O líder que há em nós

Uma das primeiras coisas que impressiona o personagem principal do Norwegian Wood, de Haruki Murakami, quando chega à universidade em Tóquio é a variedade de sonhos e objetivos que a vida pode oferecer. Na vida real, todos os sábados, os alunos de MBA do International Institute for Management Development, em Lausanne, têm uma sessão com um psicoterapeuta para os descobrirem. Isto porque a escola considera que a terapia ajuda a que os estudantes se tornem líderes melhores. Nas sessões é mostrada uma fotografia de um iceberg, parte flutuante e parte submersa, para exemplificar a grande quantidade de coisas que estão para lá do que vemos conscientemente. O Programa de Desenvolvimento Pessoal, assim se chama, foi idealizado por um ex-militar da Força Aérea que, enquanto ensinava liderança, frequentava o Instituto (Carl Gustav) Jung. Segundo ele, as empresas procuram qualificações, mas, em muitos contextos, as nossas ações refletem o sistema em que trabalhamos. Decidiu, por isso, desenvolver um programa com as duas escolas.

A liderança costumava ser ensinada por guias de montanha cuja abordagem era “seguir o caminho, o líder é o que vai à frente” e a escola queria que a liderança fosse ensinada por “pessoas com discernimento psicológico, capazes de ler a agenda que estava em cima e debaixo da mesa, e perguntar aos alunos sobre seus sentimentos”. As sessões foram concebidas como uma pausa no ritmo acelerado do MBA, para tirar os alunos da bolha do pensamento orientado para resultados e mais uniformizado do master. Querem que ganhem perspetiva, que pensem no relacionamento com os outros, ganhem consciência do inconsciente; falar dos seus sonhos e prioridades; ter boas discussões sobre o que fazer a seguir, como equilibrar família e trabalho, como lidar com o facto de ambos os membros do casal terem carreiras ou decidir sobre um bom emprego num local pouco atrativo. Lidar com tudo o que apareça.

O companheiro de quarto de Toru Watanabe, do livro de Haruki Murakami, gostava de mapas e depois do curso queria trabalhar no Instituto de Pesquisa Geográfica e desenhar mapas. A ideia de que a sociedade precisasse de algumas pessoas que estivessem interessadas e fossem até apaixonadas por desenhar mapas atingiu-o como um raio. E, no entanto, tinha um à sua frente.

Ao ajudar a que cada um se individualize, as sessões abrem a porta a que cada um reflita mais claramente sobre o seu estilo de gestão e tendências comportamentais e a que ganhe consciência que há maneiras diferentes de fazer as coisas e que a cultura afeta o estilo de liderança. Por melhor que se seja profissionalmente, todos temos ideias preconcebidas e experiências pessoais. Não sendo terapia clássica, ninguém está deitado num divã a falar de um problema específico, é um uso interessante da terapia. Concorre com as habilitações académicas para potenciar lideranças mais completas e mais eficazes.

Por: Sandra Clemente, jurista

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