Liderança participativa: o poder de confiar e delegar

Resilient Leaders é um projeto de investigação que revela histórias reais de resiliência, enquadrado no LFI – Leadership for Impact Center – da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e financiado pela Partac. Miguel Pina e Cunha, professor catedrático da Nova SBE e titular da cátedra Fundação Amélia de Mello de Liderança, conduz a investigação que através da análise das experiências traumáticas ou de disrupção vividas por alguns líderes, bem como dos seus efeitos, pretende identificar as características psicológicas e as variáveis envolventes decisivas para um comportamento construtivo e persistente, e por isso resiliente, em resposta a um contexto ou evento desfavorável. Com este projeto, pretende-se ainda inspirar outros indivíduos na superação das suas situações adversas.
Todos nós, em algum momento da nossa vida, atravessamos ou experimentamos acontecimentos profundamente negativos ou perturbadores. Porém, as diferentes pessoas reagem de maneira distinta a estes eventos. Em alguns casos, surgem transtornos, como o stress pós-traumático, ansiedade, depressão ou abuso de substâncias que criam dependência. Noutros casos, verifica-se uma resposta positiva que parece fortalecer e libertar a pessoa, funcionando como um impulso na direção da realização dos objetivos pessoais e/ou profissionais.
Importa, pois, perguntar em que condições podem os obstáculos e dificuldades, pela sua superação, levar a este resultado positivo, quase absurdo, originando uma contrarreação positiva ao invés de uma reação destrutiva?
Alguns líderes, que se destacam pela sua história de resiliência, ajudam-nos a aprofundar esta questão. Dos nove participantes convidados para o projeto, seis já foram entrevistados por Laurinda Alves, jornalista e professora de Comunicação, Liderança e Ética, na Nova SBE, e Carmen Lages, professora de Marketing da Nova SBE.
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Entrevista a Madalena d’Orey, presidente (principal dreamer) da Terra dos Sonhos

A Madalena resistiu ao cancro na sua infância. Imediatamente, percebeu que a sua missão passava por ajudar os outros na mesma condição que ela e, assim, na sua juventude, começou por ajudar como podia. Hoje, é presidente da Terra dos Sonhos, uma das associações mais importantes no que toca ao apoio a crianças e adolescentes com doenças crónicas.

O que marca a história da sua vida?

Madalena d’Orey (MO): Eu sou a Madalena e costumo muito apresentar-me a dizer que gosto de viver. Há muitas histórias que marcam a minha vida, mas sem dúvida a que vem em primeiro lugar, foi um cancro que eu tive com dez anos, portanto há 37 anos.

E isso refez a história da sua vida?

MO: Não sei como é que seria se não tivesse tido o cancro, mas acredito que essa experiência tenha moldado muito a pessoa que eu hoje sou.

Em que dimensões encontra diferenças em relação à vida das outras pessoas?

MO: Com dez anos, ter-se um cancro e viver-se uns anos no IPO é uma situação que não é comum nas crianças com essa idade e, portanto, durante vários anos, a minha vida foi vivida com a consciência de que podia morrer, e a lutar pela vida. Portanto, as minhas prioridades eram outras relativamente às prioridades das pessoas dessas idades, tinham a ver comigo e com a minha situação. Muito por causa da morte de uma grande amiga minha que teve um cancro nessa altura, depois de ter acabado os meus tratamentos, senti que se eu fiquei aqui viva é porque a vida esperava algo de mim. Então, depressa houve um trabalho interior, ao longo da minha vida, de maneira a que eu tentasse perceber o que é que a vida espera de mim.

Tão determinante como o cancro foi o ‘sobreviver’, atravessar o cancro e ficar viva. Isso mesmo é determinante de uma nova vida, uma nova consciência?

MO: Eu acho que sim, não sei de muitos casos de pessoas que sobreviveram com o tipo de cancro que eu tive naquela altura e com toda a certeza condicionou, acima de tudo, porque a esperança que eu tinha de vida era muito curta, era muito pouco tempo, nem um mês era. E, portanto, o questionar o ‘porque é que eu fiquei viva’ foi uma questão que esteve presente dentro de mim bastante tempo.

Isso foi o motor para refazer o quê?

MO: Isso foi o motor para ter sentido e aceitado o que a vida esperava de mim, o que só eu podia dar, e depressa me apercebi do impacto que era a minha presença no IPO, a dizer àqueles pais que já tinha passado por um cancro e que estava viva. Depressa percebi a minha presença naqueles miúdos, e naqueles adolescentes, a conseguir partilhar experiências e a fazê-los sentir que não estão sozinhos naquele barco, e depressa me apercebi que a minha escolha de vida passaria por criar algo do valor que teve a ver com a minha experiência. Penso que o que fez com que isto acontecesse, muito também, foi a morte da Inês não é!? Porque nós estávamos as duas a fazer tratamento ao mesmo tempo, tínhamos praticamente a mesma idade, partilhávamos coisas juntas, a minha cabeleireira passou para ela e tudo mais… E de repente a Inês morre e eu fiquei aqui, e acima de tudo o que senti nessa altura, e que sinto hoje ainda, é que as “Inêses” que eu tenho acompanhado, e que me transmitem e falam tanto comigo, que as sinto muito presentes dentro de mim.

Falou em três coisas radicalmente adversas: a perspetiva da sua própria morte, a morte de uma amiga, de uma grande amiga que está a atravessar a mesma doença, e não ter cabelo. São três coisas brutais quando se tem dez anos ou em qualquer idade. Como é que lidou com essa adversidade?

MO: Não é fácil, acredite que é um choque grande e, a minha consciência, a minha luta, sempre foi fazer com que isso se tornasse uma memória e não um trauma, e, portanto, construir-me enquanto pessoa. Sentir o que me está a ser pedido para estar ao serviço das coisas, e dos projetos que eu acredito, e trabalhar de maneira a que essas imagens todas, e esses momentos, que parece que foram há cinco minutos – as pessoas às vezes acham que não foi há 37 anos – foram momentos muito duros, que consigo descrevê-los como se fossem muito recentes. Houve uma determinada altura que olhava para esses momentos, refletia e acabava em sorrisos, e isto foi um trabalho que foi sendo feito. O sorriso é a aceitação, não é dar graças a Deus pela experiência que tive, mas é vê-la como uma memória que faz parte da minha vida e da pessoa que hoje sou.

Esse sorriso – que é um sorriso exigente, é um exercício, um treino – é o que define a fronteira entre a vitimização, a paralisia que vem quando sentimos que a vida é cruel e adversa, e a força transformadora para começar a fazer coisas?

MO: A vitimização para mim é uma palavra muito forte, não gosto de falar a partir desse território. O que eu acredito plenamente é que isto teve a ver com a minha história de vida, e a minha história de vida pessoal, são momentos que fazem parte de mim. E como é que eu posso fazer para que esses momentos me permitam ser cada vez melhor do que aquilo que sou? É naquilo que sou chamada a fazer.

É muito interessante e tem um impacto enorme, não só aquilo que a Madalena faz como a maneira como fala, porque de facto a vitimização é um território difícil, pantanoso, mas é um território legítimo. Uma pessoa que consegue elevar-se acima das circunstâncias e consegue chegar à outra margem, que é sair desse perímetro, sair desse território, é espetacular…

MO: É preciso muito trabalho, e é preciso muitas vezes estar-se em muitas zonas de desconforto, e perceber muito o que é a nossa sombra, o que é que as pessoas estão a espelhar relativamente àquilo que eu sou. E, portanto, foi uma aprendizagem, que acho que foi valente e corajosa, e que foi uma escolha que eu fiz, e que tem a ver comigo.

E nessa aprendizagem valente e corajosa, quem é que foram os pilares, quem é que a apoiou?

MO: É curioso, porque ao longo da minha vida tenho tido pessoas, que elas nem sabem, mas que me dão muita força, e tem a ver com as várias fases da vida em que eu me sinto muito conectada com elas, muito provavelmente porque elas espelham coisas e atitudes que têm a ver comigo, não é!? E que refletem algo que eu faço também. É curioso porque tem acontecido aparecerem, pontualmente, pessoas em que parece que vem uma campainha e que dizes: “Ok, esta pessoa vai intervir na tua vida”. Isto acontece-me com bastante frequência e hoje em dia, com muitas delas, consigo sentir que isso vai acontecer, e quando elas chegam à minha vida sei exatamente que existe alguma missão.

Portanto, a sua resiliência e essa sua construção interior é muito apoiada nas pessoas que conhece, e que às vezes não sabem que têm esse papel. É uma “resiliência partilhada” digamos assim.

MO: Sim, é muito. Penso muitas vezes que um dia gostava de dizer a essas pessoas que elas fizeram parte e fazem parte da maneira como eu acredito que se deve viver. Há pessoas pelas quais tenho um carinho muito especial, sei lá… estou a falar, por exemplo, do Papa João Paulo II. Ele quando veio a Portugal, em 1982, eu não pude ir vê-lo porque estava mal, e pedi aos meus pais para irem vê-lo. E o meu pai decidiu pôr-me aos ombros e ir à Avenida 24 de julho comigo, para ver o papamóvel passar, e o Papa quando passou, parou, e fez-me a bênção, e este momento para mim, por exemplo, foi um momento muito importante – e tenho vários momentos destes. Às vezes basta um sorriso ou um piscar de olho. Agora que estou a falar disto, lembro-me muito bem de num penúltimo tratamento de quimioterapia que eu fiz, em que estava muito cansada mesmo, e às tantas uma enfermeira veio ter comigo, e eu disse-lhe que ia desistir, e ela disse-me que se não desisti até aquela altura, não era agora que ia desistir, e piscou-me o olho. E esse piscar de olho parece que foi um pó de vitaminas para dentro de mim, para conseguir ter energia a fluir cá dentro e a dizer: continua.

Os Resilients Leaders, neste conceito de liderança contemporânea, são líderes de influências, de proximidade. Nesta sua liderança inspiracional e de influência, de proximidade, onde é que acha que as pessoas vão colher exemplos?

MO: O tipo de liderança em que acredito tem muito a ver com uma liderança participativa. Lidero, neste momento, um projeto da Terra dos Sonhos, já liderei também outros projetos ao longo da minha vida – que têm a ver com a área da saúde e da doença, porque é uma escolha que eu fiz como carreira, como vida –, e o que eu pretendo transmitir às pessoas da equipa que lidero é que pretendo que elas consigam experienciar tudo aquilo em que acreditam, e que não seja eu a dizer tudo. E, portanto, isto é uma liderança participativa, a liderança que serve, é a liderança em que eu acredito profundamente. Mas é preciso muito trabalho. Eu acho que sou muito trabalhadora, gosto de ter pessoas na minha equipa muito trabalhadoras, e sou exigente como líder, porque a maneira como lidero tem a ver com a maneira como me vejo, e eu sou exigente comigo própria, gosto de ser focada, gosto de ser trabalhadora, e acima de tudo gosto de assumir compromissos. O que eu escolho fazer enquanto líder é permitir que as pessoas da minha equipa consigam ter experiências, que elas próprias consigam também ser líderes dentro da própria organização.

Os seus medos mudaram? Ou seja, havia o medo da morte, antes do medo da morte havia o medo de ficar sem cabelo…

MO: Há uma coisa que eu percebi na vida, que me consola bastante, que é tudo aquilo que eu penso ou que eu sinto, não sou um extraterrestre a sentir e, portanto, eu consegui perceber o que é comum em todas estas crianças e adolescentes que passam por uma situação como um cancro. Na minha adolescência tive bastante tempo, mais do que um ano, a ter dores de cabeça e a achar que tinha um cancro na cabeça; a ter dores de garganta e a achar que tinha um cancro na garganta; e por mais ajuda que tivesse perante a sociedade e das pessoas em quem confiava, a escolha tinha de ser minha, e houve um dia que acordei e pensei: “Tenho dor de cabeça é porque tenho cabeça” e pronto! Portanto, o medo existe… existe o medo das recaídas, existe o medo da pessoa ter de ir fazer análises, existe o medo que tenho, por exemplo, de ir para um país do terceiro mundo e de repente acontecer alguma coisa… A partir de determinada altura senti que os medos tinham a ver com crescimento e, portanto, a minha vida é rodeada de muitos medos, quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Agora tudo depende, mais uma vez, da intenção com que estou neste momento, e se a intenção for o crescimento, tudo fica mais fácil.

E os sonhos, já que é a líder da Terra dos Sonhos, com o que é que sonha?

MO: O meu sonho é verdadeiramente conseguir estar empenhada, ter saúde e cabeça para conseguir trabalhar para uma sociedade que, para mim, fica mais justa a partir do momento em que eu consigo, ou através de uma equipa que é a Terra dos Sonhos, tocar na vida de alguém e fazer a diferença. Digo muitas vezes que um sorriso vale tudo. As crianças com doenças crónicas, as crianças institucionalizadas, os idosos a quem dedicamos o nosso dia-a-dia, é possível eles sorrirem e nós somos motores, agentes de felicidade, para que depois eles façam das suas vidas a escolha que quiserem. Mas a nós, Terra dos Sonhos, cabe-nos dar essas ferramentas, que têm muito a ver com autoestima, comunicação positiva, gestão das emoções, aceitação de mudança e, acima de tudo, sonhar! Eu acredito nos sonhos, acredito que os sonhos para serem realizados dão muito trabalho, mas acredito muito também que não estou sozinha.

Só para acabar, o que mais a apaixona?

MO: A vida, o que mais me apaixona é a vida e poder fazer da minha profissão aquilo que a vida me está a pedir que eu faça.

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