Querem-se líderes imperfeitos

Sinto que neste momento vivemos num momento de ideias brilhantes, mas não de líderes brilhantes. Sinto a geração Millennial perdida quando olha para o topo e procura exemplos a seguir. Eu sinto falta de exemplos de mulheres líderes, sim, mas não só.

O que me fez pensar. Millennials, façamos um exercício de folha em branco e desenhemos um líder ideal. Independentemente de sexo, raça, preferências políticas, religião, orientação sexual. Que pessoa queremos para líder? Que características, que valores?

Eu vou aqui desenhar a minha versão convosco, sabendo que qualquer modelo só funcionará existindo diversidade para que todos vejam espelhadas, de algum modo, as suas características, as suas preferências, o seu futuro.

(Vou daqui para a frente usar transversalmente “o meu líder”, independentemente de ser homem ou mulher. Não nos percamos na discussão dos determinantes.)

O meu líder é uma pessoa, antes de tudo, humana e, por definição, imperfeita. Não compreendo o pedestal de perfeição que impomos aos líderes, principalmente às mulheres. Vejam uma entrevista a uma mulher num cargo de liderança e confirmem se uma das perguntas iniciais não é sobre as mulheres “conseguirem ter tudo” ou como conciliar “a vida profissional e pessoal”. Exigimos das mulheres uma exposição e uma perfeição inatingível. Procuramos respostas e soluções perfeitas (e generalizáveis!) de pessoas que, como nós, estão a fazer o seu melhor para viver a sua vida de acordo com as suas preferências. Sinto que se não forem tudo o que a sociedade espera que sejam – profissionais bem-sucedidas, esposas e mães presentes – são atacadas em praça pública e categorizadas de maus exemplos, de más feministas. Veja-se o exemplo da Hillary Clinton, cuja vida e escolhas foram esmiuçadas de um modo que nenhum outro candidato teve de aguentar; das escolhas de roupa, às decisões familiares e à relação com a filha. O meu líder é uma pessoa real, imperfeita. Não precisa de cumprir critérios impossíveis.

O meu líder é uma pessoa inteligente e com visão. Uma pessoa com o conhecimento relevante, mas também com a capacidade de se rodear das pessoas que melhor a complementam. Uma pessoa com a coragem para tomar as decisões fáceis e difíceis. Para arriscar quando é preciso, mas também capaz de fazer uma pausa e esperar.

O meu líder é flexível e dá flexibilidade. Uma pessoa que acredita em mérito e resultados, e que, por isso mesmo, dá liberdade para criação de regras e rotinas próprias. Que acredita que não precisamos de nos sentar a uma secretária para entregar trabalho. Que podemos ir buscar os miúdos à escola e tirar umas horas durante a tarde e voltar a trabalhar à noite se assim o preferirmos. Que podemos ir surfar à Caparica ao início da manhã e compensar ao fim do dia.

O meu líder é uma pessoa positiva, que inspira e une. Que cria um ambiente de comunidade, de pertença, mais do que uma máquina orientada aos resultados. Que se preocupada com os que a rodeiam e que compreende como os apoiar e motivar ao longo do seu percurso.

O meu líder é, no fundo, uma pessoa equilibrada e completa, como já dizia Sun Tzu: “Leadership is a matter of intelligence, trustworthiness, humaneness, courage, and discipline. Reliance on intelligence alone results in rebelliousness. Exercise of humaneness alone results in weakness. Fixation on trust results in folly. Dependence on the strength of courage results in violence. Excessive discipline and sternness in command result in cruelty. When one has all five virtues together, each appropriate to its function, then one can be a leader”.

Uma pessoa com pontos fortes e fracos. Com dias bons e dias maus. Mas, acima de tudo, um ser humano que lida com seres humanos. Inteligente não só analiticamente, mas especialmente emocionalmente. Uma pessoa que eu ambiciono ser.

Por: Inês Relvas, consultora do The Boston Consulting Group e curadora do Global Shapers Lisbon Hub

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