Orgulho e vaidade nas organizações

Vale a pena definir os conceitos sobre orgulho e vaidade através de algumas ideias que podem ser o ponto de partida da análise aqui pretendida. Assim, embora o dicionário aponte para uma direção teórica, a prática sugere um rumo um pouco diferente. Orgulho, nas palavras do professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, no Brasil, Yves de La Taille, associa-se à autonomia, independente do olhar alheio, a despeito do julgamento que venha de fora; e a vaidade, contudo, é dependente da crítica de outrem, a heteronomia suscetível ao olhar externo.
Deste ponto de vista autónomo e heterónomo, é possível aprofundar tal compreensão do orgulho e da vaidade a partir dos dispositivos biológicos e psíquicos desenvolvidos pela natureza na sua longa e lenta jornada evolutiva, ampliando o campo de visão acerca do funcionamento dos colaboradores na vida organizacional. Na sua imperceptível, porém grandiosa, estratégia, a natureza demonstra ter-se preocupado com a costumeira adaptação da espécie, tendo trabalhado com duas frentes no modo de gerar e gerir as relações interpessoais: (1) a defesa, pois estabelece os limites de influência mútua, sem perder de vista a necessidade do auxílio conjunto, pois, sobreviver, em diferentes estágios da vida, requer os esforços da unidade e do grupo; (2) o ataque, cuja valorização recai sobre os avanços individuais aos quais o ser humano é recrutado diariamente, a fim de progredir na escalada da evolução, aumentando o seu património genético (vagarosa e seguramente) e repassando-os às gerações vindouras. É claro que tais características existentes na trilha do desenvolvimento variam de pessoa para pessoa, portanto, as velocidades determinam o tempo, sem excluir a viagem em si.
Como é que as lideranças percebem o orgulho e a vaidade ao longo da sua gestão? Elas são distintas na sua avaliação relacionada às atividades e prazos estabelecidos? O planeamento alcança a natureza humana, a ponto de valorizar o profissional através do reconhecimento, sem, contudo, exagerar na dose de apreço? Aliás, o que se tem percebido a respeito da necessidade de reconhecimento, porventura não parece ter-se elevado o nível por este tipo de demanda? Será que os treinamentos observam a essencial aprendizagem e a transformação que visem à autonomia e ao maior controle íntimo se houver autoconhecimento especializado? Que visão é possível extrair do funcionamento da natureza, capaz de lançar luz no dia-a-dia laboral, e dissipar um pouco da obscura névoa da falta de conhecimento pessoal, e associar tamanha riqueza ao arsenal de conhecimento técnico? Por acaso aprofundamo-nos o suficiente sobre o bem pouco conhecido psiquismo, um universo de possibilidades que podem, oportunamente, criar soluções, no mínimo razoáveis, às encruzilhadas nas quais nos encontramos atualmente? E não fomos nós mesmos os agentes que estabeleceram o ponto no qual nos encontramos, ainda que nos falte boa consciência a esse respeito?

Por: Armando Correa de Siqueira Neto, psicólogo corporativo e mestre em liderança

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