O que é a bioliderança?

De forma simples e direta, a “bioliderança” é um conceito que traduz a perspetiva evolutiva e natural do fenómeno, encarado como resposta da nossa espécie ao problema da coordenação e partilha de informação para os grupos conseguirem alcançar com sucesso os seus objetivos. Inspira-se no paradigma evolucionista e procura respostas absolutas, tanto para as origens e a sua natureza, como para os aspetos que são compartilhados com outras espécies e aqueles que são um exclusivo nosso. Isto ajuda-nos a compreender e a melhorar as lideranças atuais que segundo alguns estudos falham em mais de 55% dos casos.[1]
Esta perspetiva foi teorizada, primeiro, por Mark Van Vugt[2] e pressupõe que os nossos pensamentos, emoções e ações, são o produto de mecanismos psicológicos evolutivos, herdados ao longo do nosso processo de evolução e que terão permitido que lidássemos eficazmente com as situações e pressões que foram, e continuam a ser, importantes para o sucesso reprodutivo da espécie.[3]
Responde a três questões importantes: 1) porque terá a “Evolução” aceitado a liderança como estratégia válida?; 2) quais são as funções e vantagens da liderança?; 3) como se desenvolveu e diferenciou de forma distinta em diferentes contextos culturais?
Propõe-se que a ação de liderar e a decisão de seguir alguém, são ambas estratégias adaptativas que evoluíram para resolver problemas antigos de coordenação dos nossos antepassados, como movimentarem-se e acederem a novos recursos, coordenarem-se de forma eficaz, protegerem-se ou para resolverem conflitos com outros grupos.
Outro aspeto importante invocado é o de que as modernas estruturas organizacionais, onde hoje a maioria de nós trabalha, são, por vezes, inconsistentes com os mecanismos psicológicos inatos, tanto dos líderes como dos seguidores. Esta inconsistência é, aliás, uma possível explicação para muitos dos problemas na relação entre gestores e subordinados nas empresas e ainda para muitos falhanços nas práticas da coordenação dos grupos humanos, em geral, e na liderança, em particular.[4]
Claro que abunda literatura sobre a liderança, mas a maioria desta carece de um quadro teórico integrador capaz de dar sentido à riqueza da muita e diversificada informação já produzida, porquanto a maioria das aproximações tem-se centrado em explicações aproximadas[5] e raramente consideram as suas fundações.[6]
A bioliderança procura, portanto, uma “fertilização cruzada” entre a psicologia e outras disciplinas, como a antropologia, economia, sociologia, ciência política, neurociência, biologia, zoologia e etologia, as quais[7] também fornecem importantes contributos sobre a liderança. Em resumo, a premissa nuclear da perspetiva evolucionista da bioliderança, é que a sua principal função é a de facilitar a eficácia e o desempenho do grupo através da sua coordenação, incluindo a psicologia dos liderados, normalmente esquecidos nas várias teorias.

[1] Hogan, R., & Kaiser, R. (2005).
[2] Van Vugt, M., & Ahuja, A. (2010). Selected: why some people lead, why others follow, and why it matters. London: Profile Books.
[3] E foi a sua persistência, recorrência e regularidade ao nível micro e macro que, na perspetiva evolucionista, fez emergir a cultura humana.
[4] Cf. Brown, 1991; R. Hogan, Filipa, & Hogan, 1994.
[5] Como, por exemplo, entre outras, o que torna uma pessoa um líder melhor do que outros? Quais as características comuns aos vários líderes?
[6] Exemplo: como é que a liderança promoveu o sucesso da sobrevivência e da reprodução entre os nossos antepassados?
[7] Cf. R. Hogan & Kaiser, 2005; Bennis, 2007; Van Vugt, 2006.

Por: Paulo Finuras, consultor | professor associado no ISG – Business & Economics School | investigador integrado – CIPES. ULHT

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