Segunda sugestão de verão

Escrevi este artigo depois de ter ouvido a Diana Krall, num concerto maravilhoso no EDP Cool Jazz em Cascais. Krall, mais pianista que nunca, mais intimista do que julguei possível, acompanhada por Joe Lovano, Robert Hust e Karriem Riggins, recriou no meio de um hipódromo o ambiente fascinante dos antigos cabarets. Há pouco tempo lia que ela, com outras vozes do jazz contemporâneo, a Dianne Reeves, a Cassandra Wilson…, encarnava as descendentes da Billie Holiday, da Ella Fitzgerald ou da Sarah Vaughan. Descendente(s) porque tinha, acima de tudo, o papel tradicional que as mulheres tiveram na história do jazz, o de cantoras fabulosas. Pareceu-me imediatamente evidente que era assim. Em Portugal, a Elisa Rodrigues, a Marta Hugon, a fenomenal Sara Serpa que um amigo me deu a conhecer recentemente, a Rita Martins, a clássica Jacinta e, e já muito fora do registo tradicional, mas dentro dessa tendência cada vez mais em voga do jazz absorver outros géneros musicais, a Sara Tavares, que em 2018 também proporcionou um espetáculo fabuloso no mesmo festival, em Cascais, cumprirão também esse papel.

Num concerto anterior comentávamos entre amigas o facto de praticamente não vermos bandas, nem instrumentistas femininas. E, curiosamente, apesar do papel relevante que o jazz teve nos movimentos em prol dos direitos civis, em relação à emancipação das mulheres foi bem mais conservador. O George T. Simon, que foi músico e um crítico de jazz influentíssimo, primeiro como editor da revista Metronome e mais tarde no New York Herald Tribune e no New York Post, dizia lapidarmente que “Só Deus pode fazer uma árvore e só homens podem tocar bom jazz”.

O José Duarte, do Cinco minutos de Jazz na Antena 1, que agora lançou uma nova edição do seu livro com o mesmo nome, conta que no início dos anos 70 foi entrevistado numa rádio de Los Angeles que passava jazz 24 horas por dia e tinha levado com ele uma cassete da Nina Simone a tocar piano. No final da entrevista, o apresentador pôs a cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano.

São, de facto, homens que nos vêm à cabeça quando pensamos em lendas do jazz: Louis Armstrong, Duke Ellington, Miles Davis, Dizzy Gillespie, John Coltrane, Charlie Parker, Chet Baker, Count Basie… Mas as mulheres estão a reformular a mais americana das artes. Alguns dos protagonistas que lideram a inovação do jazz no século XXI são mulheres instrumentistas. No fundo, é uma nova fase em que as mulheres estão a desenvolver o seu potencial completo enquanto músicos e, com isto, a implodir o chamado teto de bronze – terminologia do meio aparentemente– do jazz.

São nomes como Kris Davis, Nubya Garcia (aqui, este ano, no Primavera Sound), Kokoroko, Linda May Han Oh, Jane Ira Bloom, a quem a poesia da Emily Dickson tem servido de inspiração recentemente, Roxy Coss, Terri Lyne Carrington, Mary Halvorson, Regina Carter, Maria Schneider aqui a dirigir uma orquestra. Para além disso, é compositora, Jasmeia Horn, Kris Davis, Andrea Motis que em novembro deu um concerto fabuloso no São Luiz, em Lisboa, a que assisti. Nesta vaga, em Portugal, a extraordinária Susana Santos Silva.

A maior parte das artistas acima estão agora entre os músicos mais requisitados do ramo. São cabeças de cartaz de concertos, festivais e clubes; são líderes de bandas, produtoras de concertos e ensinam nas principais escolas de música, que são um fator importante de acesso das mulheres à arte. Fazem muitas vezes parte de bandas compostas por tantas, ou mais, mulheres do que homens sem que isso cause tanta surpresa. Esta normalização incentiva a entrada de mais mulheres, que arriscam com mais confiança. A maioria das artistas diz que não percebeu que havia algo excecional em ser uma mulher no jazz até chegar à faculdade ou começar a tocar no mundo real e também diz que, em algum momento da carreira, ouviu “tocas como um homem” em jeito de elogio. Como diz a Tia Fuller, “as mulheres jovens podem pilotar um foguetão, jogar futebol e fazer solos no saxofone – mas é sempre mais difícil ser o que não conseguimos ver”. Fuller foi nomeada para os Grammy Awards 2019 pelo seu álbum “Diamond Cut”, na categoria de melhor álbum instrumental de jazz. Foi a segunda vez que uma mulher foi nomeada para o cobiçado prémio ao longo dos 61 anos de história dos Grammy. Em 2011, a Esperanza Spalding tinha ganho um dos prémios de maior prestígio da indústria musical, o Grammy de Artista Revelação, e entrou para a história como a primeira cantora de jazz a alcançar o galardão.

No rock, pelo menos em Portugal, parece acontecer o mesmo. Em maio estreou o documentário Ela é uma Música, de Francisca Marvão, sobre as mulheres do rock português.

Por estes dias ando ainda encantada com o projeto da diretora musical e pianista Renée Rosnes, Artemis, um grupo de jazz composto só por mulheres, que em 2019 tocará no Carnegie Hall, um dos grandes palcos de música norte americano. Se as quiser ouvir isoladamente: Allison Miller, Noriko Ueda, Melissa Aldana, Ana Cohen, Ingrid Jensen, Renne Rosnes, Cécile McLorin Salvant.

Em cada nome está uma amostra da respetiva música. Durante o verão, ou as férias, há mais tempo para as descobrir. Já agora aproveite para explorar a Women in Jazz.

Por: Sandra Clemente, jurista

Artigos Relacionados: