O Não e o Sim

Segundo o padre António Vieira e José Saramago, dois autores radicalmente diferentes nas suas visões do mundo, a palavra mais importante de uma língua é NÃO.

O Não rasga o mundo, dilacera consensos, rompe a unanimidade e faz o mundo girar, inovando-o. É o Não que desperta o Novo. A novidade é a continuação do novo por meios mais consensuais. O Novo empurra a porta, espanta e assombra, a novidade continua-o por pequenos caminhos. O mercado económico é feito de múltiplas novidades. Porém, a ciência e a filosofia são feitas do Novo. Estas descobrem, revelando novas facetas do mundo; o mercado, aplica as descobertas, adaptando-as às necessidades sociais e geográficas. É a diferença entre o Novo e a novidade, ambos filhos do Não.

O Não sintetiza revoltas, exige contradição ou negação do estado presente, do que outrora fora novo e é agora mera novidade. Para se afirmar, o Não tem de se libertar das correias mentais, das prisões ideológicas, dos paradigmas científicos passados e mergulhar num mundo novo, até então não aceite ou sequer pensado. O cientista, o pensador, o escritor, o desenhador, o arquiteto, o pintor, autores de um rotundo Não, têm de pensar que o passado, todo o passado, está, não propriamente errado, mas incorreto e que a sua proposta e a sua descoberta são superiores às anteriores. É o momento da agonia, do sofrimento pessoal a que o Não conduz. Habitualmente, a sociedade está preparada para (e até exige) muitas novidades, mas não para o Novo, que é um rotundo murro do Não nas faces do presente. Nunca ninguém assim pensara e o Novo não é de imediato aceite. Os mundos infinitos de Nicolau de Cusa, o heliocentrismo de Copérnico, a física matemática de Galileu, a certeza de não haver certezas de Montaigne e Pascal, o coração como um mero músculo de Harvey, o infinitesimal de Leibniz, a gravidade de Newton, a força motriz a partir do vapor, a comunicação à distância de Marconi, a crença na possibilidade do voo humano de Bartolomeu de Gusmão, as novas harmonias musicais de Mozart, a proveniência do Homem a partir dos hominídeos superiores de Darwin, a redução da essência biológica do Homem ao ADN, a descoberta da pílula anticoncetiva, do circuito integrado (Chip) – enfim, não foram de imediato aceites, soaram inicialmente como estranhas, foram contestadas, as instituições oficiais (Estado, Igreja) opunham-se ou nelas não acreditavam, ridicularizando-as até. Posteriormente, pela força tanto da argumentação como de provas reais, mesmo dos benefícios trazidos para a humanidade, foram aceitando. O pontilhismo de Van Gogh, o perspetivismo e o cubismo de Picasso, o “Cristo amarelo” de Gauguin, os desenhos aparentemente infantis de Miró, as reproduções de Andy Warhol, são de imediato rejeitados, considerados não-arte, ou um simples abastardamento desta.

Na segunda metade do século XX, o mercado aprendeu com o passado e agora é ele próprio que suscita o aparecimento do Novo, mas o que surge amiúde é a novidade. A novidade é um Novo pequenino. Quando o Novo aparece (por exemplo, o computador pessoal em 1980, o telemóvel na década de 90, a Internet nos finais do século) rompe com tudo e cria uma nova realidade no mundo com tal força e tal dimensão que transforma o passado em peças de arqueologia (a máquina de calcular mecânica, o telefone fixo, o telex, o antigo telemóvel que só servia para telefonar…).

Ao contrário do Não, o Sim é a continuação do mesmo e a aceitação do existente, é a passividade, ora mais ativa, ora menos ativa, mas nunca provocadora de ruturas. É, segundo muitos pensadores, a característica predominante dos portugueses. O Sim é a imitação, o mimetismo, a capacidade de tornar nosso o que foi criado por outros, por vezes com algum furor de novidade.

Ao longo da História, quem diz Não tem de ser possuído por um espírito de luta, de conquista, por vezes até de batalha, de guerra. O Não de D. Afonso Henriques ao domínio dos nobres galegos fê-lo romper com a família e com amizades e subserviências ao seu pai, o Não de São Paulo a Roma tornou-o um mártir e o grande apóstolo do Cristianismo, o Não de Lutero ao papado romano libertou a força económica e social do Norte da Europa. Todos estes Nãos geraram sangue popular, criaram países e nações e redesenharam o mapa da Europa.

Em Portugal, ao longo do Estado Novo (1933 – 1974), o Sim dominou e quem afirmava o Não era excluído dos serviços públicos e, muitas vezes, acabava preso. O 25 de Abril de 1974 terá sido o maior Não da nossa história recente: uns meros capitães dizem Não a uma guerra de 13 anos e a um Estado totalitário, instaurando a democracia, o regime político que privilegia o Não (direito de associação, de reunião, liberdade de imprensa…), findando com um Império de 500 anos.

Curiosamente, o promontório que desafiou o Infante D. Henrique na primeira metade do século XV era designado por Cabo Não, um cabo que, segundo a tradição clássica, não podia ser ultrapassado, para além do qual o mar se tornaria tenebroso, repleto de água fervente e habitado por monstros. O Infante não desistiu, enviando os seus escudeiros sempre mais longe, ultrapassando o Cabo Não, depois o cabo Bojador e, após a sua morte, o Cabo das Tormentas. Aqui, recusar o Cabo Não significa recusar o que a tradição considerava impossível, abrindo-se novas vias geográficas e mentais à humanidade. Este Não (negativo) que o Infante derrubou, não é o Não (positivo) de padre António Vieira ou José Saramago. É o Não do dogmatismo, da proibição, do interdito. O Não do tabu, o Não imposto pelo Estado, pela Igreja ou pela Tradição. É um Não que tem de ser vencido e derrubado para que o Novo aconteça e o mundo e a humanidade avancem. Não raro, o que antes fora um Não incisivo, derrubador de muros, torna-se um Não dogmático, totalitário – assim é a natureza das revoluções políticas, destroem regimes para se tornarem em regimes mais violentos ou totalitários que os derrubados.

Por: Miguel Real, escritor e ensaísta

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