O que pensam os portugueses sobre ética no trabalho

Os trabalhadores portugueses consideram as suas empresas mais honestas do que a média dos trabalhadores europeus, mas sentiram-se mais pressionados para comprometer a ética, observaram mais más condutas e reportaram-nas menos. São resultados do estudo europeu Ethics at Work: 2018 survey of employees, que inclui, este ano, pela primeira vez, Portugal, através de uma parceria entre o Instituto of Business Ethics e a Católica Porto Business School.

O estudo permite conhecer a perceção dos trabalhadores portugueses sobre a ética no trabalho e compará-la, nos diferentes aspetos, com a média dos trabalhadores europeus. Revela que Portugal é um dos países onde os trabalhadores consideram as suas empresas mais honestas – 85% afirmam que a honestidade é praticada, pelo menos frequentemente, nas suas empresas – mas está acima da média quanto ao conhecimento de condutas, de colegas ou empregadores, que tivessem violado a lei ou as normas éticas da sua organização (35% vs. 30%).

E quais foram essas violações? As mais comuns, tanto em Portugal como nos outros sete países, dizem respeitos a relacionamento interpessoal, designadamente, “pessoas tratadas de forma inadequada” e “abuso de poder”. “Roubos” e “fraude”, condutas passíveis de ser combatidas através de procedimentos, foram menos observadas.

A confiança para se falar sem receios é fundamental para promover e reforçar uma cultura organizacional ética. Em Portugal, metade (49%) dos trabalhadores afirmam que o fizeram. Os que não falaram apontam como principal razão “não acreditarem na implementação de ações corretivas”, seguida de “sentirem que era algo que não me dizia respeito”. O medo de perder o posto de trabalho surge como terceira razão, o que pode indiciar medo de retaliação.

O estudo revela, também, que apenas metade dos trabalhadores acredita que a sua organização “pune os que violam as normas éticas da organização”, aspeto de melhoria fundamental para reforçar a confiança no sistema de gestão de reclamações.

Quanto a pressões para comprometer a ética, os resultados de Portugal confirmam que, também aqui, existem estas pressões e num valor acima da média dos trabalhadores europeus (22% vs. 16%). E que pressões são essas? Em Portugal, falta de tempo e de recursos aparecem nos dois primeiros lugares na lista, seguido de ordens da chefia.

Quanto ao papel das chefias, crucial na promoção da ética, Portugal está alinhado com a média europeia: um em cada dois trabalhadores tem uma perceção positiva sobre a sua chefia, apesar de um em cada três acreditar que a sua chefia direta “recompensa os que obtêm bons resultados, mesmo que usem práticas eticamente questionáveis”.

E as chefias, qual a sua perceção relativamente à ética dos negócios? Um terço afirma que as “irregularidades menores são inevitáveis numa organização moderna” e uma em cada dez considera aceitável “aumentar artificialmente os lucros nos registos desde que não haja roubo de dinheiro”.

Esta permissividade das chefias poderá estar relacionada com a pressão a que estão sujeitas (quer acima quer abaixo) que as pode encorajar a “ir por atalhos” para alcançar resultados. Para mudar esta situação talvez seja importante garantir que as chefias e os colaboradores, sejam adequadamente treinados e apoiados na tomada de decisões éticas, mas, também, que a organização crie mecanismos que permitam que se fale regularmente de ética.

Este estudo do IBE é trienal e permite, como referido, comparar a perceção dos trabalhadores portugueses com a da média dos europeus. No entanto, e por se considerar que a visão dos trabalhadores é um indicador-chave do clima ético de qualquer organização, a Católica Porto pretende ir mais longe promovendo a aplicação do questionário nas organizações portuguesas. A análise dos resultados permitirá obter um diagnóstico e apoio à reflexão interna, mas, também, uma comparação com os resultados nacionais e, sobretudo, analisar a evolução interna do clima ético ao longo dos anos.

Por: Helena Gonçalves, diretora do Programa de Ética Empresarial da Católica Porto Business School

Artigos Relacionados: