosto dela, recorro mais facilmente a palavras do que a beijos. Mas os beijos têm mais prestígio do que as palavras. Jesus Cristo é a prova de que uma pessoa pode ser traída por um beijo. O Pai pô-lo cá para dizer palavras admiráveis e foi traído por um beijo.

Jorge Jesus

Continuo a achar que é um grande treinador, muitas vezes é inimigo de si próprio porque se ele tivesse mais distância em relação a si poderia ser melhor ainda do que já é. Há uma coisa que Jorge Jesus e os críticos têm em comum: ele está convencido de que é o melhor treinador do mundo e talvez seja só muito bom, os críticos dele dizem que ele está convencido de que é o melhor treinador do mundo e não presta. Acho que estão os dois errados.

Cristiano Ronaldo

É difícil eu conseguir ter mais admiração por ele. Conseguiu à custa do seu próprio esforço transformar-se no melhor do mundo. Às vezes, há pessoas que dizem coisas que me deixam perplexo: “Eu gosto mais do Messi porque vê-se que é talento natural, enquanto que o Cristiano Ronaldo tem de trabalhar muito”. Eu acho que isso é mentira, porque eu não acredito em talento natural. Mas, ainda que fosse verdade, isso só faria com que eu tivesse ainda mais admiração por ele. Se é um tipo que nasceu sem nada e à custa do seu próprio esforço consegue aquilo, eu então tenho mais admiração por ele do que por um tipo que foi bafejado por um dom qualquer.

Vladimir Putin

É um fascista. Era do KGB, há ali um parentesco entre ser grande na União Soviética e ser grande num regime protofascista, como é o dele. Não tenho grande apreço nem admiração por esse senhor.

Deus

É uma ideia engraçada. Eu percebo a ideia porque eu também tenho aquela vontade, é muito chato estar aqui, viver com medo é uma chatice. Se eu fosse religioso seria Judeu, são gente que não tem uma ideia clara de vida depois da morte, que têm muito sentido de humor sobre si próprios, gente que não faz proselitismo, estão-se borrifando se são Judeus ou não. Se alguém se quer converter ao Judaísmo, a primeira coisa que dizem é: não faça isso. São empreendedores, boa parte do atraso português tem que ver com a expulsão dos Judeus; isso foi trágico para nós. É muito impressionante que um povo que tem 15 milhões de pessoas tenha a repercussão social que eles têm isso deve-se, em grande medida, ao facto de ser uma religião em que a leitura e interpretação de texto é central. É a prova de que ler e interpretar é proveitoso.

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