Ser interessante

Uma das questões mais pertinentes no panorama político atual, atendendo à quantidade de votos depositados nas pessoas mais improváveis, é a das características pessoais que tornam os candidatos apelativos.

Em 2013 a Meg Wolitzer escreveu um romance chamado Os Interessantes que tem na passagem de ano para 1975 um dos seus mais interessantes diálogos entre dois dos então jovens americanos protagonistas, Jules e Ethan, autointitulados de interessantes.

Conversam sobre a guerra no Vietname (curiosamente no dia em que escrevo, 15 de janeiro, mas em 1973, Nixon anunciou a suspensão das operações ofensivas norte americanas naquele país): “Mas tu e eu e toda a gente que conhecemos, éramos todos demasiado novos para ver a coisa de perto. May Lai, toda essa tragédia terrível. Acabámos por passar por entre os intervalos. Ela não soubera o que sentiria estando dentro de drama a sério. Fazendo algo importante. Sendo corajoso. Que ideia imponderável: a da bravura. Não consigo decidir se isso é bom ou mau”, disse ele. “É definitivamente bom, no que diz respeito a não estarmos mortos. Não morri numa morte inútil em Hanói, provavelmente disparando acidentalmente contra mim mesmo com a minha M-16. Por outro lado, é mau que tenhamos perdido a experiência. Sabes o que quero?”, perguntou Ethan, sentando-se subitamente na biblioteca às escuras. “Experiência?”, arriscou Jules. “Sim, isso também, mas outra coisa. Vai parecer pretensioso…”, disse Ethan, “… mas quero não pensar tanto acerca de mim mesmo”. Fitou-a à espera de uma reação. “Não percebo o que estás a dizer”. “Quero não pensar tanto acerca do que eu quero, e do que eu deixei passar. Quero pensar noutras coisas – outras pessoas e até outros lugares. Estou tão farto das piadinhas irónicas e privadas, e de recitar frases de programas televisivos, de filmes e de livros (como o que estou aqui a fazer!). Tudo do… mundo circunscrito. Quero um mundo que não esteja circunscrito”.

Circunscrito por nós ao longo de muito tempo, por bons motivos muitas vezes, por maus outras, por conveniência ou inação tantas. Não sabemos se é a falta de memória, se é a monotonia da realidade, se é o desespero, a desesperança e o cansaço porque nada muda ou se é a esperança, porque nós somos nós e as nossas circunstâncias, dizia Ortega y Gasset, a verdade é que as personagens mais bem sucedidas politicamente no mundo contemporâneo têm, atrevo-me a dizer, um denominador comum: eles e as suas equipas combinaram o que Ethan achou exclusivo e pensaram nelas próprias ao mesmo tempo que saíram de um mundo circunscrito. E são, por isso, interessantes. Interessantes o suficiente para quem vota nelas e para quem as observa com surpresa face aos resultados que vão obtendo por mais controversos, imprevisíveis e marcantes que sejam. Isto não é uma emulação, é uma constatação. No fim do livro da Wolitzer os personagens ajustaram as suas expectativas e a Jules até conclui que como ser interessante é um trabalho diário, dá mais paz valorizar-se o que se tem efetivamente. O que também é possível que venha a acontecer politicamente daqui a uns tempos. Entretanto, apostaria que a característica-chave nas lideranças políticas de hoje, quando essa opção se põe, é a pessoa ser interessante. Não confundir com enciclopédica.

Por: Sandra Clemente, jurista

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