O lado escuro da garra

Uma coisa boa pode redundar numa coisa má! Se dúvidas houvesse, bastaria refletir sobre a “virtude” da determinação – popularmente designada por “fibra” ou “garra”. A garra ajuda-nos a desenvolver esforços intensos e continuados em prol de objetivos ambiciosos. Capacita-nos para enfrentar adversidades e obstáculos. Permite-nos levantarmo-nos após as quedas. É um energizador importante dos empreendedores e dos líderes. Todavia, se for desacompanhada de virtudes como a humildade e a honestidade, pode transformar o(a) líder numa força perigosíssima. Impede-o(a) de escutar devidamente os alertas para perigos. Condu-lo(a) a desvalorizar riscos. Leva-o(a) a persistir em estratégias nas quais acredita piamente – mesmo que todos os sinais apontem para a sua insustentabilidade. Pode conduzi-lo(a) à prossecução tenaz de finalidades desonestas.

O que ocorreu com Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, é elucidativo. Em 2003, escreveu num tweet: “Sonho algum é irrealizável. Não permita que alguém lhe diga o contrário”. Dotada de tamanha garra, e apenas com 19 anos, abandonou a Universidade de Stanford para fundar a Theranos. A promessa, enormemente atraente para quem tem de ser submetido a análises sanguíneas, era simples: realizar dezenas de análises com base numa única gota de sangue. Alegadamente, a tecnologia proprietária era sólida e permitia democratizar a medicina e empoderar os doentes. Holmes conseguiu financiamentos milionários. Determinada, bem-sucedida, com imagem e voz cuidadas, bem-relacionada e multimilionária, foi objeto de ampla atenção mediática. Foi considerada a “próxima Steve Jobs”, encómio que aliás se ajustava à sua tendência para imitar Jobs, designadamente na indumentária. Em 2014, a sua riqueza foi avaliada em 4,5 mil milhões de dólares.

Em 2015, a FDA (agência federal norte-americana responsável pela proteção e promoção da saúde pública) começou a investigar a empresa. Foram encontradas várias inexatidões nos testes realizados a pacientes. No mesmo ano, John Carreyrou, jornalista do Wall Street Journal, publicou os resultados da sua própria investigação. Observou que Edison, o equipamento de testes sanguíneos da empresa, não produzia resultados rigorosos – e a Theranos recorria a equipamentos tradicionais usados por outras empresas.

Em setembro de 2018, a empresa encerrou. Mas a determinação de Holmes, acusada de fraude, não terá fechado portas. Em 08 de junho de 2018, Nick Bilton escreveu na Vanity Fair: “Acredite ou não, esta não é a coisa mais surpreendente na história de Elizabeth Holmes. De acordo com Carreyrou, Holmes está atualmente a rodopiar em torno de Silicon Valley, reunindo com investidores, esperando recolher financiamento para uma ideia de startup completamente nova (Fiquei de boa aberta quando ouvi isto)”.

A liderança bem-sucedida requer grandes doses de garra. Mas daí não decorre que toda a garra origine sucesso. Para que este seja alcançado, é necessário que o(a) líder seja também humilde para reverter cursos de ação, abandonar projetivos inviáveis, assumir erros, e valorizar os contributos dos outros. Sem honestidade, a garra é colocada ao serviço de finalidades perversas – ou origina práticas questionáveis que fazem perigar a sustentabilidade da organização e a carreira do(a) líder. Eis a lição: quando quiser selecionar ou promover um(a) líder, avalie a sua garra – mas também a honestidade, a curiosidade, a disponibilidade para aprender, e a capacidade de ter os pés na terra.

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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