O crescimento recente da economia portuguesa

No final de setembro, o Instituto Nacional de Estatística fechou o apuramento das Contas Nacionais relativas a 2016 concluindo que a economia portuguesa cresceu, em volume, 1,9% nesse ano, valor que compara favoravelmente com a anterior estimativa provisória (1,6%). Esta revisão em alta determinou ainda que, por efeito da subida do nível do produto nesse ano, também a estimativa provisória para o crescimento do PIB em 2017 fosse revista em alta, assim como o crescimento estimado para os dois primeiros trimestres do corrente.

Estas revisões tiveram impacto em termos da evolução comparada do crescimento da economia portuguesa, nomeadamente pelo facto de este ter igualado o crescimento da Zona Euro em 2016, pondo fim a uma sucessão de anos de divergência. Já em 2017, a taxa de crescimento, com o valor provisório de 2,8%, superou em 0,4% a da Zona Euro e constitui um máximo nacional desde 2000.

A aceleração do crescimento em 2017, depois da recuperação do crescimento do Consumo Privado desde 2014, teve por base o Investimento que cresceu 9,2% em 2017. Igualmente positivo foi o facto de o contributo da Procura Externa Líquida (PEL) ter sido apenas ligeiramente negativo, repetindo o sucedido em 2016. Quer isto dizer que, apesar das Importações, sobretudo de bens, terem recomeçado a crescer com o crescimento da Procura Interna, o crescimento das Exportações, quer de bens quer de serviços (onde se destaca o turismo), tem permitido cobrir o crescimento das Importações. Ainda a destacar, o saldo externo anual em preços correntes tem sido positivo desde 2013, algo incomum na história da economia portuguesa.

Mas, sem margem para grandes dúvidas, o crescimento de 2018, em que se irá finalmente ultrapassar o anterior máximo histórico do PIB real (2008), será inferior ao de 2017. Olhando para a informação provisória relativa ao primeiro semestre, em que o crescimento foi de 2,3%, vemos como razão principal para esta desaceleração do crescimento global a desaceleração do crescimento do Investimento, que está a ser apenas cerca de metade do registado em 2017. Nas restantes componentes da Procura Interna as diferenças são menores, com o Consumo Privado e Consumo Publico a cresceram ligeiramente mais e o contributo da PEL, em volume, a ser um pouco mais negativo.

Não se afigura previsível a inversão, para já, desta tendência para o crescimento da economia portuguesa desacelerar ou estabilizar em 2018 e nos anos seguintes. De facto, é necessário ter presente que, em geral, o crescimento da economia portuguesa não depende só de fatores internos. E o crescimento de 2017 não deixou de beneficiar com a maior expansão da Zona Euro nesse ano. O que permitiu a Portugal, por estar a sair da crise financeira, crescer acima da média dessa zona económica, ainda que abaixo de alguns dos seus membros. Mas o crescimento da Zona Euro, que teve um pico no segundo semestre de 2017 (2,8%), desacelerou acima do previsto no início de 2018 (para 2,3%), principalmente por razões ligadas à incerteza e às tensões no comércio internacional. E apesar do nível de crescimento atual, ligeiramente acima de 2%, ainda ser considerado, em termos europeus, relativamente robusto, ele tende a reduzir-se lentamente. Disso dão conta as sucessivas revisões em baixa das previsões para o crescimento da Zona Euro ao logo deste ano.

Assim, não é de esperar que a economia portuguesa possa acelerar e, no presente, os principais indicadores, tal como se pode ver no “Indicador Coincidente IZ” compilado no ISEG, apontam nesse sentido. Ainda assim, parece possível esperar que, apesar das limitações que deverão continuar a existir em termos de crescimento da despesa pública, na ausência de um arrefecimento mais brusco no crescimento europeu e mundial, o crescimento da economia portuguesa se possa sustentar, por razões internas e pelas suas relações extracomunitárias, e superar, pelo menos de forma ligeira, o crescimento da Zona Euro.

Por: António Ascensão Costa, Grupo de Análise Económica/Síntese de Conjuntura do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão

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