Eficácia feliz

Na doutrina da Marinha, comandar envolve o exercício de competências para dirigir, coordenar e controlar, entendendo-se que dirigir corresponde à autoridade para dar ordens, coordenar outorga a competência para estabelecer prioridades e atribuir recursos, e controlar implica a responsabilidade por garantir a execução das ordens, no respeito pelos padrões definidos e de acordo com as prioridades estabelecidas.

Entre julho de 2002 e dezembro de 2005, tive o privilégio de comandar a fragata Corte-Real[1]. Nos diferentes contextos em que a ação de comando pode ser exercida, o comando no mar assume desafios particulares que resultam do facto de ocorrer em ambiente adverso, envolvendo a permanente necessidade de gestão de risco, sendo inalienável a responsabilidade do comandante pela segurança do seu navio e da sua guarnição, e pelo cabal cumprimento da missão, em ambientes e cenários de grau de complexidade muito diferenciado, mesmo em operação normal, ou de maior dificuldade, como as situações de emergência ou de combate.

Para responder com eficácia a estes desafios, ao comandante no mar é requerido um conhecimento apurado do espaço marítimo onde cada missão se desenvolve, das capacidades disponíveis no navio que comanda e, de capital relevância, dos níveis de proficiência da sua guarnição, estando nela, e nas pessoas que a compõem, o centro de gravidade da capacidade militar do navio, pois é a qualidade do seu desempenho que faz transformar o potencial dos sistemas de bordo em poder militar efetivo.

A primeira prioridade do comandante deve ser, assim, a construção da sua guarnição, interiorizando, em cada uma das pessoas que a integram, um sentimento de pertença e de corresponsabilidade por todo o navio, criando condições para que a organização de bordo permita a plena exploração das competências individuais e a sua integração no desempenho global do navio.

O processo de formação da guarnição inicia-se com a seleção das pessoas chave na estrutura de bordo e prolonga-se para o adequado acolhimento e integração de cada elemento que se apresenta a bordo, complementado pelo seu constante envolvimento nos processos e na vida do navio, procurando sempre incutir em cada elemento da guarnição o sentimento de que o navio também é seu.

Construída a identidade e definidos os objetivos do grupo, é então necessário edificar uma equipa capaz de explorar plenamente as capacidades do navio para alcançar o sucesso no cumprimento de cada missão. É aqui que o treino assume o papel principal, conferindo e mantendo qualificações e, pelo confronto com níveis de complexidade e exigência crescentes, testando os limites da proficiência individual e coletiva.

A procura da perfeição deve ser o padrão, pelo que é essencial incentivar cada elemento da guarnição a adotar uma atitude construtiva, que estimule o sentido crítico como condição para poder evoluir individual e coletivamente, mas também uma postura de abertura à inovação e à mudança.

Diz-me a experiência que na construção de equipas é essencial a exploração do sucesso dos bons momentos de concretização de objetivos com reconhecido mérito, facto que é tão mais importante quanto maior for o grau de exigência a que o grupo for sujeito. Assim, em cada missão, é importante retirar ensinamentos com a identificação de fatores de sucesso e com a análise das lições aprendidas.

Neste âmbito, cada elemento da guarnição deve ter perfeita consciência de que o seu contributo é fundamental ao sucesso do todo, reforçando a sua autoestima. Cria-se, deste modo, um processo interativo em que o sucesso gera motivação e a motivação conduz ao sucesso.

Este processo deve ser potenciado através de uma liderança inclusiva, procurando incutir, em todos os níveis, atitudes de referência que sejam um modelo inspirador para o grupo, assentes numa cultura de rigor e competência, no respeito pelo lema – a eficácia feliz – que tem tradução direta na capacidade para alcançar desempenhos de elevado padrão de qualidade, do qual emerge a satisfação de cada um pelo seu contributo para o resultado e por fazer parte de uma equipa coesa, competente e feliz.

Comandar no mar envolve o exercício permanente de uma apurada capacidade de decisão e de liderança, o que constitui uma experiência particularmente rica em termos profissionais e humanos que a tornam inesquecível e o desafio mais aliciante para um oficial de Marinha!

Por: António Maria Mendes Calado, Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada

[1] A Corte-Real é a terceira fragata da classe Vasco da Gama, tendo sido construída na Alemanha e entregue, em 1991, à Marinha Portuguesa. Trata-se de um navio de guerra com 116 metros de comprimento e 3 500 toneladas de deslocamento, dotado de um complexo sistema de combate, otimizado para a luta antissubmarina, e operado por uma guarnição de cerca de 200 militares.

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