Em Portugal, são os mais jovens e com mais formação que querem emigrar

“Lisboa foi eleita a melhor (e mais barata) cidade do mundo para viver em 2018” (Visão, 2018). “Lisboa ganha óscar do turismo. É a Melhor Cidade Destino da Europa” (Diário de Notícias, 2018). Estes são alguns dos títulos de notícias que tivemos oportunidade de ler no ano passado. Muitas outras surgiram em anos anteriores, em que a capital de Portugal é eleita como a primeira escolha de muitos turistas.

Para além de Lisboa, existem outras regiões portuguesas, tal como o Douro e o Algarve, que todos os anos atraem centenas de turistas, estudantes e reformados. Assim, não restam dúvidas que Portugal é um país atrativo a muitos níveis. Mas não para trabalhar.

Quando confrontados com os resultados de um estudo realizado pela Boston Consulting Group (BCG), em parceria com a rede internacional de portais de emprego The Network, cujo representante em Portugal é o Alerta Emprego, observamos que a atratividade de Portugal muda neste aspeto.

Quando confrontados com a pergunta “Qual seria o seu país de eleição para trabalhar?”, os 360 000 inquiridos em todo o mundo colocam Portugal na 30.ª posição e Lisboa na 40.ª.

Após analisarmos estes dados, a pergunta que surge é “Porquê?”. Porque é que sendo tão atrativos a nível turístico, não estamos no topo da escolha no que diz respeito a trabalhar?

A verdade é que ser um dos países da Europa Ocidental com o salário mínimo mais baixo não abona a nosso favor. Lisboa é uma cidade barata para os turistas, mas não tanto para quem cá vive e trabalha.

Com o preço das casas, dos transportes e dos serviços a aumentar, o rendimento dos portugueses não acompanha esse crescimento. Embora tenha vindo a diminuir, a taxa de desemprego também é consideravelmente alta e ainda são poucas as boas oportunidades de carreira e de progressão na mesma.

Talvez por esse motivo, para além de não atrairmos mão-de-obra, a que temos também pretende sair: 58% dos portugueses tem desejo de procurar oportunidades fora do país e (a má notícia) são os mais jovens (62%) e mais qualificados (59%) que pretendem sair.

Mas se Portugal tem tanta falta de mão-de-obra qualificada, o que leva a que os nossos jovens formados queiram procurar oportunidades noutros países, tais como Espanha, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e França, entre outros?

Do nosso ponto de vista, estes países oferecem o que nós não conseguimos. As oportunidades de carreira são melhores, as perspetivas salariais são mais elevadas e a qualidade de vida é melhor.

Tudo isto, em simultâneo com uma experiência de vida diferente e a aquisição de uma experiência profissional além-fronteiras, leva a que os nossos jovens façam as malas e vão atrás de novos sonhos.

Claro que este tipo de informação nos dá que pensar. Sermos um dos destinos turísticos mais atrativos do momento é algo inestimável para a economia do país e responsável pela criação de cerca de 70% dos empregos no ano passado. Mas sendo muitos deles precários e sem perspetivas de progressão, que consequências terá a longo prazo?

Fará sentido recrutarmos profissionais qualificados de outras nacionalidades, quando deixamos os nossos irem escapando a pouco e pouco?

Como reverter estes números? Como podem as empresas compensar de outras formas os seus atuais e futuros colaboradores? O que ajudaria na decisão de ficar? Seguros de saúde, teletrabalho, ginásio, equilíbrio profissional e pessoal, gelados? Parece que teremos de continuar a tentar.

Mas, como sempre, existe o outro lado da moeda. E existem boas notícias e possíveis “game changers” nesta realidade (talvez) desmotivadora.

O facto de termos um custo de vida mais baixo, conjugado com um conjunto de fatores atrativos – temos sol, praia, boa comida, paisagens magníficas, somos simpáticos, sabemos receber –, pode significar termos uma realidade diferente num futuro não muito longínquo.

“Hub português da Mercedes será o maior da Europa”, anunciou, também no ano passado, o Diário de Notícias. Esta notícia vem confirmar o que tinha sido divulgado há mais de um ano, onde se anunciava que “Lisboa vai ter um dos maiores hubs da Europa”. Para além da Mercedes, UNICER, Web Summit e Factory são três ocupantes já confirmados.

“Google abre centro de serviços em Portugal” é outra das boas notícias que nos chegou pelo Público. Mas não é a única. A multinacional Pipedrive junta-se à Google e a outras startups que também chegam ao nosso país: Uber, Glovo e Zomato, por exemplo.

Mas o sucesso não alcança apenas as startups que decidem vir para Portugal. Também as startups portuguesas demonstram que “o que é nacional é bom”. Falamos de empresas como a Farfetch – o primeiro “Unicórnio Português” – e a Outsystems, o mais recente “Unicórnio” com ADN nacional.

Mas não são as únicas. Embora (ainda, quem sabe) sem estatuto de animal mitológico, também a Talkdesk, Unbabel, Prozis, Uniplaces, Feedzai e Chic by Choice se encontram entre algumas das startups mais sexy da Europa, o que certamente atrai muitos profissionais qualificados para o nosso país.

“A crescente relevância da capital portuguesa no ecossistema de startups europeu deve-se, por exemplo, ao inglês fluente que se fala em Lisboa, onde 42% dos residentes fala duas línguas e 23% fala três. Outros motivos referidos são o talento da mão-de-obra e o preço do metro quadrado dos escritórios, que a Wired considera económico”, noticiou o Observador.

Afinal, nem tudo é mau. Embora as condições salariais ainda não sejam as mais atrativas, quando conjugadas com o clima, a comida, a hospitalidade e o custo de vida (entre muitos outros), Portugal ganha outro reconhecimento aos olhos tanto de candidatos como de empresas. E é a isto que temos de nos agarrar.

Por: Joana Piteira, marketing manager do Alerta Emprego

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