Profissionalismo

“É tudo muito indigno”, dizia o vice-reitor de Eton a uma imensamente jovem princesa Isabel que queria aprender literatura, filosofia e ciências. Só a constituição não era. Passa-se num episódio da série The Crown com o título “Saber é poder (assim com minúscula)”.

Já rainha, Isabel II pergunta à mãe se não tem o dever de saber algumas coisas. É que tem medo de ficar com os políticos e homens de Estado e não os saber acompanhar nas conversas. Os russos têm a bomba de hidrogénio, Churchill fala-lhe da necessidade de conversar com Eisenhower, ele e o ministro dos Negócios Estrangeiros estão doentes, Isabel, chefe de Estado, não percebe nada destes assuntos e quer dar a imagem de um país eficiente e são. Mas o estado da arte é outro. Os assuntos prementes para o mundo são desconhecidos em profundidade pela rainha e quando Anthony Eden reúne com Eisenhower, este comenta com os seus assessores: “Meus senhores aquilo não é só um homem adormecido. É uma metáfora triste do segundo homem mais poderoso do país que já foi o mais poderoso do mundo”.

De todos os fundamentais da liderança descritos neste interessante artigo da HBR, a firma, como é conhecida a família real inglesa, tinha todos: (a) unia as pessoas à volta de uma visão excitante e aspiracional; (b) construiu uma estratégia para concretizar essa visão escolhendo cuidadosamente, muito cuidadosamente, o que fazer e o que não fazer (Churchill não tem um papel menor nisto tudo); (c) atraía e desenvolvia os melhores talentos para implementar a sua estratégia; (d) estava constante e obstinadamente focada nos resultados previstos pela estratégia; (e) inovava constantemente (no meio de toda a burocracia) de maneira a reinventar a visão e a estratégia (aqui é particularmente relevante a transmissão pela televisão da coroação de Isabel II numa tentativa de aproximar a instituição do povo, tentativa essa presente em todo o discurso político hoje em dia, em qualquer geografia). Mas faltava-lhe o último, que aquela a quem tinha cabido a liderança da instituição se liderasse a ela própria: “Conhecendo e cultivando-se de maneira a liderar efetiva e eficientemente os outros e a concretizar todos os fundamentais acima”. A rainha mãe explicava-lhe que não se deve forçar o que não nasce connosco, que Isabel tinha recebido a educação adequada para uma mulher do seu meio, tinha sido ensinada a ser uma lady. Ninguém queria uma mulher erudita ou uma mulher que lê para soberana. Mas Isabel sente que não está preparada para exercer as suas funções, também vai constatando que a ignorância mais depressa a faz ficar dependente de toda uma máquina burocrática e contrata um tutor que lhe explica que não ser informada é um crime.

A insegurança e a dependência que a falta de conhecimento provoca é universalmente familiar. A segurança que o conhecimento dá é fundamental para a liderança de qualquer coisa, desde logo da própria vida. Por exemplo, recentemente, o Expresso trazia um 2:59 que mostrava as vantagens do ensino superior no mercado de trabalho e na realização pessoal que valem a pena ponderar.

Por: Sandra Clemente, jurista

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