Liderar é saber recuar

Num país dominado por uma greve, perante a qual o Governo reagiu como se fosse uma guerra (gostaria de ver qual a reação se por cá tivéssemos os coletes amarelos de França, ou outros movimentos verdadeiramente radicais), importa perceber como a falta de estratégia na liderança compromete objetivos.

No momento em que escrevo estas linhas não faço ideia se a greve já teve um desfecho e menos ainda que tipo de resolução teve. Porém, sei que no sábado dia 10 de agosto os sindicatos promotores da greve não perceberam que liderar um movimento não é (re)criar palavras de ordem heroicas, do tipo “nem um passo atrás” ou manter teimosamente uma posição.

Numa greve, como noutra qualquer atividade que envolva a condução de homens, uma das batalhas fundamentais é pela captação da simpatia ou, pelo menos, da compreensão da necessidade absoluta daquilo que se empreende. Nenhum motorista, entrando em greve, quererá passar a vida a justificar-se, ou assumir-se como responsável por as pessoas e as empresas não terem combustível indispensável para as suas vidas.

Respostas claras exigem, como é óbvio, uma análise realista da situação no terreno e uma via bem desenhada, em tudo diferente do lema “em frente é que é o caminho”. Pelo contrário, saber quando recuar é ainda mais importante do que saber quando avançar. Quando avançamos temos de estar convictos de que o caminho que trilhamos nos conduz a resultados positivos; caso contrário, mais vale parar para pensar e, muitas vezes, recuar.

Ora, no sábado referido, estavam reunidas as condições para os sindicatos recuarem em boa ordem, conseguindo captar a simpatia dos portugueses. Nesse dia tornou-se evidente que a associação patronal (ANTRAM) estava a vencer todas as posições junto do Governo: serviços mínimos exagerados (alguns a 100%); requisição civil; crise energética; mobilização dos militares. Pergunta-se: Os sindicatos acharam que podiam ser eles contra o mundo? Não fariam melhor em apontar esse conúbio como uma espécie de proibição da sua greve? Na verdade, depois do modo como o Governo reagiu ao pré-aviso da paralisação, colocando todos os meios possíveis ao dispor do transporte das mercadorias perigosas, nomeadamente combustíveis, o exercício pleno do direito à greve por parte destes sindicatos só poderia realizar-se através da violação da lei.

Se tivessem optado por recuar, não só dariam um sinal de responsabilidade e de legalidade, como impediriam que, depois de uma primeira manhã de greve tranquila, a requisição civil fosse decretada e os militares aparecessem a conduzir viaturas.

Naturalmente, com isso, o conflito em torno dos direitos salariais e regalias laborais não ficaria sanado. Porém, quando avançaram, reduziram as hipóteses de os resolver no futuro. Foram atacados como se fossem inimigos do país, perderam qualquer simpatia por parte da população e deram um enorme trunfo aos seus patrões e ao Governo. Ou seja, perdem em todas as frentes.

Ao contrário, suspendendo, mostravam como o Governo – com medo do seu poder – tinha feito uma operação de guerra, à qual não faltou gabinete de crise e trinta por uma linha. Claro que o Governo celebraria à mesma a desconvocação da greve, mas esse trunfo forte e poderoso que é poder paralisar um país, ficaria, ainda, nas mãos dos motoristas.

O poder que se pressente é, muitas vezes, bastante maior do que o seu exercido. Eis algo que faltou saber a quem decidiu avançar para a greve sem a garantia de que podem sair dela vitoriosos ou, pelo menos, não totalmente derrotados.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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