O paradoxo da sustentabilidade

Nas compras que fazemos no nosso dia-a-dia, a busca pelo autêntico e por produtos e sabores de origem tradicional e natural está cada vez mais presente. No processo de escolha, o consumidor tem atenção a fatores de sustentabilidade com atenção à origem, métodos de produção e cadeia de valor envolvida na produção de cada produto.

Esta mudança nos hábitos de consumo está muito presente na seleção dos alimentos que compramos, no entanto, o mesmo não se tem passado na abertura e adoção de avanços científicos que permitem uma produção mais eficiente e escalável de ingredientes e alimentos, com recurso a processos biotecnológicos e agrícolas.

Todos gostamos de baunilha! É o sabor mais utilizado em todo o mundo, estando em muitos dos alimentos que consumimos, como gelados, bolos, chocolates. Em muitas destas aplicações, o composto usado para dar o sabor a baunilha não provém da planta mas é obtido por síntese química com recurso a processos com elevados custos ambientais. O aumento na preferência pelo ingrediente de origem natural, motivada essencialmente por razões de sustentabilidade ambiental (totalmente válidas), levou a que no ano passado o preço da baunilha natural atinge-se um pico colocando-o a par com a prata. A especulação à volta deste produto natural tem provocado graves problemas sociais, como a origem de cartéis no Madagáscar, principal produtor de baunilha, visando o controlo da produção e colocando o país numa situação que quase lembra a Colômbia dos anos 80 e 90. Sendo este um exemplo paradoxal em que ações que têm por base princípios de sustentabilidade ambiental estão na origem de outros problemas de sustentabilidade.

O medo e a desinformação têm sabotado a discussão sobre a aplicação de avanços científicos, em particular na biologia, com elevado potencial para a criação de produtos e processos de produção biológica mais eficazes e sustentáveis, tanto na vertente ambiental como económica. A biotecnologia, incluindo a edição genética de plantas e a utilização de microrganismos para a produção de ingredientes, têm provas dadas contribuindo para reduzir a pressão da agricultura no ambiente, diminuir emissões de CO2, aumentar o valor nutritivo dos alimentos, entre muitos outros benefícios. A Europa, apesar de ter um papel relevante no desenvolvimento científico deste tipo de técnicas, tem tido uma posição fechada a muitos destes avanços. Um dos exemplos desta posição é a decisão de tratar plantas editadas geneticamente não-transgénicas (sem material genético externo), da mesma forma que organismos geneticamente modificados transgénicos (em que lhes foram acrescentados material genético externo) e impondo o mesmo tipo de regulamentação e classificação sem qualquer fundamento técnico ou científico para tal.

Exige-se, por isso, uma ampla discussão dos benefícios destas tecnologias, com uma avaliação e regulamentação transparente de produtos geneticamente editados e modificados. Mostrando exemplos do seu uso em segurança – em muitos casos desde há várias décadas – e destacando produtos do nosso dia-dia com origem nestes métodos (por exemplo, roupas, em que muito do algodão usado é geneticamente modificado, ou a importação de soja para alimentação animal também geneticamente modificada).

É necessário que esta caminhada seja feita em conjunto, juntando a busca pelo natural com os avanços da ciência e procurando que os produtos que consumimos sejam sustentáveis em todas as suas vertentes, garantindo benefícios económicos, sociais e ambientais.

Por: Simão Soares, CEO e cofundador da SilicoLife

Artigos Relacionados:

Centro de preferências de privacidade

Cookies necessários

Publicamos cookies neste site para analisar o tráfego, memorizar as suas preferências, otimizar a sua experiência e apresentar anúncios.

PHPSESSID, __gads, _ga, _gid, gdpr[allowed_cookies], gdpr[consent_types], wordpress_test_cookie, woocommerce_cart_hash, woocommerce_items_in_cart, _gat_gtag_UA_114875312_1
IDE
__cfduid