Quão rápido conseguimos ir? Depende!

Dizia Charles Darwin que “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. No mundo inteiro, em todos os setores e países, as pessoas têm de fazer mais, em menos tempo e com menos recursos, o que inevitavelmente nos conduz à questão da resistência, natural do ser humano, a qualquer tipo de mudança. Estas resistências tornam as empresas mais lentas e menos competitivas e, por isso, é necessário saber ultrapassá-las. A questão está, então, em saber se os líderes estão preparados para a mudança e, depois, para a liderar de forma positiva e participada. Terão os líderes o superpoder de, rapidamente e em qualquer circunstância, se adaptar à mudança, adotando de forma célere e eficaz as decisões necessárias? Serão eles capazes de ter em conta e conciliar os inúmeros fatores em jogo, não apenas relacionados com o negócio, mas também com as responsabilidades sociais, no seu processo de decisão?

Há tempos li um artigo que referia que, nos tempos modernos, “não nos podemos dar ao luxo de sermos uma borboleta a emergir lentamente, mudando de forma gradual para liderar e influenciar num ambiente em rápida mutação. O líder de hoje tem de ser uma chita! Agir por instinto, com rapidez e agilidade”.

É certo que a capacidade de reação e antecipação é fundamental. Mas a rapidez na tomada de decisões não é tudo. Todos conhecemos exemplos de empresas que, ao quererem aumentar, de forma não ponderada, a velocidade da mudança para não perderem o comboio da concorrência, acabaram por perder o da qualidade, comprometendo a sua reputação como organização e a dos seus produtos. E essa decisão é do líder.

Nesse sentido, não penso que a rapidez na decisão da mudança seja o único fator, ou mesmo o fator crítico para ganhar vantagem sobre os concorrentes. A vantagem imediata que daí possa resultar é normalmente ilusória, porque é temporária. Para que assim não seja, na minha opinião, o mais importante, e será mesmo um aspeto essencial, é saber conciliar a rapidez na ação com a necessária ponderação, agindo rapidamente, mas com a confiança e a segurança nas decisões e na capacidade de as ajustar à medida que se avança no processo. Mais do que a rapidez na decisão, quando tal possa significar menos ponderação, é fundamental ter o melhor e o mais rápido conhecimento dos fatores que constituem, e podem determinar, o sucesso na mudança, para então ponderar as decisões concretas.

É por isso que acredito que um líder deve dedicar (não “gastar”) parte do seu tempo a tentar antecipar a mudança, ler os sinais do mercado, tentando tornar o imprevisível previsível, conhecendo e preparando os fatores que possam contribuir para a rápida implementação dessa mudança.

Naturalmente que tudo isto tem também que ver com a clássica questão: “Que tipo de líder quero ser?”. Que tipo de líder exige a capacidade de ser o catalisador da mudança? Um líder carismático, autoritário, motivador, “democrata”? Que tendências deve o líder seguir? Dou primazia a um estilo coach em que tento aproveitar o melhor que cada colaborador tem e o ajudo no desenvolvimento das suas capacidades?

É de suma importância que um líder aprenda a delegar e a confiar nas suas equipas. É fundamental incentivar e aproveitar o melhor que cada colaborador tem, ajudando-o a melhorar e a acreditar nas suas capacidades, pois só assim se consegue ter uma equipa sólida. Para mim, o melhor líder não será aquele que tem várias competências, mas sim o que se rodeia de talento, de pessoas que conseguem trabalhar de forma eficaz, criando e desenvolvendo sinergias, num ambiente onde a discussão de ideias seja o primeiro passo para a mudança e para a inovação.

Envolver as pessoas é muito mais que atribuir-lhes responsabilidades. É dar-lhes liberdade, promover a inclusão, a adaptação e fazer com que cada pessoa queira dar o máximo de si e ser reconhecida por isso.

Tenho por hábito, todos os dias, perguntar-me: “Que posso fazer hoje para melhorar a performance da minha organização e o grau de satisfação das minhas pessoas?”. A forma como me envolvo na procura dos caminhos para responder a estes objetivos é proporcional à dimensão dos desafios e das oportunidades com que me deparo.

O líder de hoje não pode limitar-se à tomada de decisões que tenham um impacto direto e mais ou menos imediato no negócio. Liderar é cada vez mais preparar o futuro, estar atento e antecipar a necessidade de mudar. E isso só se consegue, para além das competências e do desenvolvimento pessoal do líder, se se instalar uma cultura de participação e de inclusão, não apenas com as nossas equipas, mas também com os nossos clientes, fornecedores e outros stakeholders, porque é ela que conduz e permite a criação de uma cultura de responsabilidade, de eficiência e de sucesso.

Quão rápido conseguimos ir? Depende! É preciso saber responder e decidir em cada momento sobre o que é mais importante: chegar mais rápido ou chegar mais longe?

Por: Cristina Rodrigues, CEO da Capgemini Portugal

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