E os gigantes digitais, também vão juntos connosco?

Não é nova a conversa sobre a influência e o poder, por muitos dito desequilibrado, que os gigantes digitais têm hoje na sociedade. Seja a Google, Facebook, ou similares, todas estas empresas produzem lucros fantásticos e exploram os seus mercados num quase regime de duopólio (ainda há uns anos, 99% de todos os novos dólares investidos em publicidade digital foram ou para o Facebook ou para a Google). Contudo, a sociedade começa já a questionar a ética e a moral por detrás destas operações. Dinâmicas fiscais criativas, manutenção de monopólios, escândalos de privacidade (ou da falta dela), e tantas outras formas de atingirem os seus objetivos, levaram a que a sociedade ficasse reticente com estas empresas.

Já este ano, a FTC (Federal Trade Comission) multou o Facebook em cinco mil milhões de dólares: menos de um mês de receitas da empresa, ou a soma dos nossos orçamentos de Defesa e Ensino Superior, para referência do leitor. Fruto da multa (ou não), o Facebook alterou a mítica frase “It’s free and always will be“, que figurava no seu site desde 2008, tendo agora um muito menos específico “It’s quick and easy”. Do ponto de vista legal e tecnológico, este poderá ter sido um passo importante em reconhecer que os dados pessoais dos utilizadores têm, de facto, um valor económico associado.

Ao mesmo tempo, surgem propostas nas presidenciais americanas para que existam políticas fiscais onde sejam estes gigantes digitais, através de um imposto nos seus lucros, a financiar o jornalismo sem fins lucrativos. Com o declínio das receitas de publicidade, em muito devido à introdução destes intermediários, resta saber se e como é que estes gigantes querem contribuir para a sociedade.

Nas escolas de gestão, uma das primeiras aulas trata (quase) sempre da definição de empresa. E, se bem me lembro, identifica-se nessa definição a função principal da empresa: a remuneração dos seus acionistas. A visão, missão e valores ficam para as aulas seguintes. Contudo, durante este mês de agosto, cerca de 200 CEO americanos concordaram em alterar o propósito das suas empresas e, especialmente, das suas lideranças. A remuneração aos acionistas apareceria como último ponto de ordem, numa lista de cinco. Em primeiro lugar, o propósito da empresa deveria ser entregar valor aos seus clientes. Em segundo, investir nas suas equipas. Em terceiro, lidar de forma justa e ética com os seus parceiros e fornecedores. Em quarto, suportar as comunidades em que estas empresas se inserem. Por último, como já vimos, remunerar a estrutura acionista.

Esta é uma mudança de paradigma importante, que deve ser exportada para os quatros cantos do mundo. Uma sociedade alinhada com as empresas, as empresas alinhadas com a sociedade.

Por: João Romão, fundador da GetSocial.io

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