Missões em Terra para liderar no Espaço

Carmel Johnston, commander HI-SEAS IV, é uma jovem cientista da NASA que durante um ano viveu, a par com a sua equipa, num ambiente de simulação do planeta Marte. Os colegas descrevem-na como uma pessoa calma, que facilmente se consegue dar bem com toda a gente. Destacam, ainda, a sua facilidade em liderar, o seu foco nas soluções ao invés dos problemas e o facto de ser uma pessoa que rapidamente passa à ação. A revista Líder foi saber quais os principais desafios e conclusões desta missão especial.

Entrevista: Madalena Ferreira

Líder (L): Quais foram as maiores dificuldades que sentiu ao viver praticamente em completo isolamento do resto do mundo durante um ano?

Carmel Johnston (CJ): Uma das partes mais difíceis de viver em isolamento é manter o contacto com familiares e amigos. O e-mail era a nossa única forma de comunicar e havia um desfasamento de 20 minutos em cada sentido (desfasamento de tempo entre Marte e a Terra). Isto torna as conversas muito difíceis. Não se pode transmitir o tom, apenas palavras dentro de frases. Perdemos muitos pedaços de uma conversa (linguagem corporal, tom, inflexão, volume e reações) a partir do momento em que nos separamos da comunicação cara a cara.

L: De que sentiu mais falta?

CJ: Claro que senti falta da minha família e amigos, da natureza, do caos e da aleatoriedade das coisas que encontramos durante um dia, dos cheiros, dos vegetais crocantes e dos sons da natureza. E de muitas outras coisas, certamente, mas estas são as que me vêm à mente mais de um ano depois.

L: Que descobertas considera mais importantes nesta experiência?

CJ: Aprendemos tantas coisas, mas o mais importante para mim são aquelas sobre a dinâmica interpessoal das tripulações. Somos seis pessoas únicas, mas temos semelhanças com pessoas de todo o mundo, em especial com as pessoas que querem ser astronautas. Selecionar uma equipa para ir a Marte é uma tarefa complexa e exigente, implica muitos anos de treino e eliminação de candidatos. Mas sei que acrescentámos alguns aspetos a ter em conta a esse processo de seleção.

L: Acredita realmente que é possível os humanos “colonizarem” Marte?

CJ: Acredito que é possível os humanos colonizarem Marte. As minhas reservas prendem-se com a exploração de Marte sem destruir a superfície ou esgotar os recursos. Como abordar a instalação das colónias em Marte será um diálogo muito interessante entre vários países, contextos políticos e indivíduos.

L: Quais serão os principais obstáculos a enfrentar nesse processo de colonização?

CJ: Há muitos obstáculos à medida que nos aproximamos da possibilidade de nos estabelecermos em Marte. Alguns dos obstáculos envolvem a tecnologia, o tempo e o dinheiro envolvidos para fazer uma viagem bem-sucedida, enquanto outros envolvem o aspeto humano.

L: O que tira desta experiência para o resto da sua vida aqui no planeta Terra?

CJ: Eu aprendi muito durante o nosso ano na simulação, mas acho que as lições mais importantes reafirmaram algumas das minhas principais convicções, que assumi ainda antes da missão: o dever de preservar a Terra, a educação e a divulgação para tornar a ciência disponível a todos, e ser um bom ser humano.

L: É difícil (ou mais difícil) ser uma mulher neste campo ou não se apercebe de qualquer discriminação de género?

CJ: Penso que esta área é difícil para qualquer pessoa, não apenas para as mulheres. Estamos a tentar argumentar a favor da exploração de um lugar que mata ativamente qualquer pessoa que ponha os pés sobre o solo. Essa não é uma tarefa fácil, para um homem ou uma mulher.

L: A convivência entre os membros foi pacífica? Quais são os maiores desafios em viver 366 dias com as mesmas cinco pessoas?

CJ: Todos os grupos de seis pessoas encontrarão as suas batalhas, a equipa de investigação sabia disso antes de nos selecionar. Eles estavam mais interessados em ver como resolvíamos problemas, como avançávamos e mantínhamos a produtividade em situações de desacordo.

L: Quais eram as suas atividades do dia-a-dia?

CJ: Os nossos dias eram preenchidos com uma variedade de tarefas de investigação, investigação pessoal, correspondência, cozinha, limpeza, exercício físico e tempo livre.

L: Qual foi o propósito desta missão e quais foram as principais conclusões?

CJ: O propósito das missões do HI-SEAS é estudar os aspetos sociais e psicológicos do isolamento e confinamento, com o objetivo de enviar seres humanos a Marte. Queremos descobrir o que motiva as pessoas, como trabalham com desentendimentos e como mantêm um alto nível de produtividade num lugar onde o que as rodeia nunca muda, as pessoas são as mesmas e as tarefas são rotineiras.

L: Até onde nos pode levar a tecnologia? Até Marte? Ou é possível ir ainda mais longe?

CJ: Não tenho dúvidas de que um dia enviaremos seres humanos para além de Marte. O horizonte temporal dessa viagem é algo vago na minha mente.

L: A minissérie Marte, do canal National Geographic, tem uma mensagem para as pessoas da Terra: colonizar o Planeta Vermelho não é um sonho. Na verdade, é possível dentro de uma geração. Acredita que isso acontecerá tão cedo?

CJ: Sim, acredito que enviaremos seres humanos a Marte durante a minha vida.

L: Até que ponto a ciência e a tecnologia têm de evoluir para que esse sonho se torne uma realidade?

CJ: Na verdade, já temos a tecnologia para enviar seres humanos até Marte. Fazê-los lá chegar sem gastar muito dinheiro é que é um fator limitativo. E conseguir trazê-los de volta a casa é outra questão inteiramente diferente.

L: Na minissérie há entrevistas com vários cientistas e engenheiros, como Elon Musk, Andy Weir, Robert Zubrin e Neil deGrasse Tyson, sobre as dificuldades que a equipa pode ter de enfrentar durante uma viagem a Marte e durante a vida nesse planeta. A partir de sua perspetiva privilegiada e da sua experiência, quais seriam os principais obstáculos?

CJ: Eu concordo totalmente com os cientistas que foram entrevistados pela National Geographic para a minissérie Marte. Temos muitas coisas a descobrir antes de enviar uma tripulação para Marte com segurança. Pessoalmente, sou mais sensível ao aspeto humano de ter seis pessoas que se entendam durante uma missão que pode durar de três anos a toda a vida.

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