Obama & Trump

Por: Giovanni Damele

 

UMA VIAGEM PELO ESTILO RETÓRICO DE DOIS LÍDERES. SERÃO MESMO TÃO DIFERENTES?

 

Ingrediente tradicional da formação de um líder, a “arte de falar bem” (ars bene dicendi: definição clássica da retórica) inclui competências não apenas de ordem lógico-linguística  (a capacidade de argumentar, a habilidade dialética de responder às objeções, etc.), mas também performativas e emocionais (a capacidade de despertar as emoções do auditório). Sobretudo em contextos democráticos, a persuasão retórica tem sido considerada fundamental e os grandes líderes políticos da História têm sido caracterizados por uma oratória capaz de juntar, ao mesmo tempo, credibilidade e pedagogia. Fundamental seria, neste caso, a capacidade de construir um discurso cuja forma e cujo conteúdo tenha a capacidade de influenciar as opiniões e as ações dos ouvintes. Por isso, o cómico grego Eupólide dizia que a eloquência de Péricles, o líder da cidade de Atenas do século V, deixava um “ferrão” nas orelhas dos  que o ouviam.

Esta é, por assim dizer, a narrativa tradicional. Mas o que acontece nos nossos tempos? Um caso interessante é a recente eleição como presidente dos Estados Unidos de Donald Trump: aparentemente, o candidato mais “fraco”, se considerarmos as capacidades oratórias.

 

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O seu discurso é extremamente simples: muito pobre quer do ponto de vista argumentativo (uma sucessão de afirmações apodíticas e de slogans de campanha, em muitos casos), quer do ponto de vista lógico-linguístico: frases curtas, quase sem subordinadas, um vocabulário muito simples, com um uso muito limitado de sinónimos e perífrases e, portanto, com frequentes repetições. contudo, Trump ganhou. Este paradoxo parece ter duas respostas: uma, é que a eloquência não tem – nas sociedades contemporâneas – a importância que já teve. A outra, que a retórica de Trump tem, de facto, um poder de persuasão adequado para os seus tempos e os seus eleitores. contudo, esta dicotomia é falsa e a resposta tem um pouco da primeira e um pouco da segunda alternativas.

Uma boa estratégia para avaliar a retórica de Trump é comparar os seus discursos com os dos seus predecessores e, em particular, com os do seu predecessor: Barack Obama.  A comparação parece impossível: enquanto o discurso de Trump é simplista e pobre do ponto de vista retórico, o discurso de Obama é argumentativamente denso, caracterizado por uma complexidade muito maior, quer do ponto de vista da escolha das palavras, quer do ponto de vista da construção lógico-argumentativa. contudo, quem compare os discursos dos dois presidentes, não pode deixar de encontrar algumas interessantes analogias. Uma análise dos dois discursos de tomada de posse (o de Trump e o primeiro de Obama), por exemplo, revelam, do ponto de vista do conteúdo, uma retórica bastante similar, baseada na autorrepresentação, no carácter do orador como outsider, como pessoa, em poucas palavras, que não pertence à elite de Washington. Obviamente, todos sabemos que o professor da Ivy League, Barack Obama, e o empresário  e multimilionário Donald Trump, não são outsiders em sentido próprio. Mas este é um caso típico de construção do ethos (carácter) do orador, estrategicamente fundamental para construir a credibilidade perante os ouvintes/eleitores.  Mas há outros elementos que permitem detetar analogias. Num interessante estudo, disponível em theconversation.com («Trump and Obama have one surprising thing in common – the words they use»), Ronald R. Krebs e Robert Ralston analisaram os discursos dos dois presidentes a partir da frequência de algumas palavras chave. O resultado é que Trump e Obama parecem ter alguns aspetos em comum. A frequência dos pronomes “I” e “me” e dos verbos “must” e “need” revela uma retórica autorreferencial e da pertinácia (ou voluntarista, baseada na primazia da vontade individual) que diferencia Obama e Trump de todos os outros predecessores. A retórica dos dois presidentes, por outras palavras, parece baseada na construção, embora com estilos diferentes, da imagem de um líder forte. Finalmente, a eficácia persuasiva é ligada às características dos media: na época das redes sociais, a mensagem tem de ser reduzida a um tweet.

Giovanni damele Professor Auxiliar convidado, Filosofia Social e Política, Universidade Nova de Lisboa

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