Marcelo Rebelo de Sousa respondeu às grandes questões da “Leadership Summit Portugal 2019”


O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, falou à revista
Líder sobre os grandes temas abordados na cimeira de Liderança deste ano.
Diversidade, ecologia, inteligência artificial vs. inteligência espiritual, ou saber quem está a ficar para trás e como lidar com esta realidade, foram algumas das questões a que o Chefe de Estado respondeu, sempre com o otimismo que lhe é apanágio. Pontos de vista que não deixam, igualmente, de nos levar a repensar o nosso papel neste mundo em mudanças constantes, no qual a responsabilidade de construir e forjar um futuro melhor, mais humano, plural, tolerante e empático, é responsabilidade de todos.

Por: Catarina G. Barosa, diretora editorial
Fotos: Rui Ochôa/Presidência da República

 

 

O respeito pela diversidade está a tornar-se um assunto trivial?

Marcelo Rebelo de Sousa (MRS): O respeito pela diversidade é e será sempre um valor maior da humanidade. O respeito pelo outro, o pluralismo, a tolerância, a empatia e a capacidade de aceitarmos e compreendermos o que é diferente são imprescindíveis a uma convivência pacífica, saudável e enriquecedora entre as pessoas, os povos, os países, as religiões. Por isso não creio que se esteja a tornar ou que possa ser tratado como um assunto trivial. De facto, nunca devemos condescender com a falta de respeito pela diversidade, que não se manifesta apenas por sinais de hostilidade oriundos de uma certa polarização das opiniões expressas nos novos espaços públicos da era digital, pela (re)emergência de forças políticas e sociais com discursos extremados, mas muitas vezes também por um certo alheamento e indiferença na defesa da tolerância.
Por outro lado, a diversidade tem sido ao longo dos tempos um fator que tem contribuído de forma extraordinária para o desenvolvimento cultural, científico e até económico e social das nossas sociedades. Numa era de grande partilha de informação e de mobilidade geográfica é imperioso que o respeito pela diversidade seja cada vez mais valorizado e não trivializado, ou muito menos hostilizado. Como humanista, continuarei sempre na primeira linha do respeito pela diversidade.

“Nunca devemos condescender com a falta de respeito pela diversidade, que não se manifesta apenas por sinais de hostilidade oriundos de uma certa polarização das opiniões expressas nos novos espaços públicos da era digital, pela (re)emergência de forças políticas e sociais com discursos extremados, mas muitas vezes também por um certo alheamento e indiferença na defesa da tolerância”

Irá a inteligência artificial compreender a espiritualidade humana?

MRS: O desenvolvimento da inteligência artificial é um dos acontecimentos mais extraordinários do nosso tempo que já está a colocar enormes desafios e poderá provocar grandes mudanças nas nossas sociedades nos próximos anos.
Esses desafios e essas mudanças compreendem o desenvolvimento científico, a medicina, a forma como se organiza o trabalho e consequentemente as nossas sociedades, enfim, terá influência numa multitude de aspetos das nossas vidas. E, claro, que, como tal, também levanta muitas questões deontológicas e desafios éticos os quais vão exigir grande capacidade de respostas. Mas sou um otimista quanto ao progresso e aos avanços da ciência e acredito que irão contribuir, como têm contribuído ao longo dos séculos, para criar mais bem-estar e qualidade de vida.
Quanto à questão se tal pode compreender a espiritualidade humana, sou levado a pensar que a espiritualidade é um domínio único do fator humano. Repare-se que mesmos aqueles que estudam esta matéria da perspetiva desta área da ciência, como nos explica por exemplo o Professor Arlindo Oliveira, ainda não chegaram a uma reposta cabal à pergunta: poderão as máquinas pensar? Ou seja, poderão as máquinas pensar como os humanos? Acredito que a inteligência humana, que na minha mundividência compreende a espiritualidade, será sempre diferente da inteligência artificial.

É inquestionável que as alterações climáticas nos obrigam a repensar o modelo da economia de mercado e a sociedade de consumo, tal como os conhecemos e vivemos, tantas vezes sem a consciência de que, a este ritmo de gasto e de desperdício, a espécie humana enfrenta um sério risco de extinção”

Poderá o mundo globalizado ser ecologicamente sustentável?

MRS: O mundo, globalizado ou não, tem de ser ecologicamente sustentável. Sob pena de deixar de ser mundo… E de a espécie humana, e todas as outras, desaparecerem da face do planeta.
A globalização pode ser vista por alguns como uma ameaça à sustentabilidade. Não creio. Entendo até, pelo contrário, que a globalização trouxe uma consciência acrescida para os problemas que nos afetam a todos, justamente à escala global. A difusão da informação e a circulação global de pessoas, bens e serviços tornaram mais patente uma realidade de que não estávamos inteira e plenamente conscientes: vivemos num só mundo, para usar as palavras do filósofo e especialista em ética Peter Singer. É a propagação quase instantânea de notícias, proporcionada pela Internet (e teríamos globalização sem Internet, e vice-versa?), que permite que saibamos, em tempo real, que ameaças vão surgindo, como recentemente aconteceu com os incêndios da Amazónia, sobre os quais proferi uma declaração destinada ao Brasil e ao povo brasileiro.
É inquestionável que as alterações climáticas nos obrigam a repensar o modelo da economia de mercado e a sociedade de consumo, tal como os conhecemos e vivemos, tantas vezes sem a consciência de que, a este ritmo de gasto e de desperdício, a espécie humana enfrenta um sério risco de extinção. Não creio, no entanto, que se possa dizer que o capitalismo é, em si mesmo, inimigo do ambiente, tese que, num certo sentido, é sustentada pela ensaísta Naomi Klein no seu mais recente livro, Tudo Pode Mudar. Capitalismo vs. Clima. Mais ainda: se tivéssemos que aguardar por uma remodelação radical do modelo da economia de mercado, rumo a um modelo alternativo cujos contornos desconhecemos, o planeta estaria, aí sim, em grave perigo. As mudanças que há a fazer são urgentes, e não por acaso fala-se de “emergência climática”. São mudanças que não se compadecem com compassos de espera ou pausas para reflexão sobre os fundamentos da economia de mercado ou das democracias liberais e representativas. Assim, é precisamente com as armas do nosso modelo económico, social e político que devemos enfrentar aquele que é, sem margem para dúvidas, o maior desafio global do nosso tempo. Devemos abordá-lo sem alarmismos apocalípticos, mas também sem negacionismos anticientíficos. Com determinação e realismo, com coragem e serenidade, com firmeza sustentada em factos e informação credenciada.
Como é evidente, tudo isto implica uma mudança profunda a nível individual, nos nossos estilos de vida, comportamentos e padrões de consumo, mudança que começa em casa, nas famílias. Mas também implica uma mudança a nível coletivo, exigindo uma nova atitude de todos – das pessoas a título individual, mas também dos governos e dos agentes económicos – em nome do nosso futuro comum. Essa mudança passará, muito provavelmente, por um repensar de alguns vícios do capitalismo e da globalização, que a crise económica de 2008 tornou patentes, mas, insisto, é no quadro do nosso modelo político e económico, é no quadro do Estado social de mercado e da globalização, que devemos atuar – e atuar já, no imediato, pois a questão das alterações climáticas não é um problema de futuro nem se situa a prazo, é uma questão atual, de presente, do aqui e do agora.

“O número de pobres no mundo tem diminuído sem cessar. Em 2018, o Banco Mundial apresentou um relatório em que analisava os números da pobreza extrema, dando conta da sua queda entre 1990 e 2015, de 1.895 milhões para 736 milhões. E concluía considerando que esta é a maior redução da pobreza extrema desde que o homo sapiens surgiu sobre a Terra, há cerca de cem mil anos”


Estamos a melhorar a condição humana ou a produzir humanos condicionados?

MRS: A tecnologia é um extraordinário acelerador da qualidade de vida e da elevação do ser humano, permitindo a cada vez mais indivíduos acederem a bens, materiais ou espirituais, que lhe eram inacessíveis até há poucas décadas. Isso não obsta ao crescente número de pessoas que se sentem excluídas da globalização, mas a vida é hoje mais confortável materialmente.
O número de pobres no mundo tem diminuído sem cessar. Em 2018, o Banco Mundial apresentou um relatório em que analisava os números da pobreza extrema, dando conta da sua queda entre 1990 e 2015, de 1.895 milhões para 736 milhões. E concluía considerando que esta é a maior redução da pobreza extrema desde que o homo sapiens surgiu sobre a Terra, há cerca de cem mil anos.
A esmagadora maioria dos seres humanos vive hoje em melhores condições, pode esperar ter muito mais anos de vida, com saúde, tem acesso a uma informação cada vez mais vasta e cada vez mais disponível, viaja, vai ganhando em horas de lazer. Infelizmente, como refiro noutra resposta, essa realidade esconde muitos excluídos, aqueles que pelas mais diversas razões se sentem, ou efetivamente são, afastados da nova sociedade da globalização.
O progresso é inevitável e é desejável. Mas a tecnologia e a extraordinária evolução das últimas décadas não pode representar o toque de finados da empatia entre os humanos. O isolamento e o tribalismo são verdadeira ameaças, como escreve num livro recente Jamil Zaki, professor de neurociência social na Universidade de Stanford, considerando ser a empatia cada vez mais necessária num tempo em que ela parece escassear.
Em A guerra pela gentileza: construindo empatia num Mundo fraturado, Zaki apela à ação; porque o ser humano, não tenho dúvidas, deve continuar a ser, como queriam os gregos antigos, a verdadeira medida de todas as coisas.

“O isolamento e o tribalismo são verdadeiras ameaças, como escreve num livro recente Jamil Zaki, professor de neurociência social na Universidade de Stanford, considerando ser a empatia cada vez mais necessária num tempo em que ela parece escassear”

Estamos a ir todos juntos ou estará alguém a ficar para trás?

MRS: Não podemos deixar que isso aconteça! É inquestionável que estamos a deixar muita gente para trás. Muita gente. Os excluídos da sociedade, os marginalizados, velhos e novos pobres, os idosos que vivem na solidão, os jovens que não encontram empregos à altura das suas qualificações, muita gente. Não tenho, de modo algum, uma perspetiva pessimista sobre o presente e, menos ainda, sobre o futuro. Pelo contrário, sou um otimista incorrigível! Ou, melhor dizendo, um otimista realista, que vê com alguma apreensão sinais que se desenham no horizonte. Desde logo, o facto de não termos aprendido todas as lições da crise de 2008, e não estarmos inteiramente preparados, em Portugal, na Europa e no mundo, para a eclosão de uma nova crise, ainda que com contornos diferentes da anterior. Mas também, num âmbito mais vasto, o facto de não estarmos inteiramente preparados para a alteração radical da natureza dos empregos, gerada pelas novas tecnologias e pela inteligência artificial. Sei bem que muitos estudos referem que, do mesmo passo que muitos empregos tradicionais desaparecerão, outros tantos – ou mesmo mais – se criarão noutras áreas. Preocupa-me, no entanto, que haja incidências diferenciadas, desde logo em termos geracionais. Com isso, pode gerar-se um problema sério de justiça intergeracional, a somar ao problema da injustiça que, segundo vários observadores, foi criado por uma “conspiração grisalha” dos mais idosos, que beneficiaram de empregos certos, para a vida, e de uma nível de prestações sociais que, sobretudo no domínio da Segurança Social, não estou certo que consigamos manter. Mas, acima de tudo, preocupa-me a situação dos excluídos, dos marginalizados. Há muitos anos, para se referir aos habitantes do então “Terceiro Mundo” e dos países ditos “não-alinhados”, alguém falou dos “povos mudos do mundo”. Continuamos a ter povos mudos no nosso mundo, e não apenas no hemisfério sul do planeta. Nas nossas cidades e mesmo nas zonas rurais, há muitos cidadãos que vivem na pobreza ou em risco de pobreza. Este é um combate em que me tenho empenhado, como sabem, mas não vou fazer agora o balanço do que fiz nesse domínio.

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