O respeito pela diversidade tornou-se um assunto trivial?

O respeito pela diversidade ter-se-á tornado trivial? A resposta é paradoxal. Sim e não. Por um lado, a diversidade tornou-se uma daquelas verdades dogmáticas que ninguém coloca em causa. Somos todos a favor da diversidade, como também do trabalho em equipa ou da criatividade. O respeito pela diversidade é fundamental em qualquer sociedade que se queira aberta e faz sentido para enriquecer culturas e decisões. Tudo certo.

Mas a diversidade não é um assunto trivial nem de perto nem de longe. Dois livros recentes ajudam a compreender porquê. Um desses livros foi escrito pelo historiador Walter Scheidel e chama-se A violência e a história da desigualdade (Edições 70). Mostra que as sociedades humanas têm dificuldade em, voluntariamente, evitarem as desigualdades sociais significativas. O resultado é que a igualdade é frequentemente obra de processos não-humanos como cataclismos e epidemias ou de processos humanos indesejáveis como as guerras.

As desigualdades, por seu turno, geram divisões simples, dualistas. Nós contra eles. Eles – sejam “eles” quem forem – são aqueles a quem atribuímos a responsabilidade pela nossa condição desfavorável. Um “Outro” é sempre fácil de descobrir. O resultado dessa busca de um rival culmina em processos de exclusão, dos quais brotam sonhos totalitários, como o fascismo, os quais se propõem disciplinar ou mesmo remover o adversário. Madelene Albright explicou o processo em Fascismo: Um alerta (Clube do Autor), relato da sua experiência pessoal.

Os dois livros ajudam a perceber que a diversidade tomada como coisa superficial não é um problema; tratada como dogma pelo politicamente correto suscita concordância fácil. Nas profundezas, as coisas são mais complexas. O respeito genuíno pela diversidade requer maturidade institucional (para que a diferença e as minorias que muitas vezes a transportam sejam genuinamente protegidas), regras coletivas amplamente partilhadas (para que a diversidade respeite os fundamentos do sistema) e a noção de que tudo o que contribui para o debate do “nós contra eles” constitui a via aberta para transformar diferenças e desigualdades legítimas em focos de ressentimento e de exclusão, a marca central da má liderança.

Como tal, o direito à diversidade importa, não é trivial e deve ser defendido. Sobretudo, sublinhemo-lo, o direito de discordar quando todos concordam – ou fingem concordar.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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