Ética e Inteligência Artificial nas empresas

Entre os muitos desafios que as empresas enfrentam, encontra-se sem dúvida o de como lidar com o “novo mundo” da Inteligência Artificial (IA), sendo porventura poucas as empresas que se encontram verdadeiramente preparadas para um futuro que será dominado, em diversos campos, pela IA. E um desses campos é, sem dúvida, o da ética empresarial – embora seja frequente ver discutidos os temas de ética em geral que a IA e a robotização suscitam, nem sempre o foco é colocado no impacto que a IA necessariamente terá sobre a ética empresarial. Por outras palavras, embora sejam imensos os desafios que a Inteligência Artificial coloca em termos de ética empresarial, este é um tópico que, lamentavelmente, tem sido pouco abordado no mundo corporativo, embora mereça especial reflexão.

Consciente desta realidade, o GRACE decidiu debater, no passado dia 08 de junho, no contexto do Encontro Ibérico que anualmente organiza com a sua congénere espanhola (a Forética), justamente o tema “Ética e Inteligência Artificial – Desafios Empresariais”.

Com esta iniciativa, que teve lugar na sede da Cisco, pretendeu o GRACE promover a reflexão, por parte tanto de empresas portuguesas como de empresas espanholas, sobre as inúmeras e complexas questões que as organizações empresariais necessariamente terão de endereçar sobre esta matéria num futuro que já chegou.

A discussão envolveu quer empresas tecnológicas, como a IBM, a Microsoft e a Indra, quer instituições académicas, quer ainda empresas de setores que só aparentemente se poderão considerar menos impactados pelo avanço da IA e da robotização da economia.

O debate foi animado e permitiu constatar não apenas um generalizado consenso de que a IA veio para ficar, como que a melhor forma de lidar com ela será procurar extrair o melhor que tem para nos oferecer, sem nunca negligenciar a preocupação de minimizar as ameaças que coloca ao mundo empresarial tal como (ainda) o conhecemos.

Um dos temas que foi discutido foi o de como evitar que os enviesamentos a que necessariamente o ser humano está sujeito, sejam incorporados nos algoritmos que são criados, levando-os a “tomar decisões” também elas enviesadas (como sucedeu em casos recentemente relatados, no campo da justiça).

Inevitável foi também abordar o impacto da IA não só no próprio recrutamento – será um algoritmo que aprende melhor recrutador do que uma equipa de RH? – como na substituição de seres humanos por robôs – positivo, porque liberta os seres humanos para tarefas de maior valor acrescentado, ou negativo porque destrói emprego?

Igualmente interessante foi notar o consenso gerado à volta de um tema que tem sido pouco discutido, mas que pode também influenciar a forma como as empresas vão evoluir: no mundo da Inteligência Artificial, a inteligência emocional adquirirá uma importância crescente, pelo que os gestores de topo que não “trabalharem” este tipo de inteligência, poderão estar menos preparados para assegurar a competitividade das suas organizações.

Sendo o tema inesgotável, são bem-vindas todas as iniciativas que ajudem a colocá-lo na agenda das empresas e o GRACE espera poder dar um continuado contributo nesse sentido.

Por: Margarida Couto, presidente do GRACE em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

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