Procrastinação: a sensação de tempo não cumprido

Quem nunca teve a sensação de realizar um esforço hercúleo para concluir algo depois de desperdiçada uma margem de tempo significativa? O escassear de tempo, a ansiedade de ter, aparentemente, de realizar o impossível quando estamos próximos do deadline, são os sintomas de quem adia sucessivamente a tarefa. Numa palavra: procrastinação – palavra com origem no latim procrastinatus, em que pro significa “à frente” e crastinus “de amanhã”. Torna-se, assim, percetível o significado da mesma – colocar “isto” no depois do amanhã. Mas como evitar este fenómeno?

Conheça a tarefa
Invista tempo em conhecer o que se propõe realizar, antes de pôr as “mãos na massa”. Saber que temos de fazer um bolo é, em si mesmo, apenas um desejo. Que tipo de bolo quer fazer? Quais os ingredientes que vai usar? Que materiais são necessários? Tem competência para realizar esta tarefa? Há algo nesta tarefa que implique aprender algo novo? Ter uma pequena ideia do que o espera, permitir-lhe-á saber como planear a execução da tarefa e alcançar uma maior eficácia na gestão de timings. Muitos poderão, intuitivamente, começar logo a tarefa, de forma a “não perder tempo”. Mas, investir alguns minutos nesta fase, poderá conseguir maior fluidez durante a execução do seu propósito/objetivo.

Desenhe o plano de ação
Após conhecer bem as especificidades da tarefa, encontra-se em condições para fazer um planeamento da ação do seu objetivo. Não se esqueça que, para o nosso bolo, não basta adicionar os ingredientes e colocá-los no forno. É importante e necessário saber quais as etapas a realizar, a partir do primeiro ingrediente até cortar a primeira fatia. Esta fase irá trazer-lhe inúmeras vantagens. Primeiro, poderá projetar a cronologia de toda a tarefa. Segundo, ter noção dos timings necessários para cada fase. Terceiro, antecipar e prevenir potenciais obstáculos, quer seja ao nível material, temporal ou técnico. Quarto, ter consigo um plano de ação acrescenta-lhe o poder de monitorizar, por si próprio, todo o processo e ter feedback da própria tarefa. Desta forma, o sucesso ficará mais tangível.

Subdivida a tarefa em microtarefas
Uma das (muitas) razões que poderão estar na génese do adiamento consecutivo da tarefa, prende-se com a dimensão da mesma. Quem nunca esteve algumas dezenas de horas a rever a literatura para a sua dissertação e, na hora de resumir aquilo que esteve a fazer, teve a sensação que não fez nada ou quase nada? Que o esforço parece ter sido em vão e que poderíamos ter ocupado esse tempo com atividades tão mais prazerosas? Estes pensamentos, que minam o futuro da concretização da tarefa, podem ser evitados com a sua subdivisão. A dissertação deixa, em si, de ser uma tarefa, mas dezenas de pequenas tarefas. Isto fará com que o seu esforço seja rapidamente reforçado e dar-lhe-á maior consciência da necessidade das pequenas tarefas para a concretização de um grande objetivo.

Reforce-se a si mesmo
Assim que o plano de ação, com base na divisão do objetivo em pequenas tarefas esteja pronto, parta para a realização do mesmo. Uma estratégia que poderá igualmente colocar no seu plano é a inserção de reforços para si mesmo: sempre que termina uma fase ou um conjunto de pequenas tarefas, reserve espaço para algo que lhe dê prazer: ir ao cinema com um amigo, fazer desporto, jantar fora, ou simplesmente ir passear no meio da natureza, podem ser alguns exemplos. Já imaginou o sentimento de prazer ao comer aquele quadradinho de chocolate reservado para o momento em que termina determinada empreitada? Nunca menospreze o sabor da vitória! Valorize o seu esforço e materialize-o com aquilo que o reenergiza e o deixa pronto para o próximo passo.

Antecipe o deadline na sua agenda
Programe-se a concluir o seu propósito antes do deadline oficial. Seja através de projeções, com a colocação de post-its colocados ao lado da mesa de trabalho, seja através de alarmes, agendas ou lembretes, acredite e vibre nessa meta.  Se hoje é segunda-feira e tem até ao final da semana para realizar a tarefa, projete e escreva na sua agenda que vai concluir a tarefa, por exemplo, na quarta. Isto dar-lhe-á tempo para antecipar imprevistos, evitar a ansiedade e saber que pode contar consigo próprio em momentos de maior delicadeza ou stress, tendo reservado uma “bolsa de ar” para as tarefas que se revelam mais complexas ou morosas que o expectável. Além disso, permitir-lhe-á ter espaço para feedback e melhoramentos no produto final daquilo a que se propôs realizar.

Abrace emocionalmente a tarefa
Uma das razões para a procrastinação poderá estar relacionada com o evitamento emocional com a tarefa. Poderão existir crenças como “não sou capaz” ou “por muito que me esforce nunca serei capaz de realizar esta tarefa ou fazê-la bem-feita”. Este tipo de sinais poderão ser presságios de estar a colocar entraves a si mesmo, isto é, está a utilizar desculpas! Mas, também, que poderá estar a enganar-se caso não tenha consciência deste perfil de comportamento. Abrace a tarefa, aceite e alegre-se com os obstáculos que poderá ter de ultrapassar e estará ao abrigo da volição: o processo cognitivo no qual o sujeito decide realizar uma ação. E, assim, a probabilidade de esta ser realizada no timing predefinido será muito maior.

Não deve encarar isto como um guia ou uma receita, mas como um compêndio de estratégias para ficar mais perto do sucesso, sem o sentimento que cortamos a meta no último segundo. As tarefas e o dia-a-dia não têm de ser vividos num contrarrelógio, mas num desfrutar continuado de cada momento a seu tempo. Leia-se, a tempo e horas. É preferível um feedback pouco positivo sobre um trabalho terminado do que a ambiguidade do potencial sucesso que nunca chegou a obter. Não paute a sua realidade pelo Pretérito Imperfeito! Termine as suas tarefas, deixe o seu Pretérito Perfeito para que se possa concentrar no Presente. E agora, se me dão licença, permitam-me que me despeça para terminar algumas tarefas que deixei pendentes!

Por: João Paulo Petiz, HR consultant da Your People

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