Inovação para a competitividade

Não é possível dissociar a evolução humana da evolução e desenvolvimento da tecnologia. Esta busca constante levou à criação de soluções práticas para dar resposta às necessidades diárias, conduzindo ao longo dos séculos ao desenvolvimento de ferramentas que possibilitaram criar máquinas que progressivamente foram adquirindo maior complexidade. Numa perspetiva histórica, de modo geral, é fácil identificar marcos que podemos considerar verdadeiramente transformadores da organização das populações, das cidades, dos processos produtivos e, muitas vezes, também da própria interação e do relacionamento entre os povos.

Se o século XX foi verdadeiramente marcado por um contínuo aparecimento de ideias inovadoras e sem precedentes, será expectável que no decurso deste século a evolução seja ainda mais rápida e introduza as maiores transformações face ao que já conhecemos. A inovação é, mais do que nunca, um elemento diferenciador para que as empresas sejam competitivas e assegurem a sua sustentabilidade a médio e longo prazo.

Muitas empresas precisam de se reinventar continuamente para continuar a sobreviver às mudanças impostas pelo tempo; a promoção de um ambiente aberto à participação de todos, o desenvolvimento de programas de estímulo à criatividade, a integração de equipas interdisciplinares, a aceitação de ideias e sugestões dos colaboradores, assim como a sua valorização e reconhecimento, são fatores bastante potenciadores.

Mas se por um lado a inovação focada nos produtos e processos ainda se afigura crítica para o sucesso das organizações e para a sua competitividade, certo é que estamos numa fase em que a inovação do modelo empresarial e/ou do negócio é igualmente de crescente importância. Numa realidade que se move à velocidade da luz, o risco está efetivamente em não inovar!

Ambientes propícios à inovação

O desenvolvimento de ambientes propícios à inovação tem registado ao longos dos anos grande êxito. Silicon Valley uma das referências mais conhecidas, comprova que a ligação entre universidades, empresas e investidores tem forte impacto no desenvolvimento de soluções criativas, inovadoras e, muitas vezes, disruptivas. Este modelo de desenvolvimento que se revelou eficaz, esteve na origem de empresas como a Intel, Apple, Google, entre outras.

Por outro lado, as plataformas abertas decorrente da generalização da Internet têm também permitido alavancar o mercado da tecnologia e da inovação por força da criação colaborativa; enquanto que muitos modelos tradicionais são restritos a parcerias fechadas entre universidade e empresas, as plataformas abertas possibilitam às empresas olhar para além dos seus limites internos e os seus produtos podem resultar de ideias vindas de diversos colaboradores. Este sistema, também conhecido como inovação aberta, colaboração coletiva ou crowdsourcing, tem permitido o estabelecimento de parcerias no mundo, colhendo o interesse de empresas como a Nestlé, Embraer e Procter&Gamble. Na realidade, o crowdsourcing combina os esforços de vários colaboradores, num ambiente onde cada um por sua própria iniciativa adiciona uma pequena parte para gerar um resultado maior. A Wikipedia é um dos casos mais conhecidos de trabalho em crowdsourcing. Outros novos conceitos, como a co-creation, enquanto processo que permite melhorar e aperfeiçoar as necessidades que deverão ser incorporadas nos novos produtos e ou serviços, tem também vindo a tornar os processos ligados à inovação, ainda mais dinâmicos.

Ciclo de vida do produto e inovação

O constante aparecimento de novos produtos e serviços, decorrente de inovação, leva muitas vezes a que estes permaneçam menos tempo no mercado e se encurte o ciclo de vida expectável. Verificando-se a obsolescência cada vez mais rapidamente, são vários os desafios que na vertente ambiental também se colocam.

O processo de inovação considera pelo menos três fases genéricas que devem ser consideradas:

Figura 1 – Fases genéricas para a inovação

Estas três fases evidenciam a importância base da criatividade, onde as ideias estão na origem de todo o processo; o qual, passando pelo desenvolvimento/construção do produto ou serviço, culminará, no último estágio, no ensaio/teste antes da sua disponibilização ao cliente.

Forças disruptivas vs. inovação

Muitas vezes, a inovação resulta de uma necessidade que já existe mas que ainda não é percebida por todos e não está satisfeita. Outras vezes, a inovação gera a própria necessidade, como é o caso de vários gadgets presentes atualmente no mercado.

Figura 2 – Forças disruptivas

Estas forças disruptivas, funcionando em ciclo, permitem despoletar o processo de inovação. Em 1895, King C. Gillette, enquanto se esforçava por barbear, idealizou uma máquina que lhe facilitaria esta operação, surgindo em 1900 o primeiro protótipo da máquina de barbear. Vinte anos depois é lançado um novo modelo melhorado e durante quase cem anos nunca mais parou de a inovar, continuando ainda hoje presente na vida de grande parte da população.

O sucesso para a sustentabilidade das empresas inovadoras está em assumir a necessidade contante de acompanhar a evolução e as necessidades que a cada momento se colocam, desenvolvendo produtos ou melhorando os existentes, conduzindo assim à expansão e crescimento dos negócios. Exemplo disso é também a 3M Company, criada em 1902 nos EUA (no estado do Minnesota), vista como uma das empresas mais inovadoras do mundo. Mas encontramos excelentes exemplos também em Portugal. No nosso país, o Grupo Delta destaca-se pela capacidade em impulsionar a inovação interna. Através do Mind (Modelo de Inovação da Delta), são analisadas ideias, selecionadas as melhores e desenvolvidas as que apresentam potencial inovador. Este projeto está na origem do lançamento de produtos inovadores e verdadeiramente disruptivos como foi o caso do sistema RISE (Reverse System Experience) apresentado em 2017 por este Grupo.

Certo é, que é cada vez mais evidente que empresas de sucesso são aquelas que não veem a inovação sob a ótica de geração de custos, mas sim sob a ótica da criação de valor. Recentemente, a DHL Express estabeleceu uma parceria com a Ehang na China, identificando soluções inovadoras no setor logístico das entregas de last mile. Recorreram à utilização de drones, estimando-se que esta solução aumente a eficiência e rentabilidade dos envios, realizando-os com menor consumo de energia e reduzindo consideravelmente o tempo de entregas da DHL Express.

Cultura de inovação

Empresas de sucesso revelam ter estabelecido e desenvolvido uma cultura de inovação, acreditaram nos seus resultados e colocaram-na nos seus objetivos estratégicos. Para estas empresas, a inovação foi e sempre será uma prioridade com um fim determinado: assegurar a sua própria sustentabilidade.

A construção de uma sólida cultura de inovação resultará sempre do envolvimento da gestão e da promoção de condições essenciais para que esta se possa desenvolver. Das quais se destacam:

      • estimular a participação dos colaboradores;
      • estar a aberto a sugestões;
      • apoiar a realização de estudos e pesquisas;
      • disponibilizar tempo e recursos;
      • acompanhar as tendências do mercado e necessidades dos consumidores;
      • estabelecer parcerias e fomentar a cooperação;
      • reconhecer e recompensar esforços;
      • estabelecer métricas para avaliação da inovação;
      • monitorizar o retorno financeiro dos produtos/serviços que resultam de processos inovadores;
      • não ter medo de errar!

Ainda que se trate de um processo que leva algum tempo para se consolidar, numa fase madura da organização, a cultura de inovação assume-se como uma rotina e fará parte do seu ADN, sendo prosseguida por todos os colaboradores que percebem e reconhecem a sua importância e contributo para uma diferenciação no mercado.

Vários são os desafios que a inovação comporta

Em contexto de grande mudança, as empresas que prosperam são as que fazem uso eficaz dos seus recursos, promovem investimentos em inovação, mantêm o foco nas necessidades dos clientes, promovem uma cultura de inovação e mantêm a equipa comprometida com estes valores. Liderando a inovação, constroem-se vantagens competitivas duradouras para a empresa. Recordando Peter Drucker, “…a simplicidade tende ao desenvolvimento, a complexidade à desintegração”, é importante não perder de vista que o que é efetivamente inovador também pode ser simples.

Por: José Guilherme Tavares, presidente da Associação Portuguesa para a Inovação e Desenvolvimento e responsável de Segurança e Saúde no Trabalho do Grupo ETE

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