Os dois lados da equipa

Até onde o líder enxerga os comportamentos dos seus liderados? Mesmo entendendo que há bastante conhecimento disponível sobre as relações humanas nas organizações, porventura não existe uma porção a ser revelada ao se investigar por direções incomuns, e assim planear as atividades laborais com um pouco mais de luz projetada às profundezas do despercebido e intrigante universo psicológico?
O lado visível da equipa mostra, por exemplo, a motivação dos seus membros quando os resultados prosperam graciosamente, cujos ventos sopram o barco de modo favorável sobre as águas tranquilas do mar quotidiano. Só não expõe, todavia, o fundo dos acontecimentos quando aguaceiros e até tempestades fazem a embarcação balançar, causando frustração, desânimo, e, por vezes, desistência, resultantes de um conjunto de infelizes fatores combinados.
O sentimento de inferioridade (em maior ou menor grau) que se instala automaticamente cria o pesar típico, pois a intolerância a erros ataca diretamente a autoimagem criada na cabeça do seu autor, levando a uma redução da autoestima, uma resposta característica da natureza humana que nos provoca e impulsiona o aperfeiçoamento, a constante evolução baseada nas tentativas de equívoco e acerto, sobrecarregadas, ademais, pelo duplo peso competitivo social e profissional (uma predisposição igualmente desencadeada pelo ambiente) e pelo status da autoimportância (intelectual, financeiro, etc.), necessário ao desenvolvimento de boa dose do ânimo diário. Alimentamo-nos de impressões superiores à realidade se analisada à luz dos factos, levando-nos a engasgar devido ao exagero, exigindo maior busca de equilíbrio ao autoconceito.
Com boa atenção e vigoroso interesse em tal assunto, é possível observar o desalento quando os resultados fracassam ou não atingem o esperado, não apenas pela sua evidente carga frustrante, mas, sobretudo, pela forma defensiva com que se responde ao espinhento mal-estar existente no despercebido sentimento de inferioridade. Assim, há um lado que se vê da motivação, e outro bem oculto quando transitamos pelo acidentado chão do incômodo.
O pacote de respostas prossegue, ativando simultaneamente mais comportamentos defensivos: qual a desconfiança acusatória relacionada a desconhecimento, insuficiente competência e outros julgamentos (ainda que de facto eles estejam presentes, pois, afinal, quem é perfeito?), depositados nos outros integrantes da equipa como uma transferência das falhas aos corretos endereços alheios, fazendo abrir as janelas à gostosa e morna brisa do alívio. Obviamente, tal mecanismo processa-se nos impercetíveis subterrâneos do psiquismo, e faz parte do grande sistema denominado de autoengano. Contudo, é possível acessá-lo e tomar consciência favorável ao se dedicar a tais exercícios de intensa observação, uma prática que reside no autoconhecimento especializado. Descobrir-se é uma tarefa imprescindível ao crescimento pessoal e profissional, e ninguém pode autorizar tal avanço senão o próprio interessado. É uma ação intransferível.
A astúcia do autoengano reside na formação de defesas tão sutilmente elaboradas que só a vontade profunda e o esforço acima da média podem detetar rastos do lado invisível da psicologia da equipa. Cada negação e justificativa têm o peso da “verdade”, levando o profissional a procurar ajuda através dos seus severos argumentos diante de um cenário pesaroso a julgar culpa e inocência, sem levar em conta, desafortunadamente, os dois lados da equipa (e não apenas um), naturais na sua essência, e em parte ajustáveis, gradativa e convenientemente, se houver a consciência tanto do líder quanto dos liderados através de determinadas dinâmicas de grupo específicas (e já testadas com solidez de resultados), descrições correspondentes, diálogos e acompanhamento frequente.

 

Por: Armando Correa de Siqueira Neto, psicólogo corporativo e mestre em liderança

Artigos Relacionados: