Shaping Leaders: Líder 180° vs. Líder 360°

Haverá tema mais falado, debatido, encorajado dentro das organizações do que o tema da liderança? Penso que não. Está na “moda” e ainda bem.

Esta minha contribuição é mais uma visão dentro (e fora) das que agitam as cabeças mais pensantes sobre o assunto.

O leitor estará curioso pelo porquê da designação “shaping leaders”. Shaping em português é moldar, criar um molde, mas, em inglês, é muito mais do que isso: é ação, influência positiva, motivação e agrega um sem número de significados que dão sentido à palavra. E é disso que estamos aqui a falar: de motivação contínua, de pensar e agir, de influenciar de forma positiva a ação das pessoas à nossa volta.

Influenciar pessoas de forma positiva implica ética, consciência, atitude e saber exatamente que a sua influência é proporcionadora de possibilidade e não castradora de ações. Influenciar pessoas é estabelecer um rapport elevado com as pessoas que gere, coordena ou simplesmente convive. Influenciar é também interessar-se genuinamente pelo outro (dono de uma singularidade própria) e com ele construir. O oposto disto será a manipulação, que não é chamada a este artigo e que todos conseguimos observar ou até relatar em causa própria.

Influenciar pessoas no “Mundo VUCA” em que vivemos (VICA em português, que significa: volátil, incerto, complexo e ambíguo) significa que o influenciador, seja ele diretor, gestor, coach, consultor ou cada um de nós nas suas funções, deve ser flexível. Como se trabalha essa flexibilidade?

Leva-me à questão do Líder 180°, uma designação que uso para programas de liderança altamente potenciadores de mudanças pessoais do líder. 180° porque antes de ser virar e ter uma visão 360° de si e da sua organização, deve olhar para dentro, para as suas visões, missões e ambições. Um líder puramente externalizador, por mais humano e conciliador que seja, terá sempre aspetos em que falhará, precisamente pela falta de introspeção e reflexão. Parar para um líder é fundamental. Parar num sentido de ponderar decisões, ações da sua equipa e caminhos a seguir. Este é o Líder 180°, que se preocupa consigo, com o seu bem-estar, já que o bem-estar individual será necessariamente o da equipa. O Líder 180° vive o seu desenvolvimento pessoal e trabalha-o para garantir estabilidade emocional e estabilidade na equipa. Um Líder 180° é a pessoa que sabe conciliar a vida profissional com a familiar.

Falo no líder, como falo na líder. Sabemos que a nossa língua usa o masculino universal, mas a liderança feminina sabe já de cor o que é ser uma Líder 180°.

Tendo passado pela reflexão 180° passemos para a Liderança 360°, uma liderança com foco nos outros, no global, no desenvolvimento da organização e das pessoas, na responsabilidade social, nos clientes (internos e externos) e nos fornecedores e outros atores que circundam a organização e o líder.

Os desafios que se colocam a uma liderança 360° são tão profundos quanto a 180°, mas bem mais diversos e dispersos. Uma liderança 360° é sobretudo lateral. Como nos diz John Maxwell, é a mestria do intangível, das relações e interligações dentro da organização. É facilitar processos de liderança para as pessoas que gere, tornando-as também líderes 180° e 360°.

Será que isto tudo é assim tão abstrato e de difícil concretização? Considero que não. É relativamente fácil identificar as diferenças e, ao fazê-lo, conseguir potenciar o desenvolvimento. Das múltiplas experiências que tenho tido ao longo dos anos, partilho convosco duas formas de ver a liderança que considero concretizarem o assim referido.

Colaborei no passado com uma Líder 180° e 360° exemplar. Foi num dos maiores grupos de formação em Portugal e esta pessoa tinha a particularidade de conseguir conciliar interesses, relações profissionais e pessoais, e tinha o rapport necessário para gerir e influenciar as suas equipas de forma proativa. Era tão líder que liderava nas equipas de outros líderes, tão somente porque o seu trabalho e ações eram notados e reconhecidos.

Noutra organização onde fui advisor/consultora, a líder era uma estratega brilhante, com lacunas enormes de humanismo e influência positiva. Se por um lado nunca deixava as suas equipas no vazio, deixava as pessoas singulares no vazio. Ainda por outro, a estratégia concreta era de um compromisso absoluto. Potenciava a organização, negligenciava as pessoas. Ficava entre o 180° e o 360° sem conseguir ser nenhuma das duas.

E volto aqui ao conceito de “shaping leaders”: esta intangibilidade das relações e da influência molda líderes conscientes, participativos e presentes. Estes líderes são necessários (urgentes mesmo) nas organizações. Seja um Líder 180° e 360°. Todos/as precisamos de si.

Por: Anabela Moreira, entrepreneur, coach, facilitadora de aprendizagens e mudanças

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