Madurez já não é obscuridade

Não estou certa de quem desempenha aqui o papel de líder: se as mulheres maduras, se os canais de streaming. Dois séculos depois de Balzac ter feito o elogio dos “atrativos irresistíveis” da mulher madura no A mulher de trinta anos (na época, 30 anos era já uma idade considerável), a madurez feminina ganha novo protagonismo, mas agora nas séries televisivas (uma espécie de livros, ou de novelas – decida qual – do nosso tempo). Recentemente, uma das responsáveis pela Netflix no Reino Unido diz que a aposta em mulheres maduras para protagonizar e realizar séries não se deve a nenhuma vontade de educar as audiências, mas à preocupação antiga de dar às audiências aquilo que elas procuram. E as audiências querem mulheres maduras, com papéis complexos e personagens multifacetadas longe dos clichés; querem uma visão mais alargada do que são as mulheres atrás e à frente de uma câmara, querem ver a diversidade com que vivem no dia-a-dia explorada. As faturações astronómicas dos serviços streaming, 9,6 milhões de subscritores da Netflix só no Reino Unido, um aumento de $15 biliões no orçamento da Netflix em 2019, com 50 novas produções em marcha, talvez sejam indicadores de que estão a ter alguma resposta. Mas não vale a pena escamotear que a influência é mútua e o streaming representa hoje a vanguarda e os números acima também demonstram a sua influência cultural crescente. Quando mulheres como a Meryl Streep de 69 anos (que se queixou do medo que sentiu de não ter papéis quando chegou aos 40), Nicole Kidman de 51, Laura Dern de 52 e Reese Witherspoon de 43 protagonizam uma das séries do momento, Big Little Lies, também dirigida por uma mulher de 58 anos; ou Sandra Oh, com 47, arrasa como agente do MI6 em Killing Eve; quando a Emma Thompson anda pela BBC a fazer de primeira ministra ou quando uma série sobre um bordel com todos os dramas habituais de um local de trabalho tem adesão na Hulu, percebemos que muitas das realidades ostracizadas ou escondidas ou consideradas impossíveis ou ignoradas já não o são mais. As mulheres compram mais bilhetes de cinema, veem mais televisão e, acima dos 55 anos, veem, em média, duas horas mais televisão do que um adulto médio. Continuam a escrever menos guiões, a serem menos vezes protagonistas e a realizar menos séries, mas a televisão e o cinema são uma indústria. O caso Weinstein mudou a história, mas há uma audiência para mulheres realizadoras, protagonistas e escritoras. Somos sobretudo nós que gostamos de ver retratada uma parte importante da nossa vida e todas as possibilidades que cabem numa mulher. Acabo como comecei: não estou certa de quem desempenha aqui o papel de líder, se as mulheres maduras com a sua resiliência e perspetiva que hoje as leva a exigir que falem delas sem inseguranças, se os canais de streaming que escancararam essa porta. De qualquer maneira, avançamos.

Por: Sandra Clemente, jurista

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