O movimento no pensamento antigo

Quando falamos de velocidade, o tema da nossa cimeira deste ano, estamos a pensar num movimento que se faz de forma acelerada com efeitos exponenciais. Quisemos que os nossos líderes refletissem sobre isso mesmo: movimento, aceleração, exponenciação.
Não podemos voltar atrás, mas podemos tentar retomar a ideia de movimento no pensamento antigo e perceber quando, em que momento da nossa história, começámos a preocupar-nos com esta reflexão. Deixo aqui duas notas que ajudam à compreensão da ideia de movimento:

Okeanos e Tétis
Nos primórdios do pensamento, onde o que imperava era uma visão ingénua do mundo, o alcance das interpretações que dele se faziam coincidia com o alcance do que era visível, o recurso ao empirismo era fonte de sabedoria máxima. A terra e o rio que a banhava (Okeanos) eram de uma permanência e estabilidade indubitáveis. Contudo, Platão acaba por reconhecer que Homero, quando se refere ao dito Okeanos como progenitor dos deuses e mãe de Tétis (a terra plana com possibilidade de infinitude se em profundidade caminhássemos), acabou por pôr em evidência que a origem de todas as coisas resulta do fluxo e do movimento. Homero foi mais levado a sério nesta sua conceção do mundo por Aristóteles do que por Platão. Efetivamente, Okeanos e Tétis são as figuras representativas da cosmogonia primitiva que tinha já subjacente a ideia de movimento.

Fluxo e movimento
A ideia de movimento e de fluxo é atribuída a Heraclito de Éfeso. A tensão entre contrários é repetidamente invocada nos seus, denominados obscuros, fragmentos, como, por exemplo: “a água do mar é a mais pura e a mais poluída; para os peixes é potável e salutar, mas para os homens é impotável e deletéria”. Esta contradição é geradora de um fluxo tensional que equilibra e sustenta, e que gera unidade. Em Heraclito, esta ideia de movimento é facilmente apreensível através da imagem metafórica do rio que na sua unidade depende da conservação da medida e do equilíbrio da mudança. O equilíbrio constituinte de todas as coisas tem o seu logos, a sua origem, neste movimento que resulta das mudanças naturais de todas as coisas. Para Heraclito, a sabedoria consistia em compreender o modo como o mundo funcionava e, nessa busca de compreensão, este avanço foi determinante para o pensamento filosófico que se lhe seguiu.

Desde este momento histórico da história do pensamento, e apesar de já entendermos como ocorrem as mudanças e o que significa o movimento, continuamos a espantar-nos com a sua velocidade e com a incomensurabilidade dos seus efeitos, que talvez um dia não consigamos racionalmente aprender. Talvez a tecnologia nos ajude, seria uma enorme alegria, ou então seremos nós com as nossas super mentes digitais que alcançaremos essa capacidade. O futuro é incrivelmente aliciante.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial

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