É na adversidade que os verdadeiros líderes se destacam 

Resilient Leaders é um projeto de investigação que revela histórias reais de resiliência, enquadrado no LFI – Leadership for Impact Center – da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e financiado pela Partac. Miguel Pina e Cunha, professor catedrático da Nova SBE e titular da cátedra Fundação Amélia de Mello de Liderança, conduz a investigação que através da análise das experiências traumáticas ou de disrupção vividas por alguns líderes, bem como dos seus efeitos, pretende identificar as características psicológicas e as variáveis envolventes decisivas para um comportamento construtivo e persistente, e por isso resiliente, em resposta a um contexto ou evento desfavorável. Com este projeto, pretende-se ainda inspirar outros indivíduos na superação das suas situações adversas.
Todos nós, em algum momento da nossa vida, atravessamos ou experimentamos acontecimentos profundamente negativos ou perturbadores. Porém, as diferentes pessoas reagem de maneira distinta a estes eventos. Em alguns casos, surgem transtornos, como o stress pós-traumático, ansiedade, depressão ou abuso de substâncias que criam dependência. Noutros casos, verifica-se uma resposta positiva que parece fortalecer e libertar a pessoa, funcionando como um impulso na direção da realização dos objetivos pessoais e/ou profissionais.
Importa, pois, perguntar em que condições podem os obstáculos e dificuldades, pela sua superação, levar a este resultado positivo, quase absurdo, originando uma contrarreação positiva ao invés de uma reação destrutiva?
Alguns líderes, que se destacam pela sua história de resiliência, ajudam-nos a aprofundar esta questão. Dos nove participantes convidados para o projeto, seis já foram entrevistados por Laurinda Alves, jornalista e professora de Comunicação, Liderança e Ética, na Nova SBE, e Carmen Lages, professora de Marketing da Nova SBE.

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Entrevista a Jorge Pina, fundador da Associação Jorge Pina

O Jorge, em tempos, foi uma das referências portuguesas no boxe, mas perdeu 90% da sua visão. No entanto, com o mote “onde há vontade não há limitações”, sempre seguiu para a frente com a sua carreira profissional e até participou nos Jogos Paralímpicos de Pequim (2008), de Londres (2012) e do Rio de Janeiro (2016). Hoje, na sua própria associação, ensina boxe a jovens com deficiência.

Em traços gerais, qual é a história da sua vida?

Jorge Pina (JP): A história da minha vida é uma história muito longa, triste e feliz ao mesmo tempo. Eu nasci num bairro social, que se chama Rego, Bairro de Santos, aqui bem perto, que era um bairro de barracas, que agora já não existe. Eram prédios de habitação social e na altura em que eu vivi nesse bairro havia muitos problemas de álcool e drogas. Nós éramos uma família muito numerosa, tive de deixar de estudar para ir trabalhar, para ajudar a minha família, e na altura eu tinha uma paixão, queria ser campeão do mundo de boxe, queria ser como o Muhammad Ali. Fui atrás desse sonho e durante essa busca conquistei vários títulos, vários troféus e acabei, depois, por cegar e perder a visão.
Mas antes disso tudo, o meu pai veio de Angola, eu fui feito em Angola e nasci no Algarve, em Portimão, por isso é que eu tenho esta cor (risos). Dentro disso tudo, eu tive uma infância muito ditatorial, o meu pai era um bocado agressivo… Mas foi a maneira, se calhar, que ele aprendeu ou que achou que era a melhor maneira de educar os seus filhos. Não é por isso que eu ganhei ódio ou raiva por essa forma do meu pai educar, aprendi algumas coisas com ele e outras que eu achei que não eram necessárias para mim, para o meu crescimento, e não fiquei com elas. Durante a minha juventude, tive alguns consumos de álcool e droga. Depois, o desporto foi um resgate.
Como tinha o sonho de ser campeão do mundo de boxe, achei que era aquele o meu caminho e quando estava no auge depois de já ter ganhado tudo, resolvi passar a profissional. Um dia, estava a treinar quando aconteceu o descolamento de retina do olho esquerdo. Estava em estágio e não me elucidaram da gravidade do problema, continuei a combater e fui perdendo a visão gradualmente, do olho esquerdo. Ainda tive alguns combates antes de ser observado por um médico e acabei por ser operado de urgência. Mesmo depois de algumas cirurgias, fui perdendo a visão gradualmente e acabei por cegar totalmente do olho esquerdo. Mais tarde, numa consulta ao médico, disseram-me que tinha de ser operado de urgência ao olho direito e eu questionei porquê, já que estava bem, conseguia ler e escrever sozinho, mas disseram-me que se não fosse operado, podia ficar totalmente cego.
Eu aceitei a cirurgia. Fizeram uma operação e fiquei a ver pior. Outra, e fiquei a ver ainda pior. Depois outra… e antes de ir para a última cirurgia, dei por mim a conversar com algo que não conheço, um ser superior, que eu achava que era Deus, e estava com um terço na mão a falar, a dizer que eu sabia que Ele ia estar presente, que me ia operar, que eu ia sair de lá a ver, mas acabei por sair de lá pior do que entrei. E muitas coisas podiam ter passado pela minha cabeça: Onde é que está esse teu Deus? Onde é que está essa tua fé?… Mas pronto, achei que alguma coisa de diferente tinha acontecido. A verdade é que acho que vejo melhor agora do que via antes.

O que é que isso quer dizer?
JP: Porque eu vejo melhor agora, antes era cego, era egoísta, era obcecado, queria viver o mundo e queria viver o “ter” e não vivia o “ser”. Agora consigo ver com outros olhos, consigo olhar para o próximo, olhar e não o julgar, ou catalogar pela roupa que ele tem, se é doutor, se é engenheiro… Olho para ele como um “ser”, espero que ele me dê respostas e eu consiga entender, e ver a verdadeira essência de cada pessoa. Fui aprendendo com a vida, com a fé, com a crença, com a meditação, com a espiritualidade, com tudo.
Depois desta situação toda pensei: O que é que eu posso fazer? Vou ficar a sofrer, ou quero ser feliz? Agarrei isto tudo que me aconteceu, para me transformar a mim e para transformar os outros. Queria ajudar as pessoas, queria criar projetos para ajudar pessoas, e foi isso que aconteceu. Acho que estou aqui por algum motivo, acho que todos nós temos uma missão na Terra, temos é que saber recebe-la e cumpri-la da melhor forma, da melhor maneira, sem prejudicar ninguém e contribuindo para que este universo e este mundo possam crescer em harmonia, em paz, e são esses os ensinamentos que eu aprendo e quero transmitir a todos as pessoas com quem trabalho, com quem me cruzo e a quem quero ensinar.
A associação que criei com o meu nome não é minha, é de todos os que quiserem fazer parte dela, eu só sou o sonhador, o que sonhou e que gosta de sonhar grande. Quero ajudar muitas pessoas a encontrarem o seu caminho e por isso criei uma escola de boxe, porque sou apaixonado por boxe e quero ensinar jovens. Criei uma escola de atletismo adaptado, porque depois de deixar de fazer boxe fui para o atletismo adaptado e achei que também devia ajudar outras pessoas com todo o tipo de deficiência – visual, intelectual ou motora –, para fazerem desporto também, para se sentirem bem e sentirem que não têm deficiência nenhuma, é esse o objetivo. O que nós queremos não é criar atletas, não é criar campeões no desporto, mas sim campeões na vida, tudo o resto é consequência.

Se eu lhe pedisse para dar um passo atrás e sair de si mesmo, e olhar com algum distanciamento para si, e lhe perguntasse: ao comparar-se com a vida da maioria das pessoas, quais são as principais diferenças que há entre a sua vida e a vida da maioria das pessoas?
JP: A maioria das pessoas ainda está cega. Acabamos por ser muito egoístas ainda, pensamos muito em nós e acho que devíamos pensar mais nos outros, acho que tem de haver uma transformação no mundo.

Se pudesse explicar-me que transformação é essa, que idealiza, que acha perfeita, independentemente de ser possível ou não?
JP: Se as pessoas se respeitassem, se amassem, amassem de amor… não do amor carnal, mas o amor… outro tipo de amor. Se respeitassem, se amassem, e se fossem gratas pelo ar que respiram, porque sem ele morremos.

O que podem as outras pessoas retirar do seu exemplo?
JP: A resiliência, a força e a fé, é isso que eu quero que as pessoas tirem de mim. E que desistir não é o caminho, nunca, sejam quais forem as adversidades.

Imagine que agora aparecia aqui uma pessoa que teve uma experiência adversa muito forte e está com imensas dificuldades a dar uma resposta, e sente-se revoltada, zangada, etc… Como é que podemos ajudar uma pessoa que está a passar por esta experiência mais traumática, a ser resiliente?
JP: Ela que tente oferecer o seu amor a alguém.

É esse o caminho?
JP: É, eu achei que devia dar o meu amor a alguém e esquecer o que tenho, porque não tenho nada, e há pessoas que se calhar estão piores do que eu, não sabem se morrem ou não, e querem viver. Eu posso partilhar esse meu amor com elas, e quando ajudo os outros ganho muito.

Considera-se um líder?
JP: Sim, sou um líder, mas devia ser mais ainda. Às vezes dobro-me muito, sou muito flexível e tenho muita compaixão, e por vezes temos de ser mais duros, mas considero-me um líder social, que pensa nos outros.

O que é que a sociedade tem de fazer para trazer a resiliência que está dentro das pessoas cá para fora? Que contexto externo podemos dar aos indivíduos de maneira a potenciar essa capacidade de resistência à adversidade suja?
JP: Nós não conseguimos essa capacidade quando não acreditamos em nós, quando achamos que estamos impotentes. Temos de ser mais positivos.

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