Extremista é ele

A imprensa portuguesa tem-se desdobrado na produção de textos sobre o extremismo político em curso e a polarização tóxica que o acompanha. Faz sentido. O processo é perigoso e os supostos brandos costumes da sociedade portuguesa não a protegem dos extremos. Mas o que se entende por extremo? Uma possibilidade é que o extremista é o que nem sequer aceita coexistir com o outro. A sua mera presença é uma ameaça existencial para o extremista. Este é um processo tóxico porque a democracia é, como alguém disse, a única forma civilizada de guerra civil.

O problema do importante debate em curso é que ele dá a ideia de que extremista só há um: o Ventura. Ora para polarizar um sistema são necessários dois polos, por definição. E os extremismos existem dos dois lados. Quando um ideólogo do Partido Trabalhista britânico diz, com aparente orgulho, não ter amigos conservadores, está a ser extremista – e seguramente algo mais que isso. Quando alguém defende que um branco é necessariamente racista por causa da sua cor de pele, está a expressar uma opinião racista mesmo que se diga anti-racista.

O problema é esse: achar que extremista é o outro. Essa atitude exacerba os extremos e polariza o sistema. Ou seja, como o extremismo depende da existência de dois polos, também aqui é preciso um par para dançar o tango. E o facto de um dançarino guiar o outro não significa que esteja a dançar sozinho. Nessa dança, como se costuma dizer, os extremos tocam-se. Ardentemente.

Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

Artigos Relacionados: