É a demografia, estúpido!

Se, porventura, falarmos de diversidade de género, sem dúvida que estamos perante um tema trivial pelo facto de ser comum falar-se, vulgar debater-se e, por regra, estarmos “todos” a par do tema. Mas, o facto de ser trivial não significa que lhe falte pertinência.

Paradigmático o facto de escrever estas linhas na altura em que o Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social divulgou as conclusões dos Quadros de Pessoal referentes a 2017. Em Portugal:

      • Os salários médios das mulheres são 14,9% inferiores aos dos homens;
      • As mulheres recebem, por mês, cerca de menos €150 e, por ano, menos €2100;
      • A disparidade salarial corresponde “a uma perda de 54 dias de trabalho remunerado por parte das mulheres”;
      • As diferenças salariais aumentam para 18,3% e €225/mês quando se incluem prémios, subsídios e trabalho suplementar;
      • A disparidade sobe para 26,4% e €670/mês no caso dos quadros superiores.

Portanto, continua a ser importante falar, debater, alertar, sensibilizar e, infelizmente, legislar. À semelhança das quotas a que as empresas públicas (pelo menos, 33,3%) e as cotadas em bolsa (20% até 2020, subindo neste ano também para 33,3%) estão obrigadas desde o início de 2018, no sentido de terem determinados percentuais de mulheres nos conselhos de administração e nos órgãos de fiscalização, a força da lei contribuirá igualmente para a promoção da igualdade remuneratória entre homens e mulheres.

Com efeito, desde o passado dia 21 de fevereiro, as entidades patronais passaram a ter de assegurar uma política remuneratória clara e objetiva, consubstanciada em critérios de desempenho e meritocracia, comuns a homens e mulheres.

Considerando um atraso civilizacional o “ter de ir lá à força da… lei”, do mal o menos. Isto à semelhança do dia que também se comemora a 08 de março, enquanto concedo esta resposta. Para quando o Dia Mundial do Ser Humano? Infelizmente, a forma como a mulher continua a ser tratada em sociedade obriga a justificar o primeiro e a atirar “para as calêndulas” qualquer espécie do segundo.

De referir, por último, as diversidades não triviais que continuo a ver muito menos debatidas, ameaçando tornarem-se, no entanto, em autênticos flagelos das sociedades atuais, designadamente: idade, etnia, religião, credo, território de origem, cultura, nacionalidade e naturalidade. Olhemos para os movimentos em crescendo nos países ditos evoluídos e, talvez inspirado por enviar esta missiva do Médio Oriente, a descarada estratificação/segregação profissional no apelidado “terceiro mundo”. Como diria o outro: é a demografia, estúpido!

Por: Manuel Sousa Antunes, co-founder & partner da UNEEQ Consulting Group e presidente da associação Pessoas@2020

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