Líderes de quem? Ou de quê?

Adotando como mantra uma frase do meu último artigo, tirada da HBR – a liderança é sobre pessoas e as pessoas mudam todos os dias –, deparei-me nestes últimos dias com três casos que falavam da importância de as conhecer, às pessoas, e da fraqueza que supõe não as conhecer. Nos EUA, e sobretudo através do Twitter, onde hoje se discute grande parte da política nativa, Alexandra Ocasio-Cortez, a mais jovem congressista de sempre e estrela em ascensão entre os democratas americanos, a mulher que se diz ter posto o socialismo na agenda americana, e Ivanka Trump, adjunta do presidente dos EUA para a criação de emprego, empoderamento económico, desenvolvimento do mercado laboral e empreendedorismo, e também filha de Donald Trump, andam por estes dias envolvidas numa discussão AQUI bem resumida.

Tornando curto o que é comprido, AOC apresentou o “New Green Deal” que prevê, entre outras coisas, a garantia de um emprego e um rendimento mínimo para todas as famílias americanas, e Ivanka Trump, numa entrevista à Fox News, respondeu à proposta dizendo ter viajado nos últimos quatro anos pelo país todo e achar que os americanos não querem nada que lhes seja dado, querem ganhar um salário fruto do seu trabalho e ter a possibilidade de mobilidade social.

No Twitter, AOC respondeu que tinha sido uma dessas trabalhadoras de quem Ivanka falava, não as conheceu só, foi uma delas, e que o salário mínimo não é um presente, mas sim um direito, e as pessoas geralmente ganham menos do que o valor que criam: “As a person who actually worked for tips & hourly wages in my life, instead of having to learn about it 2nd-hand, I can tell you that most people want to be paid enough to live. A living wage isn’t a gift, it’s a right. Workers are often paid far less than the value they create”.

E, no mesmo Twitter, Ivanka Trump respondeu, grosso modo, que apoia o salário mínimo, mas não o rendimento mínimo garantido: “No, I did not. I support a minimum wage. I do not, however, believe in a minimum guarantee for people ‘unwilling to work’ which was the question asked of me”.

Não é da questão substantiva de que me quero ocupar aqui, mas do facto de ambas justificarem as suas opções políticas com o facto de conhecerem os americanos e acharem que o que cada uma propõe, ou apoia, é o que eles querem. AOC ganhou eleições, Ivanka Trump é conselheira de um presidente eleito. Cumpro a promessa de falar de casos de sucesso, os de ambas, mas o que me interessa aqui é a luta para liderar grupos que votam nas propostas de cada uma e que são a América que cada uma conhece.

Em Portugal, e numa entrevista forte ao Observador, Alexandre Soares dos Santos falou do mundo que tinha e da necessidade de falar com as pessoas para melhor as gerir. Andou por Portugal de norte a sul, Brasil, Alemanha, Irlanda, Angola e Polónia em trabalho; gostava de falar com quem trabalhava antes das reuniões: “Porque sou a favor do contacto com a pessoa e chegando mais cedo a uma reunião, sento-me com o quadro e tento saber como está a ir a carreira dele, se está contente, como vão as coisas em casa, que é uma coisa muito importante. A gente vai falando, sobre a companhia…”. “Não adianta defender coisas que na prática já não funcionam, mas por email não sei ver se você está bem disposto ou não. Se está com problemas ou não. Enquanto que se for ao seu gabinete ou tomar um pequeno almoço consigo, sei ver como está. Ainda hoje convido pessoas para o pequeno-almoço, para conversar, não estou a fazer exame, não estou a fazer avaliação, estou a sentir as pessoas, a permitir que transfiram conhecimentos”. “Os erros começam no cuidado que há que ter na escolha do management. Pessoas que saibam ser expatriados, que saibam manter o equilíbrio, porque de um dia para o outro ganham mais do que no seu próprio país e têm condições que não tinham, como casa, escolas para os filhos, etc.”.

O que parece evidente – haver uma diferença entre conhecer o mundo e vê-lo através das redes sociais e uma diferença entre conhecer as pessoas e falar com elas através das redes – no dia-a-dia é facilmente esquecido. Se a liderança é um atributo que se exerce de facto e tem consequências, Alexandre Soares dos Santos tem números e resultados que mostram e medem os efeitos da sua.

Poucos dias depois, para celebrar os 20 anos do Bloco de Esquerda, o Daniel Oliveira escreveu um excelente ensaio no Expresso e aponta, numa das partes do texto, que pode ser equacionada em todos os partidos e é talvez um dos exercícios mais clarividentes sobre o assunto já escritos em Portugal, como uma das fraquezas do BE, a falta de antenas na sociedade: “Por fim, a pequenez do partido. O Bloco não deverá chegar – muito longe disso – aos dez mil militantes ativos. Suspeito que esteja a metade… Isso resulta de ter nascido num tempo de menor apelo à militância partidária e de não ocupar lugares no aparelho de Estado. Mas não se pode dizer que tenha feito qualquer esforço para mudar isto. Pelo contrário, parece fazer tudo para que isso não mude. Por uma razão: as correntes internas do Bloco, que hoje são pouco relevantes do ponto de vista ideológico e programático, são determinantes na distribuição de poder interno e na construção de listas. E não têm qualquer interesse em mudar o status quo. Qualquer crescimento abrupto do partido, que fizesse a sua militância aproximar-se um pouco mais da sua realidade eleitoral, acabaria com estes poderes, que não têm qualquer implantação social e política fora do partido. Esta pequenez cria vários problemas. Primeiro, uma enorme dependência do aparelho mediático, por falta de implantação social. Segundo, uma enorme divergência entre as características da massa militante e da massa eleitoral. O eleitor do Bloco é muitíssimo mais moderado e reformista do que o militante… Terceiro, a falta de militantes tira ao BE antenas na sociedade (mesmo de forma distorcida, o militante partidário recolhe informação que transmite à cúpula). Quando decidiu não reunir com a troika, por exemplo, havia uma total incompreensão por parte de quase todos os dirigentes quanto ao sentimento de medo, e não de revolta, da esmagadora maioria dos portugueses. Tivesse mais militantes e eles teriam feito chegar à direção esse pulsar do país, incluindo o dos seus eleitores. Por fim, esta pequenez facilita uma má política de quadros”.

É um confronto com a realidade muito oportuno. Quem é que afinal queres liderar? Qual é o tamanho do grupo de pessoas a quem realmente chegas, a quem influencias realmente, que te consideram, com os meios que tens? É esse o teu fim/objetivo?

Temos sido muitíssimas vezes surpreendidos nos últimos tempos, talvez não todos ou até, talvez, só pequenos grupos tenham sido surpreendidos. Por isso, achei estes três casos importantes, para discutir quem, ou o quê, se lidera na realidade.

Por: Sandra Clemente, jurista

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