Sem caixa

Um perfil da Cayetana Álvarez de Toledo publicado na Vanity Fair espanhola na véspera das eleições gerais no país motivou este artigo. Não se trata de outro perfil exaustivo, nem de uma análise política sobre as suas posições políticas, nem uma ode à personalidade. Apenas a constatação da importância desta publicidade na normalização do papel das mulheres na vida pública e a crescente naturalidade com que nos é possível ser e apresentarmo-nos como aquilo que somos, sem concessões a imagens pré concebidas. Pouco importa se as figuras políticas femininas são de direita ou esquerda, o credo ou a corrente, se ganham ou perdem. Na verdade, para cada um dos itens há figuras políticas masculinas e, com críticas ou apoios, convivemos bem com elas e não as matamos na primeira derrota. Espanha tem visto muitas mulheres acederem a papéis políticos cimeiros, embora nenhuma tenha sido chefe de governo. Na direita espanhola, duas mulheres sobressaíram nos últimos tempos: primeiro, Inés Arrimadas pelos Ciudadanos, e Cayetana Álvarez de Toledo, pelo PP, depois. As duas candidatas por Barcelona nas últimas eleições gerais, em que a primeira ganhou à segunda. Mas é sobre Cayetana – uma mulher “inteligentíssima mas brutal com as mulheres. Tem zero empatia com elas”, nas palavras da estilista Ágatha Ruiz de la Prada que há uns anos a apresentou ao então marido, Pedro J. Ramirez, na altura o todo poderoso diretor do El Mundo, jornal para que a convidaria a escrever – que este artigo se vai debruçar. Apesar da derrota colossal do PP nas últimas eleições espanholas. Apesar da “derrota contundente e clara” em Barcelona e na Catalunha como disse a própria Cayetana. Uma política chamada a ser a sensação do PP nas últimas eleições, crítica feroz dos independentistas catalães, a quem chamou de xenófobos, acusada de não falar de mais nada durante a campanha senão da situação na Catalunha, o que justificou com nada mais existir se a democracia não existir, e, num país assolado pela violência doméstica e com seis milhões de mulheres indecisas em vésperas de eleições (ah! Ágatha Ruiz de la Prada também comentou a propósito da empatia zero com as mulheres que “claro, subestimar metade dos teus eleitores…”), autora de uma afirmação polémica durante um debate sobre o valor do “não”. De qualquer maneira, o seu maior contributo para o feminismo está no seu próprio protagonismo.

Logo após as eleições, publicou no seu antigo jornal, o El Mundo, uma entrevista feita a Leopoldo López, antigo líder da oposição venezuelana e o preso político mais conhecido do regime de Maduro, acabado de libertar da prisão domiciliária durante a qual ela, clandestinamente, o tinha entrevistado. No plano pessoal, viveu em vários países, cresceu numa família refeita várias vezes, divorciada, mãe, bem preparada, trabalhadora, jornalista, deputada, de quem os ex-sogros disseram que gostariam que fosse menos inteligente.

Olhando para o artigo da Vanity Fair vi uma mulher a ser ali o que ela é: uma política sem cedência a quaisquer preconceitos que não os seus próprios. É mais fácil desenvolver características de liderança quando a nossa primeira preocupação não é a de termos de caber num determinado quadrado.

Por: Sandra Clemente, jurista

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