Federação Portuguesa de Futebol, a “love brand” de todos os portugueses


A organização Leaders anunciou a lista de vencedores da edição de 2019 dos Leaders Sports Awards, que premeia os melhores talentos mundiais – organizações e indivíduos – que estão a inovar e a liderar a indústria do desporto. Nuno Moura, Chief Marketing Officer da Federação Portuguesa de Futebol, é o único português entre os eleitos, onde estão incluídos profissionais da NBA, NFL, Wimbledon, Facebook, Red Bull, City Group, UEFA, FIFA, Amazon, San Francisco 49ers, Miami Heat, entre outras entidades líderes no desporto à escala global.
Nuno Moura, que já havia sido eleito pela Leaders em 2016 pelos esforços desenvolvidos na americana Nike em torno dos Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol, vê assim o seu trabalho premiado com o galardão máximo da indústria pela segunda vez, desta feita por aquilo que produziu ao serviço da Federação Portuguesa de Futebol, de Portugal para o mundo.

Por: Ricardo Vieira, coordenador editorial

Está novamente na lista dos Leaders Sports Awards, agora pelo trabalho desenvolvido na FPF. O que diferencia um líder americano de um português?

Nuno Moura (NM): É um orgulho imenso ver o nosso trabalho ser reconhecido em fóruns internacionais tão prestigiados quanto o Leaders Under 40. Esta nomeação não é apenas focada em conquistas individuais mas premeia o esforço coletivo de um grupo de trabalho extremamente talentoso, que demonstra inesgotável paixão no serviço dos nossos atletas, adeptos e consumidores diariamente. O reconhecimento ganha ainda mais valor quando olhamos a lista de ilustres e valorosos candidatos que se apresentaram. Centenas de indivíduos, de mais de 30 países, representando as maiores organizações e entidades desportivas e tecnológicas do planeta. Ser escolhido por um júri composto por cem elementos entre líderes da indústria, conselheiros académicos e personalidades do desporto, num processo que durou nove meses, é simplesmente fantástico. Não poderia estar mais contente. Que este seja um ponto de ignição para o reconhecimento externo do talento nacional que existe nas áreas do marketing, do digital e da tecnologia aplicadas ao desporto. E que, de resto, acontece já com os nossos atletas, treinadores e agentes desportivos. Talento não escasseia, temos valorosos profissionais e empreendedores portugueses que podem ajudar na inovação de processos e dinamização do desporto enquanto negócio à escala global.
Relativamente às diferenças entre o líder americano e o português, a cultura corporativa nos Estados Unidos é, sem dúvida, distinta com desafios diferentes colocados aos líderes. O líder americano é talvez mais competitivo e feroz, mais exigente, também mais formal e “frio” na sua relação com os colaboradores. O trabalho bem diferenciado das relações pessoais, menos empatia e equilíbrio da componente social do que cá. Tem de lidar com equipas exageradamente ambiciosas, muitas vezes irrealistas nas suas pretensões de promoção acelerada e frequente, pelo que a gestão de pessoas e das suas expectativas é determinante. É também alvo de uma pressão constante e, por vezes desmedida, por parte de boards e shareholders num mercado onde 15 dias de férias anuais é a norma. As oportunidades de trabalho no país são também imensas pelo que o nível de rotatividade de colaboradores e líderes para outras organizações é mais frequente. Dito isto, há certamente bons e maus líderes tanto em Portugal como nos EUA, a delineação de estereótipos deixa de ser tão óbvia atualmente, especialmente quando observamos as maiores organizações.

Que decisões de carreira (académicas e profissionais) foram decisivas para ser reconhecido como um líder no setor?

NM: Estou extremamente feliz com o meu percurso profissional e com o patamar onde me encontro hoje. Faço o que gosto, por vezes até me esqueço que se trata de trabalho, é bom poder acordar e encarar com contínua paixão os desafios que tenho pela frente. Na minha opinião, isso é o mais importante e, sem dúvida, a receita para o sucesso e felicidade profissional. É verdade que o meu percurso foi por vezes tortuoso, as opções tomadas nem sempre fáceis, tive de sair múltiplas vezes da minha zona de conforto, correr alguns riscos e abdicar de muita coisa, incluindo ficar longe dos meus amigos e da minha família. No entanto, esse grau de dificuldade torna as vitórias mais saborosas.
Levo mais de 15 anos de trabalho no marketing, media e digital nas mais diversas indústrias. Seis anos em Londres, seis em Portugal e quatro nos Estados Unidos. Trabalhar no estrangeiro é algo que toda a gente deveria experienciar a determinada altura na sua carreira. Enriquecedor a todos os níveis, pois força-te a adaptar a ambientes que te são pouco ou nada familiares, a desafios que não encontrarias de outra forma. O teu grau de maturidade e independência aumentam, bem como a capacidade de resolver problemas. Quando te vês exposto a uma nova cultura, costumes e línguas, descobres coisas sobre ti próprio que desconhecias, certas crenças, paixões e caráter. Definitivamente expande os teus horizontes e compreensão sobre o mundo. É ótimo também para fortalecer a tua rede de contactos profissionais e capacidade de comunicação. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, as inovações chegam primeiro e o ritmo e intensidade do trabalho é ímpar pelo que adquires novas dinâmicas e processos. Estas experiências são tao mais valiosas na era digital em que vivemos; sem fronteiras que limitem o alcance das marcas e do comércio eletrónico, torna-se fundamental compreender o resto do globo para que as experiências, conteúdos e produtos que desenvolvemos atinjam todo o seu potencial em diferentes geografias.

James Worral, fundador e CEO da Leaders, disse que os vencedores (da lista que também integra) “estão a moldar os destinos do desporto e a conduzir o setor a um futuro melhor e mais risonho”. É este o seu foco também?

NM: Sem dúvida. O nosso foco, a nossa missão, é inspirar e servir todos os atletas, adeptos e comunidades apaixonadas pelo futebol e pelo desporto, e provocar mudança positiva na sociedade. Dentro e fora das quatro linhas. A indústria do desporto sofreu uma transformação hercúlea em anos recentes. O desenvolvimento comercial das mais populares competições atraiu muitas novas marcas e organizações interessadas em participar no desporto, o que desafiou também o seu modelo tradicional de governança. Este setor tem hoje uma crescente influência política, económica, social e, até mesmo, ambiental com forte impacto no mundo. Os líderes desta indústria têm, por isso, hoje, de tomar decisões sustentáveis, éticas e concertadas, e colaborar com todos os agentes envolvidos no desporto para encontrar soluções para desafios comuns e desenvolver um modelo sustentável de (boa) governança. Tudo isto é essencial para manter a paixão que as comunidades sentem pelo desporto bem acesa, e é algo que pauta a nossa missão aqui na FPF. Somos mais do que uma Federação. Para além de desenvolvermos o futebol em Portugal e de trazermos cada vez mais meninos e meninas para a prática saudável desportiva, queremos contagiar o país e o mundo com positividade, com o exemplo de dedicação e bravura das nossas equipas e heróis. Queremos intervir socialmente e ambientalmente para que o contexto e ambiente em Portugal sejam cada vez mais positivos e benéficos para as comunidades. O desporto tem o poder para causar mudança positiva e nós abraçamos completamente essa missão de intervenção social com a maior felicidade.

A Nike, onde já trabalhou e pela qual foi eleito pela primeira vez para este prémio, tem um enorme reconhecimento mundial e tem conseguido manter a sua capacidade de influência. A marca FPF pode também ser líder no setor do desporto?

NM: A marca FPF é hoje uma referência mundial de excelência e liderança no setor do desporto, dentro e fora das quatro linhas. A solidez do planeamento estratégico e o investimento significativo em infraestruturas, tecnologia e conhecimento está a traduzir-se em sucesso desportivo. Portugal detém atualmente, e de forma simultânea, os quatro principais títulos europeus – Europeu, Liga das Nações, Europeu de Futsal e Europeu de Futebol de Praia – um feito sem precedentes, com resultados frutíferos a estenderem-se de forma transversal a diferentes modalidades, escalões e géneros. Os jogadores e treinadores portugueses são altamente valorizados pelo mercado e sinónimo de qualidade superior. A liderança acontece também na formação, onde a FPF é a primeira Federação a fundar e a operar uma universidade. A oferta educativa abrange os tradicionais segmentos – treinadores e árbitros – e foi, também, alargada às áreas da saúde, performance, direito, media e marketing, para que possamos dotar os stakeholders com responsabilidade (local, regional e nacional) na gestão, desenvolvimento e promoção do futebol de competências e novas ferramentas que possam contribuir para acelerar o crescimento da modalidade em Portugal. Num país de 11 milhões, com um universo de 215 mil atletas federados, temos de ser muito mais eficientes que outras nações de maior dimensão na retenção e nutrição do talento para termos sucesso. A chave mestra é o conhecimento.

Como é que a FPF pode tornar-se uma leading brand a nível mundial?

NM: A FPF é uma love brand para todos portugueses, a mais democrática das marcas, mas é também uma marca que lidera de Portugal para o mundo. Através das suas Seleções – marca Portugal – tem, hoje, uma expressão relevante nas diferentes geografias (Ásia, África, Américas). As nossas equipas, os nossos heróis, as nossas histórias de valentia, superação e conquista inspiram novas gerações de atletas e fãs. Em todo o mundo encontramos adeptos que envergam as nossas cores, as robustas vendas de merchandising oficial são disso prova. Os nossos protagonistas cativam audiências: Ronaldo o melhor do mundo no futebol, Ricardinho o melhor do mundo no futsal, Madjer o melhor do mundo no futebol de praia, e um rol de atletas e treinadores que estão a fazer furor nos mais diversos mercados. A Seleção tem, por muitas vezes, estado no centro de campanhas globais de marcas como a Nike ou a EA Sports. As colaborações com artistas de dimensão mundial como Shawn Mendes ou Nelly Furtado, com assets de entretenimento como Narcos, The Walking Dead ou The Simpsons, e até mesmo com as maiores plataformas de media do mundo, têm contribuído gradualmente para a consolidação da marca à escala planetária. As parcerias comerciais que estabelecemos na Ásia, especialmente na China, também têm constituído uma plataforma importante de internacionalização da marca. A China representa a maior geografia populacional do planeta, é a segunda maior economia mundial, e a paixão pelo futebol e aposta nesta modalidade está em ascensão meteórica no país. O futebol na China tornou-se uma prioridade do governo que recentemente incluiu a modalidade no currículo escolar e avançou com a construção de milhares de centros de treino e campos de futebol. A FPF tem parcerias formalizadas com marcas locais que têm ajudado o crescimento da nossa marca naquela região estrategicamente fundamental. Em especial, durante o último campeonato do mundo, desenvolveram uma série de ativações de marca e experiências para os consumidores chineses, aproveitando toda a euforia que se viveu antes e durante a competição pelos muitos fãs de Portugal no território chinês.

Cada vez mais, os programas de sustentabilidade das marcas e a relação que têm com o ambiente determinam a escolha de muitos consumidores. Que trabalho pode ser feito pela Federação nesse sentido?

NM: O ambiente é um dos pilares de atuação do nosso programa de responsabilidade social corporativa. A atuação nesta área tem como objetivo principal a diminuição do impacto da nossa atividade no meio ambiente, reduzindo a nossa pegada ecológica. Nesse sentido, temos procurado dotar a Cidade do Futebol (sede da FPF e centro de estágio das Seleções Nacionais de Futebol) de todos os mecanismos que permitam ir ao encontro deste objetivo. A Cidade do Futebol tem instalados painéis solares (cuja energia é utilizada para aquecimento de águas) e separadores de resíduos em todos os espaços, incluindo cozinhas. Esta aposta foi estabelecida desde a sua construção onde foi utilizada toda a pedra existente nos terrenos para revestimento das fachadas dos edifícios, assim como na utilização de água filtrada para consumo pessoal de todos que nela trabalham. Ao mesmo tempo, numa outra área core da nossa atividade, a organização de grandes eventos como os jogos das Seleções Nacionais e das competições que organizamos, temos procurado implementar estratégias tanto de redução de impacto como de sensibilização do público para esta temática. Separação total de resíduos, entrega de excedentes alimentares, assim como sensibilização do público para a utilização dos transportes públicos, são algumas das normas com que temos trabalhado. Podemos ainda salientar que neste âmbito realizámos o primeiro evento carbono zero em Portugal, um jogo da Seleção Nacional, onde foram compensadas todas as emissões de carbono em reflorestação de mata nacional. Para lá do sucesso dentro das quatro linhas, queremos ser campeões da sustentabilidade fora delas e um verdadeiro motor de influência positiva na nossa comunidade.

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