O super-herói

Foi-me amavelmente pedido um artigo de opinião sobre a temática da liderança, mas depois de ter falado ou escrito sobre o tema noutras oportunidades, desta vez não me saía nada senão “clichês”, como dizer que um líder é um chefe, mas um chefe não é forçosamente um líder. A afirmação é verdadeira, tem sentido, mas tal como em quase todas as situações onde se fala de liderança, apenas pensamos no plano profissional.

Lembrei-me então de um menino que vi este verão numa praia. Ele estava com calções, t-shirt e boné do Batman. Chamou-me a atenção pois enquanto eu estava ao telefone a resolver assuntos do escritório, reparei que ele corria para abraçar o pai. O pequeno super-herói estava agarrado ao seu grande super-herói.

Em certas fases da nossa vida somos os super-heróis dos nossos filhos, tudo aquilo que fazemos ou dizemos é fundamental para o seu crescimento. Somos os líderes por inerência da formação de ideias da geração que trouxemos ao mundo. Somos líderes idolatrados e isso é uma enorme responsabilidade.

Também no plano profissional isto se passa. Em alguma altura do nosso percurso tivemos ou temos líderes que olhamos quase como super-heróis, aquelas pessoas onde bebemos muito do que dizem, apreendemos os seus ensinamentos, a sua sabedoria e a sua forma de estar. Ouvimos e vemos quase como se fossem palavras e atos sagrados, interiorizando, fazendo-nos crescer e moldando o nosso caráter, isto se o exemplo a seguir for positivo. A vida tem ciclos, e um dia seremos nós o exemplo para outros, seja um colaborador ou colega que nos admira ou um filho que nos idolatra.

A minha filha mais velha, ainda no ensino primário, entre dizer que quer ser cantora ou atriz ou cabeleireira – enfim, o habitual da idade –, disse já várias vezes que queria ser diretora das Hospedeiras de Portugal. Isto porque a perceção de uma criança é querer ser igual ao pai ou à mãe e também porque: “oh pai, tu és o chefe e as pessoas fazem o que mandas”. Lá tive de explicar que as coisas não funcionam assim, pois o que vê na televisão do “chefe manda e os empregados obedecem”, está bem longe daquilo que hoje acontece. Quem ocupa cargos de liderança, tem de servir mais de âncora do que de mandão. Penso que ela ainda tem muito tempo de perceber isso, pelo menos farei o possível para tal.

Os filhos não têm de fazer o mesmo que os pais, em muitos caso é até desaconselhável. Mais importante do que transmitirmos conhecimentos técnicos e incentivar a irem para determinado caminho profissional é passarmos valores transversais a todos os trajetos que decidam tomar.

Tudo isto leva a concluir que um líder não é apenas uma pessoa que comanda e influencia os projetos atuais, mas sim molda e forma carateres de todos os que consigo interagem, seja profissional, seja pessoalmente.

Estaremos nós preparados para ser um exemplo? Agimos como tal? Lideramos com objetivos de curto prazo ou também a pensar naqueles que influenciamos? Eu gosto de pensar que sim.

Por: Nuno Ramalho, diretor-geral do grupo Hospedeiras de Portugal

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