Líderes com fibra: sim ou não?

Grit é a expressão inglesa para o que, em português, se pode denominar “garra” ou “fibra”. Representa perseverança e determinação em prol de objetivos de longo prazo. Para simplificar, usarei aqui o termo “fibra”. A investigação sugere que as pessoas dotadas de fibra são mais bem-sucedidas. A fibra vence a inteligência. O futebolista Ronaldo, o canoísta medalhado olímpico Fernando Pimenta, ou a modelo Sara Sampaio alcançaram o patamar que se conhece porque são talentosos. Mas os seus talentos resultam, em grande medida, de uma enorme determinação. Hélio Lucas, o treinador de Pimenta, afirmou que o canoísta “era muito mau, ficava sempre em último”. Afirmou ainda que só o convidara “para ficar a treinar (…) por causa da determinação que ele demonstrava, a sua insistência, o nunca desistir. Os outros miúdos eram melhores, mas o Fernando era o mais determinado”.

A regra das dez mil horas, de que Malcom Gladwell tem dado conta, representa isso mesmo: para se ser bem-sucedido, como desportista, artista, estudante ou profissional em qualquer área, é preciso trabalhar incessantemente durante anos. A matéria é de tal modo relevante que, nos EUA e no Reino Unido, algumas escolas têm levado a cabo programas de desenvolvimento da fibra dos estudantes. Este “deslumbramento” com o grit emigrou para as discussões sobre a liderança. Alguns especialistas e comentadores têm argumentado que um dos segredos da boa liderança é a fibra. Será?!

Eis a resposta: não necessariamente. A fibra de um líder é importante, mas comporta riscos. Pode conduzir à persistência em projetos inviáveis. Pode tornar a pessoa obcecada e cega à realidade. Pode torná-la abrasiva e dominadora na relação com os outros. A fibra é uma qualidade – desde que combinada com outras qualidades. Fibra sem prudência conduz o líder a decisões insensatas e excessivamente arriscadas. Fibra sem humildade torna o líder incapaz de escutar e valorizar os outros – e impede-o de compreender as suas próprias limitações. Fibra sem ética conduz a decisões megalómanas, desonestas e perigosas. Fibra desacompanhada de apoio dos liderados torna o líder abrasivo, dominador e autoritário.

Estudos por nós realizados em Portugal e nos EUA mostram que os líderes mais eficazes são dotados de fibra, mas também humildes e apoiantes. Um estudo recente mostra mesmo que, para desenvolver a fibra dos liderados, um líder deve ser simultaneamente gritty e apoiante. Líderes que apoiam, mas são desprovidos de fibra acabam por ser amáveis – mas não encorajam, não entusiasmam, não estimulam, não promovem a fibra dos liderados. Simetricamente, líderes dotados de fibra, mas que não apoiam os liderados podem tornar-se abrasivos, dominadores e autoritários – e daí resulta menor fibra dos liderados.

Três ilações, duas gerais e uma específica, daqui decorrem. Primeira: uma dada qualidade de um líder pode transformar-se em fraqueza se esse atributo não for complementado com outras qualidades. A boa liderança requer, pois, uma combinação frutuosa de vários atributos. Segunda: liderar é um processo complexo, exigente e paradoxal. Como pode um líder dotado de fibra, crente absoluto na valia do seu objetivo, compreender que deve abandonar um projeto? Terceira: a determinação, a perseverança, a fibra dos líderes é potencialmente geradora de bons resultados se for acompanhada de outras qualidades como a humildade, a prudência, a empatia e o respeito pelos outros. Um bom líder é ambicioso, mas também humilde. É “humbicioso”.

Por: Arménio Rego, LEAD.Lab | Católica Porto Business School

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