O corpo-cyborg

Na segunda metade do século XX, devido ao avanço tecnológico e informático aplicado às ciências médicas, à bioquímica e à genética, o corpo “natural” fragmentou-se, estilhaçou-se, teorizado e analisado, não enquanto unidade biológica, a não ser nas práticas de medicinas alternativas, designadas justamente por holísticas (o “todo”), mas enquanto parte mínima evoluindo por si, atomística ou molecularmente. Fragmentada, pulverizada, registada (fotografada a três dimensões) ao pormenor através de instrumentos médicos de quantificação e gráficos de imagens a três dimensões, a representação do corpo “fatiou-se” médica e cientificamente.

O corpo tornou-se, assim, uma entidade físico-biológica-informática passiva, fragmentária, recetora de instrumentos de aperfeiçoamento (purificação) técnico (fitness, wellness, de terapias new age, fisioterapias médicas, purificações orientais, cirurgias plásticas…) e de próteses de otimização (transplantes, implantes, xenotransplantes, clonagem de órgãos, correção e cura de órgãos por células estaminais, transplantes de órgãos sintéticos, artificiais – corpo-cyborg), substituindo a sua antiga vinculação à natureza por uma vinculação substancial (já que definidora e classificadora) à técnica e à tecnologia. Corpo-cyborg, isto é, um corpo tecnológico, sem rosto, sem género, sem natureza permanente. Como a cultura e a sociedade, o novo “meio ambiente” do corpo, reside no envolvimento tecnológico, também o corpo é tecnológico, disponível para nele se aplicar instrumentos médicos artificiais (medicamentos, órgãos artificiais, implantes, transplantações, próteses, cirurgias plásticas de aperfeiçoamento…). Assim, a contemporaneidade tecnológica do século XXI eleva à mais alta expressão, realizando-o, o sonho da representação moderna do corpo como uma máquina, ora uma máquina bioeletrónica e informática. Máquina não no sentido moderno, máquina de mecânico, de relação física causa-efeito, mas no âmbito contemporâneo: máquina eletrónica e informática (cf. “Carmat”, o coração artificial criado pelo cientista Alain Carpentier e implantado pela primeira vez em 18 de dezembro de 2013 num doente do Hospital Georges Pompidou, de Paris).

Do ponto de vista da materialidade, a “carne” é, assim, hoje (enquanto não se descobrir um seu substituto bioquímico), a substância última a que empiricamente se reduz o corpo, o elemento plástico moldável (como o barro para o oleiro ou a plasticina para a criança) que subjaz (como substância e sujeito), enquanto representação vazia, nadificante, adaptável, segundo as circunstâncias, a todas as invasões médicas tecnológicas (implantes, transplantes, próteses), isto é, a todos os produtos tecnológicos e todas as manipulações sociais e ideológicas. A atual aceitação generalizada pelos povos da civilização ocidental do processo de incineração do cadáver obedece a esta visão socialmente genérica da nulificação do corpo como mera carne, do esvaziamento das suas antigas características individuais e substanciais.

O futuro androide consistirá na revitalização bioinformática da “carne”, e, como corpo artificial, um simulacro ou avatar de um corpo natural construído pela ora inicial civilização tecnocientífica.

Assim, não é impossível que a breve trecho (o tempo civilizacionalmente acelerado de um século) seja factível a transposição informática do conteúdo mental de um cérebro para um novo cérebro computadorizado, e o corpo-carne, sustento da consciência e, portanto, da relação biográfica, cultural e cognitiva com o mundo, sendo hoje um nada, mero suporte protésico invasivo, se torne definitivamente um nada, desaparecendo da natureza humana, substituído por um corpo tecnológico.

Em seu lugar, emergirão os corpos-cyborg e os androides, simulacros do corpo ou corpos tecnológicos, concorrenciais com os corpos humanos.

Por: Miguel Real, escritor e ensaísta

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