Revolução 4.0 – quando a ficção supera a realidade

Quando em 1965 Gordon E. Moore formulou a “profecia” de que o número de transístores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses, cunhando a Lei homónima, a ficção científica pertencia ainda ao domínio da literatura e do cinema.

Este primeiro insight sobre a superação dos limites do possível, não fazia prever o “admirável mundo novo” em que vivemos, com ficção e realidade fusionadas e (quase) indistinguíveis.

Pela primeira vez na história da Humanidade, a mente humana enfrenta a competição de mentes sintéticas por ela criadas¹. Estas “criaturas” são, incomensuravelmente, mais rápidas e inteligentes do que os seus criadores, disputando o poder de regulação das sociedades e do devir humano, até agora confinado aos primeiros.

Exemplos recentes como o programa Alpha Go criado pela Deep Mind ou o computador Watson que no concurso Jeopardy consegue responder a perguntas difíceis sobre cultura e factos históricos, colocam na ordem do dia a necessidade de uma reflexão profunda sobre as implicações filosóficas, éticas, políticas e sociais da revolução 4.0. Para Kevin Kelly², o mundo já é governado por uma entidade autónoma com a sua agenda própria que designa de technium, composta pela vasta rede interligada de sistemas e programas informáticos existentes no mundo e que considera o próximo passo da evolução.

Chegados aqui e enquanto a nossa espécie permanecer, estruturalmente, o que tem sido desde há 300 mil anos e não um híbrido biónico anunciado, creio que importará incorporar as dimensões do conhecimento existentes na filosofia, na psicologia, na sociologia e na política para repensar o devir das sociedades e do ser humano.

À luz do conhecimento atual, um fator diferenciador da mente humana é dotar o seu proprietário de consciência e de um conjunto de faculdades cognitivas que envolvem entre outras, o livre arbítrio, a memória e as emoções (Oliveira), a que acrescentarei a necessidade de pertença, essa “sede de relação”³ que permite que cada ser humano se descubra e revele na interação com os seus semelhantes.

Precisamos de contrapor à velocidade vertiginosa das TI que satisfazem, instantaneamente, pedidos e desejos, descontinuidades temporais entre desejar e obter. Numa época em que as tecnologias oferecem entretenimento infinito, vai-se perdendo a capacidade de esperar, de enfrentar o vazio de nada ter para fazer e, assim, de criar abertura para uma melhor conexão mente-corpo, essencial ao treino da consciência de si e dos outros, bem como ao livre arbítrio.

¹ Oliveira, A., (2017). Mentes Digitais – A Ciência redefinindo a Humanidade. Lisboa: Instituto Superior Técnico.
² Kelly, K. (2010). What Tecnology Wants. New York: Penguin Books.
³ Mendonça, J. T. (2018). Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal Editores.

Por: Jaime Ferreira da Silva, managing partner da Dave Morgan

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