O mercado da confiança

O que é que as fintechs têm a ver com deepfake news e ambas com inteligência artificial? E o que é que tudo isto tem a ver com o digital bulling com que alguns dos nossos filhos têm, infelizmente, de lidar?

Confusos? Vou tentar ajudar. Todos estes tópicos estão ligados pelo sistema nervoso do mundo digital. Não, não estou a falar do 5G nem do IOT nem do blockchain. Esses são os elementos de infraestrutura das plataformas digitais. Estou a falar da confiança! Da confiança que depositamos numa transação financeira online, numa troca de mensagens numa rede social ou num upload de fotos numa cloud.

A confiança sempre foi a base da construção das teias sociais por onde se desenvolveu a humanidade. Tal como os influenciadores, que sempre tiveram um lugar importante logo após o surgimento das primeiras comunidades de seres humanos. Nada de novo aí. O que é novo é que o mundo digital traz dois elementos disruptivos no jogo da confiança. Em primeiro lugar, despersonaliza a relação de confiança. Em segundo lugar, e esse é um dos efeitos mais marcantes do poder tecnológico, traz para o jogo instrumentos que aumentam dramaticamente o desequilíbrio de meios entre influenciadores e influenciados.

Num mundo já tão marcado por casos como o Cambridge Analytics e onde, por exemplo, no último ano duplicou o número de deepfake news videos difundidos nas redes sociais (1), a única arma contra o abuso de confiança online tem sido… a desconfiança! Ou melhor, alguma desconfiança das gerações que ainda não nasceram num mundo digital e que procuram ainda a razão mais profunda das coisas.

Mas será que os perigos do abuso de confiança do mundo digital se resolvem limitando ou regulando a tecnologia? Na minha opinião, isso equivaleria a ter proibido ou censurado a imprensa escrita depois da invenção atribuída a Gutenberg no século XV. E todos sabemos o resultado das tentativas desta natureza que foram feitas ao longo da história… Naturalmente que a regulação é importante, mas para a sociedade, não para a tecnologia.

Como se desenvolve então esta consciência digital, este modelo de cidadania responsável, numa sociedade em processo acelerado de transformação? A meu ver, a resposta está no instrumento de sempre, o mais nobre e o de maior alcance: a educação! Lato sensu, a educação não só no que respeita à literacia digital, mas também no reforço da discussão em torno dos valores, da ética e da inteligência moral. E de como tudo isso se articula num mundo que já é digital.

E, claro, a conversa complica-se quando nos questionamos sobre quem recai a responsabilidade de “acertar o passo” da educação com a transformação digital. Sem mais espaço neste artigo deixo um mote: cada líder, na sua esfera de influência, pode e deve ter um papel relevante neste processo. Sobretudo os líderes da economia digital.

(1) Segundo o estudo da empresa Deeptrace, publicado pela BBC em outubro de 2019, o número de deepfake news videos disponíveis online duplicou no último ano (de 7964 em outubro de 2018 para 14 698 em outubro de 2019, sendo 96% destes com conteúdos de adultos).

Por: Pedro Faustino, diretor executivo da Axians Portugal

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