“Influencers”? Sim, sempre houve…

Se vos falar de Harriet Beecher Stowe, quantos saberão de quem se trata? E se em vez desta simpática senhora, referir um sacerdote chamado John Newton? Continuam sem saber quem é? No entanto, são grandes influencers, embora de outro tempo.

Harriet viveu entre 1811 e 1896; quem poderia pensar que uma senhora do séc. XIX podia ter uma influência de tal modo grande que levou um país a travar uma guerra civil? Não um país qualquer, mas os Estados Unidos da América, e não uma guerra qualquer, mas a Guerra da Secessão, que opôs o Norte e o Sul, os esclavagistas do Sul contra os Estados que se opunham à escravatura, no Norte. Harriet, provavelmente, nunca quis ser uma influencer, apenas escritora. E escreveu um livro, que nem sequer é considerada uma enorme obra literária, mas que ficou para a História – A Cabana do Pai Tomás.

Sendo uma abolicionista, criou a figura de Uncle Tom (traduzido por “pai Tomás”), um velho escravo que passara uma vida de sofrimento. O romance descreve, assim, a realidade da escravatura, ao mesmo tempo que exorta os cristãos a não tolerar algo tão indigno.

Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos, sentiu que a hora de colocar um fim na escravatura tinha chegado. Em parte, isso deveu-se ao enorme sucesso que o romance alcançara (300 mil exemplares vendidos no primeiro ano, nos EUA, e meio milhão em Inglaterra), de tal modo que, quando o Presidente conheceu Harriet, ia a guerra no começo, terá afirmado: “Então é esta a pequena senhora que deu início a esta grande guerra?”.

Harriet Beecher Stowe, embora razoavelmente esquecida, foi uma enorme influenciadora. Sem nada, apenas com papel, uma caneta e um tinteiro fez um livro que foi posto à venda em 1852. Nove anos antes do começo da guerra. Se Lincoln disse ou não a frase citada, não é certo, mas a ideia de que foi ela a “empurrar” a causa do abolicionismo na América, ficou para sempre. Hoje, porém, muitos ativistas põem em causa os estereótipos que A Cabana do Pai Tomás criou. Como tem sido comum neste tempo, lê-se a história de há 150 anos com os olhos de hoje…

Curiosamente, a outra figura referida, o padre (anglicano) John Newton, viveu antes de Harriet (1725-1807) e foi exatamente o primeiro dos abolicionistas militantes. Em 1772, quatro anos antes da revolução americana e 17 antes da revolução francesa, escreveu um hino religioso que se tornou numa autêntica canção subversiva dos poucos que então se opunham à escravatura. Esse hino, que poucos hoje relacionam com um ofício religioso, continua a ser entoado em todo o mundo. Chama-se Amazing Grace e, quem por acaso não o conhecer, basta procurá-lo em qualquer plataforma – do YouTube ao Spotify ou iTunes.

John Newton foi outro enorme influenciador. A sua inspiração perdura há quase 250 anos. Em 2016, um filme sobre a vida de William Wilberforce, o homem que conseguiu que o Parlamento britânico aprovasse o fim do tráfico negreiro, tem o mesmo nome do que a canção de Newton. No ano passado, um filme que retrata a vida de Aretha Franklin, chama-se, igualmente, Amazing Grace.

Newton, como Harriet e Wilberforce são nomes que não nos dizem grande coisa. Mas mais do que mudar uma moda, um estilo, algo da espuma dos dias, foram verdadeiros influencers. A força das ideias sempre existiu e as suas consequências, boas ou más, perduram e alteram o rumo das vidas.

Hoje confunde-se influência, a verdadeira, aquela que quase desconhecidos (para nós) como estes que aqui referi exercem – ou pensadores como Espinoza, Voltaire, Rousseau, Franklin, Hamilton, Soregaarden, Popper, Churchill e inúmeros outros – com aquela de quem publica no YouTube ou no Instagram e tem milhões de seguidores. Mas que fazem eles pelo mundo? Pouco. Parece-me que têm feito muito mais, incomensuravelmente mais, por eles próprios.

Por: Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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