Servir para liderar num mundo complexo

Por: Milton J. Correia de Sousa, professor na Nova SBE

O modelo de liderança servidora parece ganhar cada vez mais adeptos fora do mundo da academia. Diversas empresas e instituições demonstram um interesse crescente pelo que parece ser uma nova forma de abordar a gestão e a motivação. Pelo paradoxo da expressão, há uma aparente novidade do modelo, que na sua forma atual tem por base o trabalho de Robert Greenleaf nos anos 70. Greenleaf, que se tinha na altura reformado da AT&T, escreveu um ensaio intitulado O líder como um servidor, onde refletia sobre os líderes que mais o tinham marcado ao longo da sua carreira. Nesse primeiro texto, deu nota de que os lideres cuja preocupação maior era a de servir (e não liderar) eram também os que tinham mais sucesso. Na verdade, o conceito não será assim tão recente. Já nos escritos milenares de Lao Zi, ou nos pensamentos de Swami Vivekananda e Santo Agostinho, se abordam as características do líder sábio, que prima pela humildade e pela capacidade de servir.
Note-se que servir neste contexto não é o mesmo que servidão subjugada. Ao contrário do que possa parecer, não há nada de “soft” na liderança servidora. No seu conceito fundamental, o líder serve num contexto de exigência, sentido de propósito e responsabilização. É muito mais um princípio orientador assente na humildade e de uma forte consciência humanista e social que atua como efeito mobilizador dos outros para a ação e impacto. Neste sentido, Robert Greenleaf dá nota da distinção entre o líder cuja motivação principal é servir e aquele cuja motivação principal é liderar. No primeiro caso, a liderança é um meio para cumprir o objetivo de servir. No segundo caso, servir é um instrumento (talvez até cínico) para liderar.
Como podemos então criar uma cultura de liderança servidora? O primeiro passo será definir bem o sentido de propósito da organização numa perspetiva de serviço. Não me refiro a afirmações simplistas e, por vezes, vazias como servir o cliente ou o acionista. Isso são “verdades de La Palice”. Refiro-me, sim, à forma concreta como a organização contribui para melhorar a vida daqueles a quem serve. A questão principal será, talvez, se cada pessoa na organização tem consciência da forma como o seu trabalho tem um impacto (positivo ou não) nos outros. Através do seu exemplo, responder a esta questão será, porventura, o principal trabalho do líder servidor. Isto implica uma proximidade e interesse real pelas preocupações e necessidades de colaboradores, clientes e outros stakeholders. Um aproximar e saber ouvir, que exige dos líderes dedicação, tempo, paciência e ponderação. A humildade e o saber servir, neste sentido, cultivam-se através de uma proximidade ativa.
Finalmente, a relevância da liderança servidora não será apenas ética. O humanismo e positividade subjacentes ao modelo são óbvios. Mas, simultaneamente, num mundo cada vez mais complexo e brutalmente transparente, poucos são os líderes que podem almejar o sucesso sem uma grande dose de humildade, capacidade de diálogo e abertura às vozes de stakeholders cada vez mais exigentes e interventivos. Neste novo mundo, saber servir poderá ser fundamental para liderar.

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